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Governo e política, crime e segurança, arte, escola, dinheiro e principalmente gente da cidade sem portas
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O mundo dividido

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dfdfdfdfdf Um texto universal de John Kani

 

 

É possível colocar no palco a história de uma nação? – perguntou no Guardian o crítico Michael Billington, justamente no dia da festa do Oscar. Para ele a resposta é positiva, e aponta como exemplo a peça “Kunene and the King”, em cartaz em Londres no teatro Ambassadors. O texto é do ator e ativista político sul-africano John Kani, um dos astros de “Pantera Negra”, aquele blockbuster da Disney que lotou os cinemas no ano passado.

A peça se passa na Africa do Sul. Faz sucesso em plena temporada do Bafta e do Oscar com seus dois personagens: Antony Sher interpreta Jack Morris, um ator velho e rabugento que espera vencer um câncer de fígado para ir a Cape Town interpretar o Rei Lear; John Kani é Lunga Kunene, enfermeiro aposentado contratado por uma agência para cuidar de Morris.

Enquanto um se preocupa com a falta de segurança do país, outro mostra indignação pelo descumprimento das promessas feitas ao povo e pela dificuldade em construir uma democracia real.

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Kani almejava a carreira de advogado. Não deu certo porque seu tio e mentor foi preso, obrigando-o a procurar sobrevivência na linha de montagem da Ford. Gaba-se que nunca mais precisou levar carro ao mecânico e, além disso, tornou-se ator, escreveu peças, liderou campanhas. É um agitador no sentido leninista da palavra: alguém que trabalha para o povo deixar de ser ignorante, oprimido e brutalmente explorado.

Pensando melhor, talvez estejamos diante de um agitador orwelliano. Alguém consciente de que num mundo de falsidade propagar a verdade é um ato revolucionário.

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“Kunene and the King” tem parentesco com “Coringa”, “Parasita”, “Democracia em Vertigem”. Fala um pouco de liberdade e muito mais de desigualdade. No palco, a situação é apresentada pelo confronto de ideias de personagens que representam um país dividido, situado na periferia do sistema político e econômico capitalista mundial.

Alguma semelhança com o Brasil, que espera o “futuro melhor” desde o fim da ditadura e a vitória de Tancredo Neves? Aqui também  população está rachada entre os 10% que têm acesso a oportunidades e os 90% que sofrem nas filas do posto de saúde, nas escolas precárias, na luta pela aposentadoria magra e, se depender do ministro, incerta.

Alguma semelhança com a Coreia do Sul do filme “Parasita”, também separada entre os que têm e os que nunca vão ter? Entre os que moram nas partes altas e os que vão perder os móveis da casa na enchente anual?

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Na peça de John Kani, os personagens representam esses dois mundos – e por isso a história nos toca. Eles só se encontram no universo de Shakespeare.

O bardo sempre fez parte da vida de Morris e foi descoberto por Kunene através em uma versão de “Julius Ceaesar” no idioma isiXhosa. Há um momento (*) em que os dois relembram o discurso de Marco Antonio no enterro de Cesar, esfaqueado por Brutus. O famoso bordão “…mas Brutus é um homem honrado” é dito primeiro em inglês depois em Xhosa.

O texto é pontuado com citações do “Rei Lear”. Há uma cena de tempestade e a sugestão de que é através do profundo sofrimento que vem a iluminação de um povo.

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(*) – Está no YouTube. Digite: Kunene and the King /  Julius Caesar Speech

Posted on 11th fevereiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Gostei mais do livro

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gghghg Carol Duarte interpreta Eurídice Gusmão

 

 

Sobre “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, nas livrarias em edição da Companhia das Letras e nas telas graças à Amazon, repito o chavão: gostei mais do livro.

A narrativa de Martha Batalha perde parte do encanto no filme de Karim Aïnouz (que escreveu a adaptação para a tela com Inez Bortagaray e Murilo Hauser). O filme traz cenas que não estão no livro, exclui outras que me pareceram indispensáveis e acrescenta pelo menos 20 anos à história para poder incluir Fernanda Montenegro no elenco. Alonga a vida de Eurídice (Carol Duarte), encurta a de Guida (Julia Stockler).

