Toffoli não deve ir a uma pizzaria em noite de sábado, aconselha jornalista

asp
.

A colega Tays Oyama tirou o velho filósofo da prateleira e lascou no Globo:

“A possibilidade de frequentar espaços públicos sem constrangimentos sempre foi marcador da honra — conceito que Aristóteles trata como “bem externo”. Diferentemente da virtude — um “bem interno”, que alguém tem ou não tem —, a honra é um conceito atribuído, resultado da percepção social, fundamentada ou não, de que seu portador é dotado de excelência moral e intelectual”.

Está lá, no alto da primeira página de O Globo: “Como percepção pública, a desonra persegue Toffoli e Moraes”. Abaixo, o corolário:

“Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado”.

No tempo da ditadura, jamais o editor-chefe de O Globo teria liberado esse título. Todo jornalista sabia que falar mal de ministros, generais e outros figurões não era bom para a saúde. De repente tóc tóc tóc e o autor era levado a algum porão para confessar quem eram e onde moravam os outros comunistas.

Voltando aos filósofos, Hobbes concordava com Aristóteles. A honra é uma virtude extrínseca, outorgada pelos outros homens – ele viveu uma época em que só os homens eram senhores das outorgas. Quanto mais virtuoso o grupo, mais alto será o sarrafo que medirá sua honra.

A ideia está muito bem exposta no interrogatório de Dimitri Karamazov, que Os Irmãos Karamazov num sebo, em edição da José Olímpio, tradução de Rachel de Queiroz, introdução do Otto Maria Carpeaux, xilografias de Axl von Leskoschek:

“É um homem honrado que lhes está falando, absolutamente honrado, um homem – não esqueçam porque é importante – que cometeu um número incontável de vilanias, porém foi e continuará a ser sempre um ente intimamente honrado.(…) O que me atormentou pela vida inteira foi precisamente essa ânsia de lealdade, de nobreza; sofria por causa delas, procurava-as com uma lanterna, como a lanterna de Diógenas. E entretanto, durante a vida inteira, não cometi senão vilanias, como nós todos, meus senhores”.

“Como todos nós”.

Pirandelo apreendeu a ideia. Em “Seis Personagens em Busca de um Autor”, o Pai justifica o abandono da família e outras vilanias “pelos melhores motivos”.

.

.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

ONDE SE FALA DE NÁUFRAGOS, DO CISMA E DA BIOGÊNESE

Sabe a piada dos quatro náufragos alemães que chegaram a uma ilha deserta?

Primeiro fundaram uma associação para organizar as coisas. Elegeram o presidente e votaram o programa de trabalho. Construíram a cabana de dormir, um sistema de coleta de água de chuva, um puxadinho para o banheiro e foram tocando a vida. Ficaram felizes quando apareceu outra jangada com mais três náufragos, que foram incorporados à associação.

Não demorou para surgir a desavença. Os dissidentes fizeram outra associação na praia ao lado.

Anos depois, quando chegou um navio de resgate, havia na ilha três associações e um partido de oposição.

*

Com exceção dos cisnes de Aristóteles, que o filósofo imaginava nascidos de folhas lançadas na água, nada é produto de geração espontânea. Louis Pasteur provou que a vida vem da vida. E que essa tal de abiogênese é uma ficção.

O Coritiba nasceu de uma costela da Sociedade Teuto-Brasileira de Curitiba, a Teuto Brasilianischer. A equipe de pesquisadores que desde 2025 enfrenta poeira e ácaros para analisar documentos históricos do clube, guardados durante décadas sob a arquibancada social do Estádio Couto Pereira, tem duas hipóteses de trabalho para explicar a separação.

A primeira é o choque geracional. Os sócios mais antigos do Teuto cultivavam com devoção os esportes olímpicos. Corrida, saltos, arremesso de peso e de disco eram com eles. Os mais jovens preferiam os esportes coletivos, principalmente o futebol.

