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A Polícia Federal apreendeu 131 obras de arte na casa do ex-diretor da Petrobrás Renato Duque.
Vem tudo para Curitiba.
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A Polícia Federal apreendeu 131 obras de arte na casa do ex-diretor da Petrobrás Renato Duque.
Vem tudo para Curitiba.
No meio do protesto, evidências de que a democracia brasileira está doente. (foto GGN).
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O Brasil está cheio de gente desinformada.
Um exemplo: o jornal coloca na manchete que há 1,2 milhão de pessoas na Avenida Paulista.
Mais tarde, um engenheiro fez a conta certa. A Avenida Paulista tem 2.500 metros de extensão por 40 de largura, incluindo a calçada. Multiplicando um pelo outro, dá 100 mil metros quadrados. Dez pessoas por metro quadrado é impossível. Então, os jornais diminuiram. Agora, no Fernando Rodrigues está a informação de que “segundo o Datafolha, São Paulo teve a maior manifestação política (210 mil pessoas) desde as Diretas-Já, em 1984.”
Entendeu, leitor? Era 1,2 milhão de manifestantes na manchete da hora. Agora, são 210 mil.
Esse número inclui todo tipo de radical, até os que pediam pena de morte e volta dos militares ao poder.
Além de números, a grande imprensa devia responder uma indagação objetiva: o que está acontecendo no Brasil, afinal de contas.
Achei uma explicação razoavelmente boa no Luis Nassif.
Ele diz que estamos assistindo a um estouro da boiada. Sem fundo ideológico. Sem orientação partidária. O estouro pelo estouro.
Porque há muita gente pagando imposto demais e vendo o governo trabalhar de menos. Todos os governos – Sarney, Fernando Henrique, Lula, Dilma.
Esses estouros de boiada, diz o Nassif, podem levar a um Hitler, a um Berlusconi ou a um Roosevelt, dependendo de quem conseguir dirigir os instintos da boiada.
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Enfim, uma oportunidade para discutir desapaixonadamente nossos engarrafamentos.
A prefeitura de Curitiba promove, dias 9 e 10 de abril, seminário internacional sobre o uso do automóvel na cidade.
O objetivo é, segundo o site, “criar um mecanismo de interação entre os mais importantes “players” do uso do carro na cidade, o governo, a academia, a indústria e, por fim, a sociedade em geral.”
A grande ideia a ser debatida é o uso compartilhado do automóvel, assim como já é feito com a bicicleta.
Talvez dê para falar sobre o Citycar, inventado no MIT.
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Conheço gente que lamenta a falta de uma direita no Brasil. Direita de verdade. Da pesada.
Esse pessoal não aceita FHC e os tucanos possam ser direita ou centro-direita. (FHC apareceu no jornal dizendo que é contra o impeachment de Dilma. Onde já se viu?)
Os tucanos são considerados ex-comunas oportunistas, defensores do socialismo chic. Agitadores da Rive Gauche.
Alguns tiveram que fugir em 64. Mas fugiram de Varig, alguns na classe executiva.
Os tucanos, segundo essas pessoas, deviam olhar novamente para a Europa.
Na Alemanha da Angela Merkel, os esquerdistas do SPD aliaram-se aos direitistas light da democracia cristã e hoje formam a maioria do parlamento. São 80%, maioria absoluta.
Com isso, a Alemanha consolidou sua posição de líder europeia e principal interlocutora dos Estados Unidos no novo esquema de forças, freios e contra-pesos, que inclui a China e a Russia e garante a estabilidade do mundo.
Só haverá problemas se a crise econômica a Europa atrapalhar o desenvolvimento alemão.
Ai, a direita voltará a ameaçar.
A direita hard alemã, por enquanto, é o pequeno partido nazista NPD (Partido Democrático Nacional da Alemanha). Formou bancada na Saxônia, vem elegendo deputados em outros Estados alemães e está disposta a continuar organizando manifestações como a marcada para 8 de maio, data do fim da Segunda Guerra Mundial, em memória dos soldados alemães.