 

Mas, parece que todo mundo gosta mais do livro. Eis o porquê: ao ler o livro eu crio cenas em minha mente. E as cenas são insuperáveis porque são minhas. Aí aparece o diretor e sacrifica minhas cenas, acrescenta outras que não saíram da minha cabeça e ainda inventa um puxadinho da história para abrigar uma atriz famosa, cujo nome aumentará as chances dele, diretor, ganhar prêmios.

No livro alegramo-nos com os feitos de Eurídice como exímia banqueteira ou como talentosa costureira ou como escritora e participante de passeatas no período pós-1964. Carol Duarte, Fernanda Montenegro e Julia Stockler numa passeata contra o obscurantismo de Brasília. Quer coisa mais adequada ao momento que o Brasil vive? Na adaptação para a tela tudo sumiu.

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O blog da Barnes & Noble oferece mais razões para filmes desapontarem os que leram o livro.

A adaptação, diz o blog, é inferior à expectativa, não só do leitor, mas do próprio autor. Stephen King criticou a versão cinematográfica de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick (1980). King ficou descontente com o fraco grita-e-corre de Shelly Duvall e a rapidez com que o personagem de Jack Nicholson passa do estado normal, equilibradíssimo, para a insanidade. No livro, a transmudação de Jack Torrence é muito mais gradual e dramática.

 

“Não imaginei que ele fosse assim”. Imaginei-o mais jovem (ou mais maduro), mais jeitoso, mais carismático. Tome 500 leitores (e principalmente leitoras) que gostaram de “50 Tons de Cinza” e você terá 500 ideias de como é o jovem bilionário Christian Grey e como rolam as cenas de sedução. O desapontamento é geral.

 

Tudo isso é ainda mais verdadeiro em filmes que lidam com utopias, como “1984” e “Fazenda Modelo”. A imaginação do leitor trabalha intensamente para dar rosto aos personagens. E nenhum se parece com os do cinema.

 

Outro problema vem da característica de cada meio. O cinema lida com imagens, o livro com descrições e diálogos. Se você colocar diálogo demais no filme, vira teatro filmado. Se não colocar faltarão informações para o espectador  se envolver na história.

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Há desafios insuperáveis no livro “A Vida Invisível de Eurídice Galvão”. Um deles é transportar para a tela a personagem Zélia, a fofoqueira. Segundo a autora, Zélia é “uma mulher de muitas frustrações. A maior delas é não ser o Espírito Santo, para tudo ver e tudo saber”. E a descrição prossegue: “Zélia estava na verdade mais para Lobo Mau do que para Espírito Santo, porque tinha olhos grandes para ver melhor, ouvidos grandes para ouvir melhor e uma boca muito grande, que distribuía entre os vizinhos as principais notícias do bairro”.

Zelia é filha do repórter Alvaro Staffa, testemunha da Gripe Espanhola de 1918. Alvaro “viu homens agonizando em vômitos de sangue e crianças conversando com mães que já estavam mortas. Doentes em delírio, expulsos de suas casas. Profetas de longas barbas anunciando o fim do mundo. Ouviu os gritos de antas da morte que vinham de janelas fechadas e contou as centenas de corpos nas ruas, em vão. Quando terminava a conta outro defunto aparecia, ou a carroça da prefeitura chegava para rebocar os corpos…”

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Na impossibilidade de materializar na tela os personagens e fatos do romance, o melhor é ficar com o encantamento e o fino humor do texto de Martha Batalha, que parece descender do Monteiro Lobato dos livros infantis. E creditar a Karim Aïnouz o mérito de colocar um bom filme sobre as brasileiras do pós-guerra na lista do Oscar.