Outra suposição é a disputa entre as famílias Strobel e Hauer pelo comando da sociedade. O vice-presidente da Associação Coritiba Foot Ball Club, Luis Betenheuser Jr, que, juntamente com o grupo Helênicos, conduz a pesquisa, considera essa possibilidade mais viável. Todo dia descobre novas evidências nas atas escritas em alemão com aquele visual uniforme e agradável dos melhores calígrafos, em livros de contabilidade que mais parecem tabelas de Windows com linhas e colunas perfeitas, recibos, fotos e cartas que resistiram à umidade e aos cupins.

A importância do material agora redescoberto é tão grande que justificou um pedido de tombamento do conjunto documental ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC). Todo dia chegam novos documentos – cartas, fotografias, registros públicos – guardados no porão de casas antigas pelas famílias dos fundadores.   Aos poucos vai-se jogando luz sobre episódios da vida do clube e da capital paranaense.

Porque o Coritiba é Curitiba.

Explicando melhor. O nascimento do Coritiba praticamente coincide com o início do século curto, (1914-1991) assim definido pelo historiador Eric Hobsbawm, que começou com a eclosão da 1a. Guerra Mundial e terminou com a queda do Muro de Berlin. O encerramento do século curto ocorre pouco depois de o Coritiba se tornar o primeiro clube paranaense a conquistar um Campeonato Brasileiro de Futebol – feito que ultrapassou os portões do Estádio do Maracanã e levou o futebol paranaense a um novo patamar. Que era também o novo status econômico do Paraná. O estado liberta-se do Complexo de 5ª Comarca de São Paulo. Se antes vivia da monocultura da erva mate, e depois do café, agora exibe uma economia agroindustrial forte e complexa.

Os 60 mil habitantes da cidade de 1912 agora, no final do século curto de Hobsbawn, são três milhões – o maior boom demográfico da história do país. Curitiba enfrentou a questão com inteligência. Com ajuda de Jorge Wilheim, um especialista em planejamento urbano, votou um Plano Diretor. Estabeleceu um coeficiente máximo de potencial construtivo, criou um direito de construir oneroso, trouxe os recursos para um fundo de interesse público que financiou a construção de casas populares, praças, parques e lagoas retentoras da chuva. A Universidade do Paraná, nascida em 1912, agora liderava a quinta maior constelação de universidades do Brasil. A chegada de indústrias em Curitiba e RMC surpreendia os analistas. De consumidora de produtos culturais, passou a exportar maravilhas como o Grande Circo Místico (quem não lembra das músicas de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo?), criado pelo Ballet Teatro Guaíra no governo de José Richa e aplaudido por plateias do Brasil e da Europa. De tudo isso nasceu Museu Oscar Niemeyer (MON), citado em rankings internacionais como o maior museu de arte da América Latina.

E tudo – a indústria da bola, a indústria do automóvel, a indústria da inteligência – faz parte do mesmo processo contínuo de mudanças que chamamos de desenvolvimento.

Dito isso, deve-se ver com outros olhos a reunião da diretoria do Teuto, realizada em abril de 1909, no Alto do São Francisco, onde ficaram claras as divergências sobre o futuro da associação. Não era só divergência. Era a biogênese em andamento. Um grupo onde predominavam membros da família Strobel não queria gastar dinheiro com futebol. Outro, onde sobressaia a família Hauer, pensava o contrário. Não havia sentido em ignorar que aquela era uma sociedade dedicada ao esporte e que nenhum esporte era tão importante como o jogo da bola que chegara com os irmãos Rebouças e os engenheiros ingleses da Estrada Curitiba-Paranaguá.

Naquele dia a discussão foi longe demais. Ofendido, Valdemar Hauer abandonou a reunião e passou a pregar uma ruptura radical, com a fundação de uma nova sociedade esportiva, provisoriamente chamada de Coritibano Foot Ball Club. Prova de sua convicção é que em nova reunião do Teuto, realizada em dezembro de 1909, nenhum dos Hauer estava presente. Como na anedota, tinham ido montar seu clube na praia ao lado.

