
Hans Egon Breyer não era apenas um jogador de futebol – era um atleta completo. Nascido em Velbert, cidadezinha da região de Dusseldorf, veio com a família para o Brasil em 1920, fugindo da destruição e da crise econômica causadas pela Primeira Guerra Mundial.
Adolescente, treinava atletismo na pista do antigo estádio Belfort Duarte. Tinha força e altura (1m86), e destacou-se em várias modalidades. Foi campeão nos 200 metros rasos e chegou a vice-campeão brasileiro de pentatlo e decatlo. Também gostava de bater uma bolinha depois do treino.
Convidado a jogar futebol, teve no gramado o mesmo sucesso das pistas. Começou como ponta-direita e venceu o campeonato paranaense de 1939. Fixou-se mais tarde como zagueiro, mas não era um beque qualquer: tomava a bola do adversário, entregava ao ponta e ia para a área adversária esperar o cruzamento. Pulmão não faltava. Foi ganhando jogo após jogo até o dia 19 de outubro de 1941, quando entrou em campo para um Atletiba decisivo na Baixada. Dominou a primeira bola, a segunda e na terceira o dirigente atleticano Jofre Cabral e Silva não resistiu. Foi para a cerca que separava a arquibancada do gramado e gritou:
-Sai daí, coxa branca! Fora, alemão quinta-coluna!
O Brasil estava entrando na Segunda Guerra Mundial. Quinta-coluna era uma alusão aos espiões que teriam enviado mensagem ao submarino alemão que torpedeou um cargueiro brasileiro. A parte atleticana da torcida repetiu: fora coxa branca! Fora quinta-coluna!
Breyer continuou jogando seu jogo. Destruiu o ataque atleticano, o Coritiba venceu por 3 a 1 e, na semana seguinte, foi campeão paranaense. Mas, após o apito final, a xenofobia doeu, lembranças da perseguição no tempo da guerra afloraram.
O craque decidiu encerrar a carreira aos 24 anos. Não queria prejudicar o clube e não suportava a ideia de alguém colocar em dúvida sua lealdade ao Brasil. Passou anos sem entrar em estádio de futebol. Só muito mais tarde, na festa do título de 1969, a torcida comemorando com gritos de “Coxa! Coxa!”, sentiu superado o momento triste.
O xingamento tinha virado grito de guerra dos campeões.
Depois que deixou o futebol, em 1943, Hans trabalhou na antiga fundição dos Irmãos Mueller, hoje Shopping Mueller e mais tarde foi dono de uma serraria. Ao conhecer dona Lais, famosa pelos pratos que servia aos Levorato e amigos, não teve dúvida: juntou o dinheiro economizado em vinte anos e abriu com a esposa o Restaurante Nino.
Corte no tempo. Estamos em 1961. O salão cheio, flores, risos, abraços. Para alguns era só a inauguração de outro restaurante elegante na cidade. Para Hans Breyer era a volta por cima, a virada de chave, o topo do mundo. Vinte anos depois de abandonar o futebol para fugir da perseguição de Joffre Cabral ali estava ele, no último andar do Edifício Reichmann, recém concluído pela Construtora Farid Surugi, administrando o restaurante da moda.
Não podia ser melhor localizado, janelas panorâmicas para o centro da cidade, cardápio em cartolina 250 gramas onde se destacavam o filé ao poivre e o linguado ao molho de camarões. Virou ponto da elite.
Como o mundo dos anos 1960 era pequeno e Curitiba menor ainda, de vez em quando tocava o telefone e uma voz conhecida pedia mesa para um grupo da sociedade. Era Ema, dona da Boate Manhattan, situada a poucos metros de distância, de frente para a praça. Logo chegava para jantar com convidados ilustres, professores universitários, empresários, gente top: Vieira Neto, Alcides Munhos Neto, Adolpho de Oliveira Franco, Renato Valente, Manoel de Oliveira Franco Sobrinho e o próprio Joffre Cabral – sujeito oculto das atividades empresariais da bela cantora colombiana/novaiorquina.
Se Joffre ficava constrangido diante de Breyer? Só imagina uma coisa dessas quem nunca conversou com ele. Desde o reencontro viraram amigos. “Esse é um herói do esporte, um gentleman, o alemão mais brasileiro que conheço!”
Lais Levorato, esposa de Breyer, vinha à mesa tomar os pedidos e ouvir elogios ao marido e ao seu talento culinário. Torcia pelo Atlético, dois tios Levorato chegaram a vestir a camisa rubro-negra, e a família era uma mistura de coxas e atleticanos que conviviam muito bem naquela década povoada de títulos alvi-verdes.
Hans Breyer faleceu em 2001. No seu túmulo, no Cemitério da Agua Verde, está gravado bem grande: “O primeiro Coxa-Branca”. Em 2024, o Coritiba lançou nova camisa oficial em sua homenagem.
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P.S. – Trecho do livro Coxa Desde que a Bola é Bola, em construção








