Lindsay Grahan morreu de dissecção aortica. Alguém já ouviu o cardiologista falar nisso?

Está nos jornais:

O senador Lindsay Grahan era considerado o melhor amigo de Trump, se é que esse cargo existe.

Morreu sábado de dissecção aortica. Instantaneamente. Fui perguntar o que é isso. No site do doutor Drauzio Varela uma explicação: é o rompimento da parte externa da aorta, a artéria mais importante do corpo humano.

O problema é mais incidente em homens a partir dos 60 anos.  Arteriosclerose (endurecimento das artérias) e hipertensão são fatores de risco importantes e estão presentes em 75% dos casos.

Não perguntei mais nada. Fui completar os 7.000 passos no Bosque do Papa.

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O alemão durão e o craque meio desbocado

Os jogadores não reclamam publicamente do calor e da umidade de Miami. Bellingham reclama.

O técnico da Inglaterra é Thomas Tuchel, um alemão durão.

Terminou o jogo com a Noruega, vitória de 2 a 1 dos ingleses, ele meteu a boca na equipe. Disse que não gostou da moleza em campo, da falta de velocidade e dos erros cometidos.

Normalmente os jogadores ouvem calados essas reclamações. Mas Bellingham, o craque autor dos dois gols, respondeu de bate-pronto.

“Talvez ele não saiba o que é jogar contra o Haaland e o Odegaard com esse calor e umidade”

Uma alfinetada na modesta carreira de Tuchel como jogador.

A discussão sobre o jogo Inglaterra versus Noruega não deve focar a bola; deve jogar um poderoso spotlight no termômetro e no higrômetro.

O calor mata. O calor com umidade alta mata muito mais.

Quem já andou nas ruas de Cuiabá em dia de calor conhece essa sensação: calor e umidade. O corpo quer suar e não consegue – a gente fica cada vez mais quente por dentro.

Aquele estádio de Miami é pior do que a rua de Cuiabá porque é todo fechado, o ar não circula, e não possui um sistema de refrigeração como o de Dallas, por exemplo.

Não li uma linha sobre o alarmante número de vítimas do calor entre os torcedores.

Horas antes, apareceu no site da Exame: “Noruega x Inglaterra pode ser cancelado devido a calor extremo nos EUA · Previsão indica sensação térmica de até 44°C no horário da partida”.

Depois moita.

Não é bom falar no assunto, assim como não era bom reclamar ao imperador romano do perigo de vida que os gladiadores corriam ao entrar no Coliseu.

Nem a Globo, nem a ESPN, muito menos a Cazé TV, que comemorou os 21 milhões de aparelhos ligados na hora do jogo que transmitiu com exclusividade e os dois bilhões faturados na competição.

O que é um crime a mais para os chefões da Fifa?

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Portanto, fica Trump 1, Bélgica 4 – e o mundo comemora. Não há nada como um malandro mal sucedida para nos unir, não é verdade?

O malandro sem sorte. (Foto de Evan Vucci, da AP)

O título é da Marina Hyde no Guardian. Na verdade, ela falou de “malandragem mal sucedida” mas acho que “malandro mal sucedido” pega melhor.

A palavra que ela usa é chicanery, que dá chicana em português. Malandragem jurídica para atrasar ou anular processos judiciais.

Ela conta que a torcida aplaudiu de pé a derrota dos EUA. E comenta: a última vez que tantas pessoas aplaudiram a Bélgica foi na 1ª Guerra Mundial, em 1914, quando a resistência belga conteve os alemães que acabavam de atravessar o rio Meuse.

Trump é um chicaneiro. Está sendo gozado na internet porque pediu a anulação do cartão vermelho dado no jogo anterior ao craque B….., por falta violenta.

Acha que pode tudo, pobre coitado, mas não consegue influir em um reles joguinho de oitavas de final. (Também não consegue derrubar o regime dos aiatolás, nem obrigar aquele gordinho da Coreia do Norte a parar de fabricar mísseis atômicos, mas essa é outra história.)

O importante é a atitude de B…, que aceitou o benefício da Fifa e entrou em campo. Tentou fazer gol, os belgas não deixaram. Se B… tivesse caráter, fosse um daqueles craques éticos do Coelho Neto, não entrava em campo porque o futebol é um jogo de gente decente.

Coelho Neto (1864-1934) imortal torcedor do Fluminense via o futebol como instrumento cívico de regeneração social e moral. A ética esportiva, garantia, vai lapidar o caráter do jovem brasileiro.

Passamos agora a outro momento da Copa, aqueles minutos finais de Brasil e Noruega, quando os onze jogadores trocaram passes mecanicamente diante da defesa da Noruega, que está longe de ser a melhor do mundo. Parecia que estavam ganhando.

Entendi logo que estava diante de uma disanalogia – nossos onze continuaram a tocar a bola como os oito integrantes da orquestra do Titanic continuaram a tocar seus instrumentos enquanto o transatlântico afundava.

Eis a disanalogia que nos envergonha: os músicos esperavam, com suas valsas e polcas, acalmar os passageiros em pânico e permitir que o maior número fosse salvo. Os boleiros esperavam que o juiz apitasse o fim do jogo para correr ao vestiário e dali a seus aviões de volta à Europa, aos Lamborghinis, às ruas seguras.

Nenhum entrou no avião da volta ao Brasil. Correção: só Danilo, que joga no Flamengo, voltou no avião da CBF.  Nem Ancelotti estava a bordo.

Desconfio que o capo da seleção tem medo dos dirigentes. E se alguém envenenar seu uísque para não ter que cumprir mais quatro anos do contrato de cinco milhões por mês?

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O golpe

Fernando Seabra, treinador do Coritiba, estava posto em sossego, satisfeito com o sétimo lugar que o clube ocupa na tabela do Brasileirão.

Então chegou o empresário ardiloso e disse ao ouvido dele: “Vou te levar para a Colina. Você vai ficar rico!

Seabra deslumbrou-se.

-O que preciso fazer para ir para a Colina e ficar rico?

-Vá falar com a diretoria e diga que você não quer mais ser técnico do Coxa.

Seabra foi.

-Não quero mais ser técnico.

O diretor concordou:

-Tudo bem. Eles que paguem a multa contratual e você pode ir.

Seabra se animou.

-Então é só pagar a multa?

-É.

Foi ao empresário.

-É só pagar a multa.

O empresário disse:

-Jatidou. Agora vamos tomar um vinho para comemorar.

Foram. Tiraram selfies com a camisa do Clube da Colina.

Fazendo coraçãozinho.

-E o dinheiro da multa? – Seabra perguntou ao empresário e ao diretor do clube.

-Jatidou.

Um dia passou. Outro dia. O dinheiro da multa não apareceu.

O Clube da Colina não tinha dinheiro para pagar a multa.

Seabra tinha caido no Golpe do Jatidou.

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O que acontece com este cão de faro supertreinado, recém aposentado da Receita Federal?

São tão bonitos que dá vontade de levar para casa. Agora você pode, desde que preencha os requisitos de adoção da Receita Federal.

Um cão de faro é um 007 de quatro patas e um nariz privilegiado que enfrenta os maiores perigos na luta contra narcotraficantes.

Grande parte de seu trabalho, porém, é cheirar malas no aeroporto.

Dizem que dá um rosnado piedoso ao constatar a quantidade de roupa suja, chulezenta, que as pessoas carregam na volta da viagem.

Possui 300 milhões de receptores olfativos; os humanos têm míseros 8 milhões).

Pode ser pastor alemão, pastor belga de Malinois (o da foto é um legítimo Malinois), labrador retriever, bloodhound ou beagle.

A Secretaria da Receita Federal acaba de criar o Sistema de Aposentadoria Assistida de Cães de Faro. Os animais que trabalharam na instituição têm direito a uma vida de qualidade após a aposentadoria.  

Isso significa assistência veterinária, alimentação, fornecimento de medicamentos e tudo que for necessário ao bem-estar do cão.

Está na Portaria RFB Nº 700, de 26 de junho de 2026, que dispõe sobre o Sistema de Aposentadoria Assistida de Cães de Faro da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil.

Leia a Portaria e descobra como a gente pode adotar um cão de faro.

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O solista vai fazer mais um gol – então, o milagre

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Milagre do goleirão.

Não sei se todos notaram, mas logo após o gol de empate de Casemiro Vini Jr recebu a bola na esquerda e partiu para cima do zagueiro Tomiyasu, que não é um cabeça-de-bagre qualquer. É craque do Arsenal, custou 23 milhoes de euros e nem por isso deixou de tomar uma acintosa caneta da Vini, que invadiu a grande área, tirou os zagueiros Taniguchi (nenhum parentesco) e Watanabe com cortes rápidos, descobriu um espaço que só os supercraques enxergam para finalizar de biquinho na saída do goleiro Zion Suzuki.

Era gol, gol de placa, pintura de gol, capolavoro, não fosse a defesa milagrosa de Zion, que já está na lista de contratações dos maiores clubes do mundo para a próxima temporada.

Suzuki, 1m90, primeiro goleiro negro a defender o Japão, desafiou as leis da física – voou para o canto e felino desviou a bola de ponta de dedo.

Assim como o gol que Pelé não fez em Mazurkievicz, no Brasil X Uruguai de Copa de 1970, o gol de Vini Jr que Suzuki evitou vai para a história das Copas e será lembrado daqui a 50 anos.

Claro que, no ano de 2076, o futebol será diferente, os jogadores correrão 25 quilômetros por partida de quatro quartos recebendo instruções pelos chips colocados na parte anterior do cérebro. (Na parte da frente haverá telas para exibir comerciais dos patrocinadores).

Mas o não-gol de Vini Jr, solista da seleção brasileira de 2026, será lembrado pelos frequentadores dos bares, entre um coquetel molecular e outro, ao lado do não-gol de Pelé e da Mano de Dios de Maradona, como um dos grandes lances do futebol-arte.

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Como é bom morar aqui

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O por-do-sol em Curitiba indica uma certa poluição. Mas ainda poderemos respirar esse ar por muitas décadas, ao contrário, por exemplo, de Los Angeles. São os benefícios do delay.

Vivo em Curitiba e não nos EUA ou Europa, e sou feliz.

Aqui tudo chega atrasado.

A própria secretaria de turismo está atrasada em colocar no Aeroporto Internacional Afonso Pena esse anúncio: Curitiba, a Capital Mundial do Delay.

A luz elétrica chegou em Nova York, Londres e Paris em 1882. Aqui, dez anos depois. Quer dizer: tivemos mais dez anos para serenatas ao luar e a poesia do lampião de gás.

A cloração de água em larga escala começou na virada do século passado em Nova York e na Europa. Aqui, a primeira estação de água tratada, a ETA Tarumã, é de 1945.

O primeiro automóvel rodou em Paris em 1887. Aqui, só em 1903 – um carro francês, trazido pelo Francisco Fido Fontana.

O neoliberalismo é de 1970/80 (Reagan, Thatcher). Aqui, em 1996, parceria Fernando Henrique/Jaime Lerner.

Frank Sinatra estourou nos EUA em 1942 com show no Paramount Theatre, em Nova York. Ao Brasil, só chegou em 1980 quando cantou para 150 mil pessoas no Maracanã.

Aqui, nada.

O primeiro metrô foi inaugurado em Londres em 1863. Curitiba desfruta de um magnífico delay de 163 anos. Depois vieram todos os outros subterrâneos na Europa, na América do Norte, na Africa – até em Pyongyang, Coreia do Norte, onde os comunistas construíram linhas 110 metros abaixo da rua.  Isso enseja outro anúncio que a secretaria de turismo deve colocar no Aeroporto: “Você chegou a Curitiba, única capital do mundo que não tem metrô”.

O TGV, Trem de Alta Velocidade, roda na Europa desde 1981. Perguntei à Inteligência quando vai chegar a Curitiba. Ela respondeu com a sinceridade dos algorítmos: “O transporte aéreo e rodoviário continuam sendo as únicas opções disponíveis por tempo indeterminado”.

Então, as aéreas metem a faca e o jeito é viajar de ônibus. A Cometa com muito senso de humor garante que ninguém vai sentir a diferença: “Nosso ônibus é um verdadeiro avião”, diz o anúncio.

Sou feliz porque, graças ao delay, aqui não tem superaquecimento, seca, Trump, heatstroke, ingresso de futebol a dois mil dólares, pausa no teatro para os atores se hidratarem. E nunca ninguém foi empurrado para morrer nos trilhos do subway como vive acontecendo em Nova York. Não há polícia de imigração, os venezuelanos são bem-vindos, os cubanos são bem-vindos, as portas estão abertas.

Recentemente descobri outro motivo para ser feliz. É que aqui, apenas aqui, vive-se em permanente afternessless, um barato absolutamente Leminski, leve, alternativo – uma Era Dourada que o vivente não precisa viver para desfrutar.

A fruição do delay é privilégio de curitibano que curte gol pela CazéTV.

Quando não tem Copa, a gente vai que vai para a praça Eufrásio Correia desfrutar o maior delay do mundo – esperar a chegada do TGV.

Também vou prá lá. Só essa garoa passar.

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Assuntos praianos

No verão europeu, cada um reclama de sua praia.

Os guarda-sóis foram proibidos numa praia da Sardenha – aquela ilha italiana com 2.000 km de praias – para todas as pessoas com idades compreendidas entre os 10 e os 65 anos. É a mais recente ideia de jerico para defender o meio ambiente na Itália.

A praia de Punta Molentis é pública, mas para pisar na areia temsó que pagar 10 euros de ingresso.

Ao saber da nova regra, uma turista francesa se indignou:

-Agora para instalar um guarda-sol vou ter que alugar uma criança?

A matéria está no Guardian, em https://www.theguardian.com/world/2026/jun/10/sardinian-beach-bans-umbrellas-people-aged-10-65-punta-molentis

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Os maravilhosos músicos da era do jazz em Curitiba e a chegada de Xavier Cugat em 1949

Na foto, Inar Rodrigues Carvalho está no pandeiro, Guarani Nogueira, o homem que ajudou a inventar a batida da bossa nova, no bongô. o trumpeter é Osval, os saxes Nascimento e Reinaldo. (Foto do arquivo de Silvio Carvalho)

A música faz amigos.

Meu amigo musical mais recente é o Silvio Carvalho, cliente do Edson do Grimm Haus Sebo e Livraria, ali na Rua Mauá.

Silvio anda a investigar a carreira do avô Inar Rodrigues Carvalho, percussionista das orquestras que animavam os bailes do Curitibano, Círculo Militar e Sociedade Thalia nas décadas de 1940/50, entre elas a Colúmbia e a Banda do Osval.

Quer saber se o avô tocou com Xavier Cugat na excursão que o maestro fez ao Brasil em 1949, patrocinada pelo Departamento de Estado nos bons tempos da política da boa vizinhança – agora voltamos ao tempo do Big Stick.

Falemos de Cugat, um espanhol criado e educado musicalmente em Havana no tempo do ditador Fulgêncio Batista, que não imaginava ser tão popular entre os curitibanos. É que ele não era apenas ele, era a imagem de Esther Willians, a exuberante atriz de “Escola de Sereias” (Bathing Beauty, 1944), filme da Metro Goldwyn Mayer que praticamente inaugurou a era dos grandes musicais. Esther foi a primeira gostosa que vi em tecnicolor. Todos nós, garotos, assistimos ao filme e concordamos: “Que coxas!”

O Cine Opera tinha 1.600 lugares, faltou lugar. No dia seguinte, Cugat tocou na Sociedade Thalia, os convites foram disputados a tapa. Para fazer o “esquenta” dos shows, os promotores chamaram a Orquestra Colúmbia, com os craques da época, entre eles provavelmente o Inar Rodrigues Carvalho.

Interessante é registrar a perenidade das músicas que compunham o repertório de Cugat. Minha preferida é “Perfídia”. O eterno bolero foi composto pelo mexicano Alberto Dominguez em 1939, levou oito anos até que o Trio Los Panchos se interessasse por ele. E nunca mais saiu das paradas. A gravação definitiva, de 17 de fevereiro de 1947, foi feita no célebre estúdio da Columbia na 7ª. Avenida, 799, entre as ruas 50 e 51, em Manhattan. Descubro que o prédio foi demolido em 1983 para dar lugar a um desses monstrengos de vidro e aço da Era Trump.

E por que “Perfídia” é perene? Porque nos reencontramos o tempo todo com suas harmonias. Agora, em 2026, ela é também nome da personagem que contracena com Leonardo DiCaprio, o Bob Ferguson de “Uma Batalha Após a Outra”, filme que ganhou seis Oscars. No final, quando rolam os créditos, ouvimos “Perfídia” na gravação original do Trio Los Panchos para a Columbia Records.

Atenção para o detalhe crucial: Los Panchos não era bem um grupo de mexicanos. A voz que deu balanço e identidade àquela gravação é de um boliviano, Raul Shaw Moreno. Apenas com ele o trio soou suficientemente bom para os ouvidos do maestro argentino Terig Tucci, que dirigiu a gravação que entrou no filme.

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P.S. – Mais sobre Cugat e os incríveis músicos curitibanos em “Curitiba no Tempo do Jazz Band”, que saiu em 2019, foi vitima da pandemia, mas está voltando a interessar os leitores.

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A ESTRELA DA AREIA ESTÁ SE AFOGANDO

Na areia não se acha uma mísera bituca.

Era uma moça loira e linda, quase uma Kate Moss, exibindo em pleno sol das 11 seu doce balanço a caminho do mar. O homem sério que buscava notícias no celular parou a leitura para contemplá-la, um garotão encheu o peito, várias moças nem tão loiras, nem tão lindas administraram uma invejazinha. Que não era inveja branca como se verá a seguir.

A moça venceu com graça dez metros de caminho balizado entre a vegetação da restinga e avaliou o mar de pequenas ondas. As maiores estavam longe, servindo os surfistas da ponta da praia.

Livrou-se da canga, da viseira e da bolsa de ráfia oversized e caminhou para a água. Um pulinho na primeira onda, outro na segunda, estava concluído o ritual. A moça na água, a atenção mudou para uma gaivota – ou seria uma fragata? – que passava e depois de volta aos celulares.

Poucos notaram o alarme do guarda-vidas, binóculo em punho do alto do observatório. Raros deram atenção à corrida de dois outros guarda-vidas com pés de pato e uma prancha. Só um gurizinho entendeu a situação e avisou a mãe que a moça estava se afogando. Olha o braço dela! O braço subiu à tona e sumiu puxado pela corrente. Olha os salva-vidas! Agora eram mais três que se atiravam no turbilhão.

Durou pouco mais do que dez minutos o salvamento. O socorrista chegou perto e estendeu um flutuador para a moça. Uma nova capotada e tudo certo – lá estavam os dois próximos ao banco de areia. Braço no ombro do guarda-vidas ela chega à areia. Chora. Não diz obrigado, não diz graças a Deus. Chora e se lamenta: “Perdi meu brinco!”

É mais um ouro perdido no mar – tributo a Iemanjá e a São Francisco de Assis, padroeiro dos pescadores e de turistas temerários.

A Praia das Tartarugas, município de Mata de São Joâo, região da Praia do Forte, 75 km ao norte de Salvador, é perigosa. Parece que as tartarugas marinhas sabiam disso há séculos e a elegeram para desova. Ao longo de 30 quilômetros de coqueirais a areia segue incólume, limpinha, um ano após o outro. Não se vê uma lata de cerveja, um saco plástico, uma mísera bituca – nada além de marcos assinalando ninhos de tartaruga.

Colaboradores do Projeto Tamar (tamar.org.br) há 45 anos monitoram a praia. À noite, com lanternas de luz vermelha (os quelônios fogem da luz brilhante), verificam os ninhos. A contagem deles a cada temporada reprodutiva indica se as populações estão aumentando ou diminuindo. (Boa notícia: estão aumentando). No breve período em que as tartaruguinhas deixam o ninho e vão para a água, os pesquisadores coletam dados biológicos. Com o avanço das pesquisas genéticas e de isótopos aprendem sobre a vida de uma tartaruga e a situação dos mares. E do nosso mundo.

Posso morder a língua, mas acredito que o Projeto Tamar, parceria entre a Fundação Tamar e o Instituto Chico Mendes, é um indício de que o Brasil tem jeito. Sobreviveu aos terríveis anos Bolsonaro, quando o Ministério do Meio Ambiente, sob o comando de Ricardo Salles (aquele do “passar a boiada”) extinguiu três bases avançadas de pesquisa, em Camaçari (BA), Parnamirim (RN) e Pirambu (SE). Superou investigações da Advocacia Geral da União sobre certificações de filantropia da Fundação.

O Tamar não apenas protegeu os animais; transformou a vida de comunidades litorâneas. Pescadores que antes utilizavam tartarugas como alimento passaram a protejê-las como funcionários do projeto, gerando renda através do ecoturismo. Mostrou que é possível a colaboração entre a sociedade e o Estado. (O Centro de Visitantes está em um terreno de 10 mil metros quadrados cedido pela Marinha). A Fundação Tamar é mantida com a venda dos produtos artesanais nas lojas, contribuições privadas e da Petrobrás.

Tomara que continue dando certo.

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