Graças à crise, há partidos de direita crescendo na Europa. Itália com o seu Cinque Stelle e Beppe Grilo; a França com a sua Frente Nacional e Marine Le Pen; a Espanha com o Ciudadanos e Albert Rivera.
É assim que a política funciona. Primeiro, vem o desastre econômico, o desemprego, a desordem nas ruas. Depois aparece alguém dizendo que a culpa é da democracia e dos ladrões que florescem à sombra da liberdade de expressão e da igualdade de oportunidades.
Ai, alguém dá um golpe e fecha o congresso, prende corruptos e subversivos em nome da nova ordem. As classes médias aplaudem. Vale qualquer coisa para acabar com a corrupção e com a bagunça.
Até um Adolf Hitler.
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Panelaço é manifestação democrática.
Chamar Dilma de “vaca” é exemplo de mau gosto.
Aula do José Simão.
Escrever “mal gosto” é coisa de analfa.
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Os fatos estão ai – ou ao menos uma parte dos fatos.
Sabemos os nomes de suspeitos por mais esta onda de malfeitos contra a República. Ninguém sabe se são todos culpados ou se são os únicos culpados – coisa em que ninguém acredita.
Trata-se agora de separar culpados de inocentes e descobrir o tamanho da culpa de cada um.
Não é o juízo final, mas talvez seja bom dar uma olhada no Padre Antonio Vieira, que em seu Sermão da Primeira Dominga do Advento revelou a porcentagem de bons e maus entre os hebreus. Como a humanidade não mudou substancialmente nesses milênios todos, é possível que a proporção seja a mesma.
“No reino das Doze Tribos, de três reis perdeu-se Saul, salvou-se Davi, de Salomão não se sabe. No reino de Judá, de vinte reis salvaram-se cinco, perderam-se treze, de dois é incerto. No reino de Israel foram os reis dezenove e todos os dezenove se condenaram.”
Estão aí as porcentagens.
Doze Tribos – 33% de condenações.
Reino de Judá – 65% condenados.
Reino de Israel – 100%.
Possível, não provável.
De Jerobão a Ozéias foram dezenove reis e dezenove condenados. Aqui, de Eduardo Cunha a Renan, de Gleisi a Anastasia, quantos serão os condenados?
O certo é que todos recebiam garantias constitucionais, a maioria gozava mordomias, favores, agradinhos.
Daqui a uns três anos, estima-se, poderemos seguir o conselho do nosso maior pregador e chamar um dos condenados a declarar como é isso de chegar lá em cima e cair em tentação. Como é que alguém decide ser leniente. Ou cobrar propina. Ou lavar dinheiro. Ou simplesmente embarcar em jatinho de empreiteiro para um fim de semana no Nordeste.
Como é isso, gente? Por que tantos se sentem autorizados a roubar o próximo e a República?
Respostas no Padre Vieira.
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Continuo preocupado com a Teoria de Rusch.
Lembram? O presidente do DEM, Elio Rusch, estava discursando na Assembleia em defesa do tratoraço quando deu uma dura em um professor que teimava em discordar.
-Se o cidadão ali quiser usar a tribuna, seja candidato, faça 50 mil votos e venha aqui!
Se Curitiba fosse Atenas, “aquela” Atenas, ninguém precisaria de 50 mil votos para pedir a palavra, usar a tribuna, aprovar leis.
Por sinal, 50 mil votos era um número impossível. Atenas do quarto século antes de Cristo, depois de uma grande reforma legal entre 410 e 399 , tinha 30 mil habitantes, profundamente comprometidos com a política, a gestão da polis.
Essas informações estão em Origins of Democracy in Ancient Greece Kurt A. Raaflaub, Josiah Ober, and Robert W. Wallace, editado pela UNIVERSITY OF CALIFORNIA PRESS, disponível em PDF na internet.
UM SISTEMA NOTÁVEL
Os autores garantem que a democracia ateniense era um sistema notável, sem precedentes e sem paralelo na história mundial. Vigoroso, capaz de despertar o entusiasmo e envolver os cidadãos. Quem acha que aquela blablabla era improdutivo está enganado. Funcionava. Obedecia a um conjunto de determinações legais, quase uma constituição.
A assembleia (ekklesia) se reunia no mínimo 40 vezes por ano em um sistema de mordomia zero. Ninguém ganhava nada, não havia verba de gabinete, nem auxílio moradia.
Para algumas reuniões havia agenda pre-estabelecida. Os presidentes da assembleia e do conselho eram sorteados e exerciam a presidência por um dia. Que conselho era esse? Era o democrático Conselho dos 500 (boule), constantemente renovado por sorteio, ao contrário do Areopagus, formado por antigos magistrados, com cargos vitalícios. No boule o mandato era limitado a dois períodos de um ano, não sucessivos.
Os integrantes vinham de toda Attica, região da Grécia onde ficava Atenas. Eram sorteados nas vilas e bairros das cidades. Sua missão: supervisionar o aparato administrativo, tratar de política externa, receber relatórios dos funcionários e escolher a agenda e preparar moções para a assembleia.
A FORÇA DA ASSEMBLEIA
A assembleia podia aceitar, emendar ou rejeitar as moções e, quando era o caso, envia-las de volta ao conselho para nova deliberação.
Elaborava decretos (psephismata) sobre questões políticas específicas. As leis com validade geral (nomoi) eram formuladas por um conselho de juristas (nomothetai), passavam por uma avaliação e, se contestadas, eram votadas pela corte popular – a própria assembleia, assistida pelos conselhos e cortes legais.
Milhares de cidadãos exerciam funções políticas, a maioria por um ano.
Mais de um terço de todos os cidadãos acima de 18 anos e cerca de dois terços de todos os cidadãos acima de 40 serviam, em algum momento de suas vidas, ao menos durante um ano como integrantes do Conselho dos 500. Não era um cargo honorífico – exigia muitas horas diárias de trabalho.
DEMOCRACIA DIRETÍSSIMA
Isso deixa claro que a democracia grega não apenas era direta, no sentido de que as decisões eram tomadas pelo povo em assembleia, mas a mais direta possível, diretíssima, no sentido de que o povo, através da assembleia, dos conselhos e como integrante (jurado) das várias cortes controlava todo o processo político. E que uma parcela fantasticamente alta da população estava permanentemente envolvida em assuntos públicos.
O sistema de rodizio na função pública garantia que aqueles que, no momento, não estavam envolvidos com assuntos públicos, proximamente seriam chamados, se quisessem, a ocupar funções públicas.
Os atenienses, graças ao envolvimento nos vários setores de atividade pública alcançavam alto nível de familiaridade com as práticas legais e administrativas.
Graças a isso, inventaram a participação, o contraditório, a transparência, a governabilidade. A importância de estudar a história deles é que a gente para de se sentir importante.
É o tal governo do povo. Uma beleza. Que tal a Assembléia Legislativa usar um pedaço de sua verba e patrocinar um bom curso de política pela TV Sinal?
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Duas salas de concerto. Esta é a Sala Sinfônica, com 2.324 lugares. A outra, para música de câmara, tem 692 lugares.
Dá inveja olhar a programação de março.
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Há dias, o deputado Elio Rusch irritou-se com um professor que se manifestava na Assembléia Legislativa.
-Se o cidadão ali quiser usar a tribuna, seja candidato, faça 50 mil votos e venha aqui!
O deputado do DEM acha que democracia é ter 50 mil votos, talvez porque obteve 57 mil votos na eleição do ano passado. Se fosse o Ratinho Junior diria: “Se quiser vir para cá, faça 300 mil votos!”
Claro que a idéia, que vamos chamar de Teoria de Rusch, é furada. Para ter a palavra basta ser cidadão, ter direito a voto, sustentar o Estado com os impostos que paga.
Democracia – todo mundo sabe – é um sistema político inventado na Grécia cinco séculos antes de Cristo.
Naquele tempo todos iam à praça, a tribuna era livre e todos votavam para decidir os grandes assuntos da cidade.
Ainda hoje há cantões suíços onde os cidadãos decidem as coisas em assembleia popular.
E uma assembleia popular resolverá, quarta-feira, a suspensão de grave geral dos professores do Paraná.
Os representantes do povo, candidatos eleitos como procuradores dos cidadãos, apareceram no século 18, com a Revolução Francesa e a Revolução Americana. A população da República tinha aumentado tanto que não dava para reunir todo mundo na praça pública. Surgiu o sistema representativo, com defeitos que só aumentaram com o tempo.
Defeito nº 1 – Elegemos representantes que não representam a maioria dos cidadãos. Alguns não representam nem a minoria – ganharam seus mandatos graças a um puxador de votos tipo Tiririca. Ratinho Junior arrastou seis com ele.
Defeito nº 2 – Uma vez eleito, o representante pode trair o eleitor, que não consegue cassar seu mandato. (Tudo bem, existe em alguns países o recall, raramente acionado.)
Defeito nº 3 – Para se eleger, muitos nem procuram eleitor. Pegam o atalho e vão aos donos de currais eleitorais – oligarcas rurais, donos de oligopólios, traficantes de drogas, contrabandistas de armas, proprietários de igrejas. Eles fornecem dinheiro e votos. (Outro dia alguém garantia que a Bancada do Pó na Câmara tem quase 50 votos.)
Defeito nº 4 – Como é escasso o contato entre o eleitor e o candidato, frequentemente o voto é resultado de informações truncadas de meios de comunicação. Em eleição majoritária isso é um perigo.
AS GRANDES MUDANÇAS
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Teóricos da democracia andam atentos à questão da representação política. O interesse decorre de vários fatores.
Primeiro, mudou o panorama – a representação eleitoral agora compete com novos tipos de representação informal. Vejam os líderes dos professores. Eles não têm mandato, mas venceram a quebra de braço contra o governo. Associações de bairro formam líderes que frequentemente têm mais força política do que vereadores e deputados. Os caminhoneiros pararam o Brasil com lideranças que ninguém conhece direito.
Segundo, aumentou a preocupação com a qualidade da representação eleitoral. O voto de minorias e mulheres está cada vez mais focado em problemas específicos.
Terceiro, há um novo modo de fazer política dentro da estrutura democrática. Exemplo: os observatórios sociais, entre eles o Observatório Social de Maringá, que serve de modelo para dezenas de outros. É integrado por pessoas preocupadas com o mau funcionamento do governos. Graças às redes sociais compararam preços, identificam fraudes, encanam corruptos. O site Contas Abertas faz mais pela democracia do que a maioria dos partidos políticos.
Por último, a participação vem ganhando importância e a representação nasce de outras formas de cidadania. A própria palavra cidadania aparece com maior frequência e é mais bem entendida entre os diferentes grupos sociais, que valorizam formas de representação não eleitoral.
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O novo plano diretor de Curitiba está cheio de idéias, entre elas o pedágio urbano, que deu certo em Cingapura e Londres, e o rodizio, que funciona mal em São Paulo. Faltou mais ênfase na ideia de que a cidade é do homem, não da máquina.
Não só a cidade. A estrada devia ser do homem mas é do carro. Apesar do oba-oba porque diminuiram as mortes no feriadão, ainda há milhares de idiotas ultrapassando pela direita, correndo pelo acostamento e crescendo em cima dos outros motoristas com luz alta em suas pickups.
Voltando às cidades, é bom afirmar que o Brasil está errado, mas não está sozinho. Muitos paises emergentes, periféricos, subdesenvolvidos, cairam no conto do vigário das montadoras. Em troca de terrenos de graça, com infraestrutura paga pelo contribuinte, mais isenções fiscais de IPTU, IPI e outros, prometeram bons empregos.
Na primeira ameaça de crise apresentaram seus planos de estímulo às demissões voluntárias. Foi só o primeiro tempo. O segundo será a demissão involuntária mesmo.
É o momento em que descobrimos a verdade: o carro não é amigo de ninguém, só dos donos na fábrica. E olhamos de novo para a bicicleta, melhor sistema de transporte individual inteligente do mundo. Faz bem para a saúde, para o bolso e para o trânsito.