*

(Trecho do livro COXA – Desde que a Bola é Bola, em elaboração)

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Momentos de decisão

(Mensagem enviada originalmente aos participantes do Café da Semana)

Que loucura, confrades cafezeiros! O presidente Trump acaba de dizer ao primeiro ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, que não se sente mais obrigado a pensar somente em paz depois que não recebeu o Prêmio. E repetiu a exigência de controle da Groenlândia.

A repórter Mallory Moench, no site da BBS, conta os detalhes da reclamação/intimação observando que Trump aparentemente não entende que o governo da Noruega é uma coisa e o Comitê do Prêmio Nobel, outra.

Pode ser o temido colapso psíquico.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

As três leis de Trump

O ator romeno Sebastian Stan no papel de Donald Trump.

,

Artimanhas, chicanas, vaidade extrema – eis o Donald Trump de O Aprendiz, que encontrei no Prime Video. Não é um filmaço mas define o caráter do homem que manda e desmanda no hemisfério ocidental em algumas cenas memoráveis.

Exibido no Festival de Cannes de 2024, surpreendeu os espectadores com cenas que mostram Trump fazendo uma lipoaspiração e uma cirurgia no couro cabeludo para esconder a careca incipiente. O mais chocante é o momento em que ele joga no chão e violenta a primeira esposa, Ivana.

Os advogados de Trump ameaçaram processar os produtores e o diretor, o iraniano Ali Abassi, mas recuaram diante da evidência: a informação está registrada no pedido de divórcio de Ivana Trump (Maria Bakalowa), de 1990.

Sebastian Stan e Jeremy Strong fazem os papeis de Trump e Roy Cohen, o advogado de Manhattan a quem se atribui o papel de professor de maldades de Little Donnie, apelido de família do presidente dos EUA. 

Cohen é mau, amoral, devasso. Mora numa casa de quatro andares perto do Central Park, na parte mais nobre da ilha de Manhattan, onde funciona também seu escritório. Quando Little Donnie vem pedir seu auxílio para começar a carreira como especulador imobiliário Roy enuncia as três regras que o aprendiz precisa decorar para ter sucesso.

“Negue todas as acusações. Quanto for derrotado diga que venceu. E ataque, ataque, ataque”.

O filme foi bancado pelo bilionário Dan Snyder, grande doador de Trump, na ilusão de que seria uma exaltação às qualidades de liderança dele. Ninguém sabe o que Snyder disse ao diretor e ao roteirista depois de assistir à primeira exibição numa sala privada.

Ivana Trump, que é mãe de Donald Jr, Ivanka e Eric Trump, morreu em julho de 2022 ao cair da escada de sua casa em Manhattan. O corpo foi enterrado no Trump National Golf Club em Edminster, New Jersey. Parece que o clube de golfe ganhou isenção de imposto por ser considerado um cemitério.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Céu de angústia intensa sobre Curitiba

Para quem gosta de filme de terror hoje é um dia perfeito. A Netflix está exibindo um filme alemão de 2021 chamado Ceu Vermelho Sangue e o por do sol sobre a prefeitura foi de um vermelho eletrizante.

No filme os vampiros mordem a jugular dos passageiros de um avião sequestrado.

No nosso horizonte, o céu vermelho indica que a poluição continua aumentando.

.

Publicado em cidade, Sem categoria | Com a tag , | Deixe um comentário

O Rato e o Rei

,

Nesta altura dos acontecimentos políticos, quando os jornais começam a especular quem ocupará os cargos mais importantes no futuro governo, ocorre-me uma fábula, que vem muito a propósito: houve, certa ocasião, uma eleição para ver quem seria o rei dos animais. Concorriam ao cargo o tigre e o leão, dois candidatos fortes que dividiam o eleitorado.

O ratinho ficou do lado do leão. Devia-lhe alguns favores e confiava mais nele que no tigre, bicho astuto, matreiro, de quem não se sabia, com certeza, o que esperar. Por isso esmerou-se nas suas tarefas. Contactou com todos os bichos. Formou dlretórios e obteve até um voto que parecia impossível, o do bicho preguiça que no dia da eleição compareceu para votar, para espanto de todos.

O leão ganhou por larga margem de votos e, um dia antes da posse, chamou o ratinho:

-O que é que você quer ser no meu governo?”

-Nada. Desejo apenas ter entrada livre no palácio e falar com vossa majestade na hora que quiser.

O leão concordou e foi trabalhar de monarca. Na primeira audiência pública o ratinho entrou no salão, aproximou-se do trono e sussurrou no ouvido real:

-Vossa Majestade está precisando de alguma coisa?

O leão agradeceu.

-Nada, obrigado.

O ratinho foi embora. No dia seguinte, só se falava uma coisa na floresta: “O ratinho é que está com a força. 0 rei nada faz sem consultá-lo”.

Moral: as vezes é melhor ser amigo do rei do que ter as atribulações dos altos cargos.

.

(Fábula contada pelo Nireu Teixeira no velho Correio de Notícias)

.

.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Pisei errado

gghhj

.

Senti um choquinho no joelho mas fui em frente na tentativa de completar 7 mil passos, número cabalístico que afasta você do infarto.

Adiante, outro choquinho, agora acompanhado de um falseio. Vou cair. Não cai, com cuidado completei o percurso.

O Google diz que choquinho é encrenca porque o joelho é complicado. Parece que o Criador, na ânsia de evitar tombos, caprichou demais. Construiu o joelho com um emaranhado de ossos, cartilagens, ligamentos (cruzados e laterais), tendões, músculos – tudo banhado por um tal de líquido sinovial.

Para consertar joelho só médico muito bom. E muito raro. E muito caro.

Não pise errado para não se endividar.

Mas não pisar errado como? As calçadas de Curitiba estão entre as piores do mundo. (Parece que em segundo lugar, perdemos para Bangladesh). Há buracos, pedras saltadas, o petit pavê é uma fábrica de tendinites, sem falar na LCA, a Lesão do Ligamento Cruzado.

No governo Mauricio Fruet a prefeitura tinha um programa chamado Vamos Caminhar Melhor. Pensava nos velhinhos que arrastam o sapato e nas senhoras com salto alto. “Vamos Caminhar Melhor” recuperou em 1984 mais de 12 mil metros quadrados de calçadas na área central da cidade.

Os prefeitos que vieram depois nada fizeram pelas calçadas de Curitiba. Quando você reclama dizem que calçada, por lei, é responsabilidade do proprietário.

Quer ver mudaram a lei? Proponho uma campanha: Prefeito Sem Carro. Pra ter mais resultado, tira-se o carro do Secretário de Urbanismo, do Secretário de Obras, do Secretário da Saúde, do presidente do IPPUC, que costuma desenhar as calçadas.

Se o prefeito e sua turma forem obrigados a andar a pé pela cidade – sugiro começar pela Travessa José do Patrocínio, aquela das raizes obcenas e buracos pornográficos – vamos caminhar melhor.

Viva o Maurício!

Publicado em cidade, Sem categoria | Deixe um comentário

Maresca perdeu o emprego

Enzo Maresca, o técnico que ganhou a Copa Mundial de Clubes de 2025 para o Chelsea, acaba de ser demitido. Motivo alegado: venceu apenas um dos últimos sete jogos. Motivo verdadeiro: lealmente informou à diretoria do clube uma sondagem do Manchester City para substituir Pep Guardiola no fim do ano.

-É malandragem dele – berrou um diretor do Chelsea. –Está querendo aumento!

Parece que não. Parece que Maresca estava simplesmente sendo honesto com o clube, jogando limpo. Uma atitude tão estranha num mundo de ardis, espertezas e malandragens que ele perdeu o emprego.

O novo técnico já sabe: para sobreviver terá que ser maquiavélico. Fingir admiração pelo diretor que se acha um estrategista. Escalar aquele cabeça de bagre comprado a peso de ouro. Entender que o futebol é torto como as pernas do Garrincha. Em resumo: não resistir.

Ou resistir.

Esquecer os 800 mil dólares por mês e botar a boca no trombone.

Por isso, proponho que o ano de 2026 seja dedicado à defesa dos honestos.

Eles estão em número cada vez menor e isso é grave.

Mesmo em minoria, são essenciais para o equilíbrio do ecossistema político-esportivo-econômico do planeta.

Resistir como o João Saldanha, técnico da seleção no auge da ditadura. Quando o general Médici manifestou sua preferência por Dadá Maravilha para centro avante. Ele reagiu:

-O general não deve escalar a seleção, assim como eu não devo escalar o ministério.

Foi demitido e João Havelange correu a Brasília prestar contas ao coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação. No dia seguinte, perguntaram ao Saldanha porque ele saiu.

-Por que eu saí é fácil de entender. Difícil é explicar porque eu entrei.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O Homem Invisível procura amizades impróprias. Uau!

,

.

Neste Natal quente, imagine os plantonistas da GloboNews que nunca desliga tomando cafezinho com coca cola para enfrentar seis horas de tédio. As fontes estão na praia com o celular desligado, o Requião candidato não rende uma chamada, o movimento de Nova York foi maior do que o ano passado, e dai? – e teve a mensagem de Leão XIV. “Negar ajuda aos pobres é rejeitar Deus”. Traduzindo: deem esmolas para eles. Muito antiquado esse papa americano. O papa Francisco pedia igualdade

Felizmente a BBC deu de presente ao público mais um pedaço do escândalo Epstein: o e-mail que O Homem Invisível enviou a Gislaine Maxwell. Sabe a Gislaine? Era namorada e organizadora de eventos daquele empresário corruptor de menores que deu oito caronas a Trump em seu jatinho.

O Duque de York é (era, teve que abdicar do título) o principe Andrew, terceiro filho da Rainha Elizabeth. Estava obrigado em Balmoral, o castelo de verão da família. Às 11h de 16 de agosto, não aguentava mais de calor e tédio, porque o agosto deles é pior do que o nosso dezembro – aqui tem praia. Na mente aristocrática desfilavam recordações de verões mais divertidos e ele, provavelmente turbinado por alguns gin tônica (requer confirmação), escreveu o email. Primeiro relatou a pasmaceira familiar e no segundo parágrafo foi ao assunto.

“How is L.A.? Have you found me some new inappropiate friends? Estou livre de 25 de agosto a 2 de setembro.”

Um cara sutil, nosso príncipe. Se fosse um deputado brasileiro querendo detonar parte da verba desviada de algum hospital do Maranhão teria escrachado: “Me arranjou uma nova gostozinha?” Ugly. O principe é bem educado. Polidamente pediu por uma nova amizade inapropriada. Nicely done, teria dito tia Margareth, a escandalosa, também de gin tônica em punho.

Viva a BBC.

*

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Conservai vossos inimigos

Pesquisador Luis Carlos Betenheuser Jr

.

1985. Comecei a desconfiar logo de manhã. No elevador, um conhecido abriu seu melhor sorriso e disse:

-Grande vitória a nossa, heim?

Concordei distraído, já estávamos no térreo. Algumas quadras adiante lembrei: o conhecido era Atlético. Eles, então, tentavam se apropriar da nossa conquista.

Em outros locais e situações confirmei a suspeita. Atleticanos e colorados, pinheirenses e londrinenses almejavam ser campeões do Brasil à custa da gente.

Este é um alerta. Fique atento, leitor Coxa. Não deixe que avancem no que é nosso.

Pois fomos nós, exclusivamente nós, que batalhamos, desde que a bola é bola, os tostões para entrar no estádio e ver a inesquecível linha Baby, Merlin, Neno, Camarão e Altevir. E o Tonico, o Cartola, o Fedato – impávido Fedato! – foram objeto de admiração ritual de nossos olhos infantis.

Choramos um rio de lágrimas sentidas nas derrotas para o inimigo. Principalmente nas derrotas arrancadas à custa de malícia e colocadas a serviço do deboche – como quando o ponta esquerda Cireno levou o goleiro Belo a loucura ao arrancar o gorrinho que lhe escondia a calva.

É verdade que demos o troco, anos depois, quando Miltinho, pior que um saci, driblou, driblou, driblou, até que ninguém mais ousou chegar perto para ser driblado. E então – glória suprema! – sentou sobre a bola e devolveu o deboche com juros e correção monetária.

Ou então quando o Ivo Cavalo de Pau beliscou as partes pudendas do goleiro deles que de tão indignado esqueceu de segurar a bola.  Por mais que se elogie a arte, o futebol é isso: chalaça, provocação, sarcasmos e remoques.

Aliados

Agora aparece o conhecido do elevador, melífluo e envolvente, querendo acabar com o encanto. Fora com ele. A obrigação de cada Coxa é manter o desafeto. Senão, a quem fazer escárneo?

Por sinal, o inimigo concorda com isso. Não posso imaginar o Osiris de Britto, do alto de sua dignidade, tentando pegar carona no bonde da glória coritibana. Pelo contrário, ele está fechado em casa tentando inventar uma frase para diminuir o feito. E competência não lhe falta. Afinal, é o Osíris o autor de inesquecível sentença proferida quando lhe apontaram o Coritiba Foot Ball Club como modelo de organização.

-Se eu gostasse de organização, torcia para o time da Volkswagen!

Outro que se preocupa em preservar os laços de inimizade que ligam os principais clubes do Paraná é o Jairo de Araujo Regis, agora morando no plácido Espírito Santo, antes responsável por brilhantes manchetes coxas na revista Placar. Jairo dirigiu a revista com brilho e obstinação alviverdes. Pelo DDD, minutos após a vitória no Maracanã, ele reiterou sua posição histórica.

-Se um dia o Atlético disputar a final com a seleção dos cachorros você vai me encontrar latindo no meio da cachorrada.

Não se deixe iludir, leitor Coxa, querem um pouco de sombra à beira do monumento de nossas conquistas. Ria na cara deles, zombe, chalaceie, escarneça. Só assim eles irão para longe preparar a revanche.

Não sei que idiota disse que todo mundo tem direito de torcer para o Flamengo no meio da arquibancada do Vasco. Suspeito que não fosse um idiota qualquer mas um assassino terrível atraindo a vítima para o local do esquartejamento.

Futebol é sangue e paixão – o resto é demagogia. Nesta hora histórica há que ter visão crítica e resistir às tentações. Belo bem do futebol paranaense precisamos preservar os nossos inimigos.

*

(Publicado no Correio de Notícias, em 02/08/1985, agora republicado no Blog do Coxa pelo historiador Luiz Betenheuser Júnior. Valente historiador que neste momento enfrenta um exército de ácaros nos arquivos do Coxa para resgatar imagens e informações velhas de um século. Há um tesouro de documentos nas caixas e caixas que dormiam sob a arquibancada social do Couto. Essa pesquisa nas fontes primárias é árdua mas recompensadora. Numa visita rápida vi relatórios que vão ajudar a reescrever a história de Curitiba – da Curitiba de 60 mil habitantes que recebia o primeiro bonde elétrico (Linha Batel-Alto da Glória) e só comia churrasco graças ao bonde de carga que vinha do Matadouro do Guabirotuba.)

*

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário