Sabe a piada dos quatro náufragos alemães que chegaram a uma ilha deserta?
Primeiro fundaram uma associação para organizar as coisas. Elegeram o presidente e votaram o programa de trabalho. Construíram a cabana de dormir, um sistema de coleta de água de chuva, um puxadinho para o banheiro e foram tocando a vida. Ficaram felizes quando apareceu outra jangada com mais três náufragos, que foram incorporados à associação.
Não demorou para surgir a desavença. Os dissidentes fizeram outra associação na praia ao lado.
Anos depois, quando chegou um navio de resgate, havia na ilha três associações e um partido de oposição.
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Com exceção dos cisnes de Aristóteles, que o filósofo imaginava nascidos de folhas lançadas na água, nada é produto de geração espontânea. Louis Pasteur provou que a vida vem da vida. E que essa tal de abiogênese é uma ficção.
O Coritiba nasceu de uma costela da Sociedade Teuto-Brasileira de Curitiba, a Teuto Brasilianischer. A equipe de pesquisadores que desde 2025 enfrenta poeira e ácaros para analisar documentos históricos do clube, guardados durante décadas sob a arquibancada social do Estádio Couto Pereira, tem duas hipóteses de trabalho para explicar a separação.
A primeira é o choque geracional. Os sócios mais antigos do Teuto cultivavam com devoção os esportes olímpicos. Corrida, saltos, arremesso de peso e de disco eram com eles. Os mais jovens preferiam os esportes coletivos, principalmente o futebol.
Outra suposição é a disputa entre as famílias Strobel e Hauer pelo comando da sociedade. O vice-presidente da Associação Coritiba Foot Ball Club, Luis Betenheuser Jr, que, juntamente com o grupo Helênicos, conduz a pesquisa, considera essa possibilidade mais viável. Todo dia descobre novas evidências nas atas escritas em alemão com aquele visual uniforme e agradável dos melhores calígrafos, em livros de contabilidade que mais parecem tabelas de Windows com linhas e colunas perfeitas, recibos, fotos e cartas que resistiram à umidade e aos cupins.
A importância do material agora redescoberto é tão grande que justificou um pedido de tombamento do conjunto documental ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC). Todo dia chegam novos documentos – cartas, fotografias, registros públicos – guardados no porão de casas antigas pelas famílias dos fundadores. Aos poucos vai-se jogando luz sobre episódios da vida do clube e da capital paranaense.
Porque o Coritiba é Curitiba.
Explicando melhor. O nascimento do Coritiba praticamente coincide com o início do século curto, (1914-1991) assim definido pelo historiador Eric Hobsbawm, que começou com a eclosão da 1a. Guerra Mundial e terminou com a queda do Muro de Berlin. O encerramento do século curto ocorre pouco depois de o Coritiba se tornar o primeiro clube paranaense a conquistar um Campeonato Brasileiro de Futebol – feito que ultrapassou os portões do Estádio do Maracanã e levou o futebol paranaense a um novo patamar. Que era também o novo status econômico do Paraná. O estado liberta-se do Complexo de 5ª Comarca de São Paulo. Se antes vivia da monocultura da erva mate, e depois do café, agora exibe uma economia agroindustrial forte e complexa.
Os 60 mil habitantes da cidade de 1912 agora, no final do século curto de Hobsbawn, são três milhões – o maior boom demográfico da história do país. Curitiba enfrentou a questão com inteligência. Com ajuda de Jorge Wilheim, um especialista em planejamento urbano, votou um Plano Diretor. Estabeleceu um coeficiente máximo de potencial construtivo, criou um direito de construir oneroso, trouxe os recursos para um fundo de interesse público que financiou a construção de casas populares, praças, parques e lagoas retentoras da chuva. A Universidade do Paraná, nascida em 1912, agora liderava a quinta maior constelação de universidades do Brasil. A chegada de indústrias em Curitiba e RMC surpreendia os analistas. De consumidora de produtos culturais, passou a exportar maravilhas como o Grande Circo Místico (quem não lembra das músicas de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo?), criado pelo Ballet Teatro Guaíra no governo de José Richa e aplaudido por plateias do Brasil e da Europa. De tudo isso nasceu Museu Oscar Niemeyer (MON), citado em rankings internacionais como o maior museu de arte da América Latina.
E tudo – a indústria da bola, a indústria do automóvel, a indústria da inteligência – faz parte do mesmo processo contínuo de mudanças que chamamos de desenvolvimento.
Dito isso, deve-se ver com outros olhos a reunião da diretoria do Teuto, realizada em abril de 1909, no Alto do São Francisco, onde ficaram claras as divergências sobre o futuro da associação. Não era só divergência. Era a biogênese em andamento. Um grupo onde predominavam membros da família Strobel não queria gastar dinheiro com futebol. Outro, onde sobressaia a família Hauer, pensava o contrário. Não havia sentido em ignorar que aquela era uma sociedade dedicada ao esporte e que nenhum esporte era tão importante como o jogo da bola que chegara com os irmãos Rebouças e os engenheiros ingleses da Estrada Curitiba-Paranaguá.
Naquele dia a discussão foi longe demais. Ofendido, Valdemar Hauer abandonou a reunião e passou a pregar uma ruptura radical, com a fundação de uma nova sociedade esportiva, provisoriamente chamada de Coritibano Foot Ball Club. Prova de sua convicção é que em nova reunião do Teuto, realizada em dezembro de 1909, nenhum dos Hauer estava presente. Como na anedota, tinham ido montar seu clube na praia ao lado.
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(Trecho do livro COXA – Desde que a Bola é Bola, em elaboração)