 

 

 

 

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Posted on 8th janeiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Eu pensava que o Bonde da História jamais passaria por aqui

É duro admitir, mas fracassamos, até aqui fracassamos. Chegamos a 2020 como campeões do analfabetismo e da concentração de renda, brasileiros fugindo para os paises desenvolvidos, terraplanistas, machistas, homofóbicos e racistas no poder – e todo ano um pibinho.

Mas por que fracassamos? Acho uma resposta no Mauricio Popija do jornal Plural (www.plural.jor.br) : “Há países que conseguiram pegar o bonde da história, outros que o perderam, e há o Brazíu, que conseguiu pegar, só que pro lado errado.”

Os bondes de Curitiba eram amarelos, limpos e pontuais. Andavam pra lá e pra cá, do Portão ao Bacacheri, da Tiradentes à Eufrásio Correia.

Verdade que nem todos viajavam sentados na hora do pique. Mas aquele bonde era um luxo comparado com o lotação apertado e perigoso. O chevrolezão gerava uma quantidade industrial de fumaça preta e fedida no trajeto entre a Vicente Machado e a caixa dágua do Alto da Rua 15.

De bom só as curvas sobre duas rodas. O motorista impetuoso desequilibrava a Dama do Lotação e ela vinha com aquele corpão cheiroso pra cima da gente.

Para acabar com o bonde, prometeram o metrô, que ia ligar o Capão Raso à Santa Candida, o Capão da Imbuia a Campo Comprido. Ao metrô estavam destinadas as canaletas do ônibus expresso inauguradas em 1972. A promessa saiu no jornal: primeiro os ônibus; depois, quando a capacidade dos ônibus chegasse ao limite, cavava-se a trincheira para o trem subterrâneo – uma flecha de rápido e silencioso.

Um dia uns espertos começaram a dizer que o metrô era um sonho impossível.

Naquele lamaçal? Inexistem condições técnicas para trabalhar no sistema cut and cover, como o método da trincheira é chamado. Um engenheiro garantiu que não dava. O terreno era ruim. Culpa dos rios que formam a bacia ido Iguaçu – o Uvu, o Cascatinha, o Barigui, o Belém, o Juvevê, o Ivo, o Agua Verde, e muitos mais encharcando a terra.

O povo ficou meio assim. Que conversa arrevesada essa do engenheiro, depois repetida por uns repórteres sabidos. Inexistem (desconfie de quem fala 🤑 inexistem) condições técnicas?  Fizeram o metrô de Paris na lama pura, não fizeram? E me explica o de Nova York, 400 quilômetros de tuneis naquela ilha que é só barro mole. Ele passa duas vezes por baixo do Rio Hudson e entra em Nova Jersey. Se dá para fazer lá, por que aqui não dá?

O engenheiro fez um ar de eu-te-desprezo. Como comparar o Hemisfério Sul com o Hemisfério Norte? É diferente. Lá sobra dinheiro.  E capacidade empreendedora. E inteligência emocional. Onde nasceu Einstein? E Thomas Edison? E James Watt? Lá. Por isso há liderança, resiliência, governança, just in time e essas bossas. Entendem? Só no Hemisfério Norte, e não excluo Pyongyang, a capital da Coreia do Norte, onde vive aquele gordinho e há um metrô lindo cheio de obras de arte. O mais fundo do mundo, a 110 metros de profundidade.

Absurdo? Não. Pyongyang está no Hamisfério Norte, 38 graus NORTE, entendeu? O gordinho é capaz de construir metrô profundo, missil atômico intercontinental, estação orbital (continua)

gghghghg

para encarar o Trump, chamar pro pau a Organização do Tratado do Atlântico Norte e depois pegar um trem de luxo e ir até a China e a Russia e visitar o Putin e o Xi Jinping. Porque no Hemisfério Norte todo mundo viaja de trem (veja a imagem) e estuda em período integral e qualquer criança de nove anos fala três línguas e te explica os fundamentos da teoria quântica como se fosse filho do Max Planck (*).

Aqui ao sul do Equador, na Curitiba sem um metro de trilho, saudosa do bonde amarelo, o desafio é mostrar que nem todo mundo é otário, puxa-saco ou dono dos ônibus.

 

(*) – Max Planck, cientista alemão, é considerado pai da teoria quântica. Durante a Segunda Guerra Mundial, Max Planck tentou convencer Hitler a dar liberdade aos cientistas judeus. O filho de Planck, Erwin, foi executado no dia 20 de julho de 1944, acusado de traição relacionada a um atentado para matar Hitler.

 

 

 

 

Posted on 3rd janeiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Falta mingau

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gghghg Rodrigão no meio dos alagoanos. (Gazeta Esportiva)

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No Alto de Glória o céu já foi azul mas agora é cinza. Saio do Couto sábado à noite com o coração pesado e o verso do Cazuza na cabeça. Ainda faltam 15 jogos, mas desse jeito não dá: havia pelo menos um cara bocejando em campo. Não sou só eu que sabe disso. A torcida também desacredita, tanto que só sete mil foram ao estádio. Na fase boa eram quase 30 mil por jogo.

No gramado, uma tragédia. O time não aprendeu a sair com a bola. Os zagueiros trocam passes laterais apavorados com a pressão dos três atacantes do CRB.

Aos nove minutos gol deles. Desespero.

O meio-campo Thiago Lopes tenta uma bicicleta na área e chuta o rosto do lateral Igor, aquele que era do Paraná. Igor segue de ambulância para o Hospital Cajuru e Thiago Lopes é expulso.

Três minutos depois mais um gol do CRB. Saída errada do Coxa.

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Na volta do intervalo o juiz expulsa um zagueiro alagoano. Dez contra dez.

O Coritiba melhora e cria oportunidades com Rafinha, Rodrigão e Giovanni. O goleiro Vinicius salva. Um cara do meu lado explica, didático: Ele está lá para isso.

Chutamos 29 bolas a gol contra 11 do CRB, mas o placar marca 2 a 0 para eles. Na saída, torcedores esperando pelo técnico e pelo presidente Samir Namur. Não é difícil advinhar qual dos dois vai perder o emprego.

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Vem ai um novo técnico, mas nada acontecerá se não houver uma injeção de ânimo na rapaziada. O João Saldanha olhava situações assim e diagnosticava na hora: “Falta mingau” –  e a diretoria ia pedir dinheiro ao benfeitores do clube para pagar os atrasados. Às vezes era diferente: “Muita pimenta.” Mas isso no tempo em que havia doping.

É verdade que os jogadores do Coritiba precisam treinamento, mas antes impõe-se um tratado de paz entre os cartolas. Não é hora de derrubar o Samir. Eis a receita para subir à serie A:

Dormir oito horas, comer direito, chegar cedo e sair tarde do treino. Não ir à balada até dezembro.

Com treinamento, aprenderão a trocar passes. O meio campo se deslocará para receber a bola (Gentil Cardoso: “Quem desloca recebe, quem pede tem preferência”), os armadores descobrirão o ponta aberto e o passe de 30 metros chegará até ele, certinho. Aí é só ir à linha de fundo, cruzar para trás e esperar o Rodrigão fazer o que sabe.

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P.S. – Colei novo post it com anotações no livro “A Pirâmide Invertida, a História da Tática no Futebol”, do jornalista inglês Jonathan Wilson, tradução de André Kfuri. Devia ser a bíblia de todo torcedor. Começa com uma citação de Virgilio: Felix qui potuit rerum cognoscere causas (Afortunado é aquele que compreende a causa das coisas.)

E termina com o Cesar Menotti explicando: “O objetivo do treinamento é aumentar a velocidade com que um time consegue manter a precisão.”

Lendo o Wilson, ninguém mais assistirá a um jogo de futebol como antigamente.

 

 

Posted on 23rd setembro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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O que fazer contra o passado escravocrata que assombra o Brasil? Power to the people

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bgbg Todo mundo quer ler.

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Segunda-feira, 16 de setembro, noite de autógrafos de “Escravidão”, primeiro dos três livros que Laurentino Gomes vai lançar nos próximos anos. A Livraria Curitiba está tão lotada que minha senha para a fila é número 248 e a fila continua crescendo.

Microfone em punho, Laurentino, autor dos maiores sucessos editoriais na área da não-ficção, responde perguntas de um público cujo interesse vai além da literatura – as pessoas estão assustadas com a realidade nacional. É urgente entender o que acontece: será que nosso passado escravocrata atrapalha e até inviabiliza políticas igualitárias, projetos de ensino e pesquisa?

O ódio entre brasileiros da classe média branca vem daquela época? A desesperança nasceu nos navios negreiros?

E os professores de história estarão relatando corretamente os fatos que transformaram a vida dos brasileiros nos últimos vinte anos?

Ao fundo desenha-se a grande pergunta: o que será de nós?

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Talvez as respostas já estejam em alguns estudos clássicos da sociedade brasileira. Florestan Fernandes escreveu:

“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (…) Essas facetas da situação (…) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

A história pesa em nossas vidas, porque o obá (chefe local) de Benin está mais próximo de nós do que os antigos reis de França, diz Laurentino e cita o historiador Alberto da Costa e Silva, responsável pela revisão e anotações encontradas no livro: “Hoje todos somos descendentes de escravos ou de senhores e mercadores de escravos”.

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A resposta que pediu uma ansiosa professorinha não será encontrada nas tradições dos avós italianos, alemães ou portugueses dos políticos e funcionários que decidem as coisas no Brasil. É mais provável que esteja no ânimo guerreiro de Zumbi dos Palmares e também na ferocidade de seus algozes, os brancos, caboclos, mulatos e índios de Domingos Jorge Velho, “gente ruim, pior e mais indesejável do que os próprios quilombolas que haviam derrotado”.

Os dois lados aprenderam, no século 17, que com o branco não há acordo – a não ser que você esteja em situação de força. Ao estrangeiro não se oferece vassalagem, não se entrega a terra, nem as empresas que disputam o mercado internacional. Tem que ser no pau, como diz John Lennon:

Power to the people, right on
Now, now, now, now

 

 

 

 

Posted on 18th setembro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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O jogo da tampinha tem a idade do mundo, mas mané é mané

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gghghg Em 1502, o pintor holandês Hieronymus Bosch pintou The Conjurer (O Ilusionista). Mas o joguinho já existia no antigo Egito.

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O cenário é o centrão de Curitiba no coração do inverno. Úmida e cinzenta, a cidade venceu a neblina espessa da manhã e agora recebe uma garoa teimosa. A luz do poste que a prefeitura esqueceu de apagar brilha na calçada de pedras portuguesas elogiada pelo guia turístico e odiada pelas moças de salto agulha. (Até abaixo-assinado à Câmara de Vereadores elas fizeram exigindo calçamento digno de capital cosmopolita que somos.)

Bem em frente do Correio Velho, a poucos metros da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, um malandro rola sobre a mesa suas três tampinhas de alumínio. Magro, bigode fininho, paletó xadrez usadão, fala pouco e não diz nada. Com as tampinhas rápido e jeitoso, paga e recebe apostas que eram de um, passaram para dois, agora são de cinco reais.

O joguinho está esquentando. Três apostam, outros tantos espiam.

Quando para de mover as mãos, o malandro sorri com simpatia para parceirinho do outro lado da mesa, que aponta:

-Tá ali.

O bigodinho levanta a tampinha sem nada embaixo:

-Não. Tá aqui – mostra a outra com a bolinha embaixo e puxa para si as duas notas de cinco.

Se acertasse, o parceiro ganhava dez. Faltou sorte, o olho foi mais lento que a mão do outro.

Neste momento chega a cana. Não adianta correr mas eles correm – o de bigodinho, os parceirinhos faróis, o moleque que vigiava do lado errado. Os tiras nem se mexem. Mais tarde irão buscá-los na pensão, no tunguete ou no boteco.

-Você vem conosco – dizem para o jogador que ficou, pesadão, a cara franzida de espanto. No caminho fazem ele contar a vida: de onde é, se tem família, se tem vergonha de ser otário.

-Otário?

-Bobo. Trouxa, Loque embandeirado.

Um tira explica que o joguinho não era jogo, era golpe. As tampinhas rodavam na mesa mas a bolinha sempre sob a unha do malandro.

-Tua chance de ganhar era nenhuma, zero – explica o tira. -Trabalha com quê?

Ele conta o que faz, diz o nome da mulher, do filho e do neto.

-Corra de volta pra casa, compadre. Diz pra patroa que perdeu o dinheiro no ônibus. Mas se te encontro de novo no joguinho tu vai pro Código Penal. Quem joga é cúmplice do crime tá OK?

Antes quem mexia tampinhas era contraventor. Mas o Brasil foi ficando complicado e o joguinho virou crime de estelionato, descrito no art. 171 do Código Penal. O mundo também ficou complicado, tanto que o novo livro

Na Boca Maldita tem um velhinho metido a filósofo que gosta de comentar as notícias do dia. Ele fecha o jornal onde o otário mereceu matéria de duas colunas na página policial e fala:

-É bom ter gente na cadeia pelo crime de jogar tampinha, vender cigarro de maconha, roubar comida no supermercado.

Dá um suspiro:

-Ruim é que é tudo pobre.

 

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Posted on 2nd setembro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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Na última vez que ISSO ocorreu, Cromwell descontinuou o costume dos reis, de usarem as cabeças sobre os ombros

“Isso” é o golpe de Boris Johnson, primeiro ministro inglês, que fechou o Parlamento por cinco semanas.

Ele quer impedir a oposição de se articular para derrubar a decisão de abandonar a União Europeia sem acordo.

Os ingleses estão muito irritados com o primeiro ministro Boris Johnson. Em Berlim, manifestantes portavam um cartaz lembrando a solução que Cromwell adotou contra uma tentativa de virar a mesa.

Fazem bem. Se houver o Brexit sem acordo entre o Reino Unido e a União Europeia vai ser ruim para todos.

Inclusive para nós, brasileiros.

Provavelmente Boris Johnson vai exigir visto para latino-americano chegar chegando, como fazemos hoje.

“Descontinuou o costume dos reis, de usarem as cabeças sobre os ombros”.

Boa.

A turma do Remain perdeu o plebiscito do Brexit mas não perdeu o senso de humor.

Esse no-deal Brexit significa que, da noite para o dia, a Inglaterra abandonará o mercado comum e a união aduaneira.

Caminhões e trem com turistas, produtos agrícolas, medicamentos vão formar filas em
Calais, França.

Até liberar aquela papelada toda muita comida vai estragar.

Muita gente vai passar fome, sede, calor, frio.

Torça para o Boris cair.

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Um mundo enfim ordenado. Per cola et commata

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Não sei se são muitos, ou se reunidos cabem numa kombi, mas há os que desprezam a nova linguagem que aparece em mensagens de celular – os rs, emoticons, ctz (certeza), fikdik (fica a dica).

Por isso voltaram a estudar gramática.

Têm que estudar mesmo porque mudou quase tudo. Não se usa mais a Gramática Expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, que teve 158 edições. No prólogo, o mestre ensinava: “Vehiculo da Idéa, é a palavra o mais bello e util apanagio da humanidade. Filha do homem, traz com o homem frisante analogia. Sua origem, como a do seu putativo genitor, tem o cunho do mysterio, perde-se na noite remota dos tempos, e offerece ás pesquisas dos sábios indecifrável enigma. Como elle ainda, ella nasce, cresce, adoece e morre”.

Para desvendar esse “mysterio” é preciso voltar ao ano 400, quando São Jerônimo concluiu a tradução da Bíblia e deu aos monges copistas instruções sobre como dividir o texto “per cola et commata”. Ele queria a Palavra bem articulada e a pontuação servia para acabar com ambiguidades, regular o ritmo da leitura. Uma pausa breve, commata; longa, fim de sentença, cola.

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E se a pausa fosse maior do que a vírgula e menor que o ponto? Ai não havia o que fazer. A solução só chegou mil anos depois, em 1494, quando um editor de Veneza inventou o ponto e vírgula.

Era o fim da Idade Média, o início da Renascença, com suas luzes. A sabedoria do mundo ainda estava escondida em velhos manuscritos, preservados em bibliotecas de mosteiros. Aqueles textos precisavam ser divulgados com clareza e para isso apareceram outros sinais de pontuação que não sobreviveram.

Não vou falar do trema, antigo terror dos estudantes, hoje reduzido à sua insignificância: só serve para registrar a pronúncia de certos nomes estrangeiros. Agora a gente aguenta as consequências sem gastar dois tremas e o texto continua claro.

Exceção, nomes próprios: a portentosa Gisele continua carregando um trema no Bündchen.

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Com o ponto e vírgula a conversa é outra. Ele é significantíssimo. Os modernos gramáticos tratam-no com carinho. Valorizam a meia pausa que Antonio Vieira usava tão bem. No Sermão da Sexagésima, por exemplo, ele define o pregador, que é vida e exemplo:

“Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: Saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma coisa é o soldado, e outra o que peleja; uma coisa é o governador, e outra o que governa.”

Aqui o leitor pode constatar mais uma vez a atualidade de Vieira. Vivemos entre governadores que nem sempre governam, e todo mundo sabe que raramente o presidente preside.

O trecho vale por dez aulas de pontuação. E de política.

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Claro que o ponto e vírgula não é uma unanimidade. Kurt Vonnegut Jr o odeia. “Não use pontos e vírgulas. Eles são hermafroditas travestidos, representam absolutamente nada. Só servem para mostrar que você frequentou algum curso superior.”

Machado de Assis, ao contrário de Vonnegut, era amigo do ponto e vírgula. Em uma de suas crônicas da série “Bons dias!” ele explica bem humorado que não valia a pena traduzir o texto: “Estes meus escritos não admitem traduções, menos ainda serviços particulares; são palestras com os leitores e especialmente com os leitores que não têm o que fazer.”

(Um ponto depois de “serviços particulares” seria muito; uma vírgula, pouco.)

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O século 19 foi o século do soneto e do ponto e vírgula. Linguistas fizeram as contas e constatam que era mais usado que a vírgula. Quanto ao soneto, convém registrar que continua sendo cometido por poetas muito competentes, como a mineira Liria Porto

Cometi um soneto

pedi socorro a hipotenusas e catetos
falei comigo e também com os meus botões
amasso versos sou assim aos borbotões
porém insisto em processar alguns sonetos

conversa vai conversa vem eu vou tentar
busco o luar a luz do sol amarro-os bem
ou largo tudo num papel em qualquer trem
trago co’as mãos as ilusões lá de além-mar

batuco os dedos a contar sílabas tortas
e veja só velho camões se não te importas
sempre fui doida e fico mais tenho certeza

falo sozinha a cavoucar rimas avessas
sou assassina criminosa ré confessa
deste soneto atordoada eu me fiz presa

 

A poeta entrou neste texto para, primeiro, animar o leitor com a graça de sua invenção; segundo, mostrar que é possível escrever bonito sem ponto, sem vírgula, sem ponto e vírgula.

Certo estava George Campbell, filósofo do Iluminismo Escocês, que decretou: “A língua é um conjunto de modismos. Não cabe à gramática regular os modos do discurso.”

CTZ

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P.S. – Quem tiver curiosidade, deve dar uma olhada em “Gramática reflexiva da língua portuguesa”, de Marcelo Moraes Caetano (Editora Ferreira).  

P.S. 2 – Ver também

Semicolon: The Past, Present, and Future of a Misunderstood Mark     Kindle Edition

by Cecelia Watson

E também http://www.englishproject.org/april-and-comma

 

 

Posted on 1st setembro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet