Londres, 34 graus (II)

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O fuzilamento de Maximiliano

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Nem todos os soldados atiram; um recarrega a arma. O quadro de Edouard Manet, hoje na National Gallery, em Londres, primeiro não foi aceito no Salão de Paris, depois cortado em pedaços. 

 

 

 

O Segundo Império Mexicano terminou assim – com o fuzilamento do imperador Maximiliano – um fantoche de Napoleão III.

O imperador Fernando Maximiliano de Habsburgo-Lorena foi capturado após um cerco em Santiago de Querétaro, em 1867

No Brasil, país que odeia (odiava?) a violência, o Império terminou entre agitações pelo fim da escravidão, mas ninguém pensou em organizar um pelotão de fuzilamento para cuidar do Imperador.

Vinte e dois anos depois do fuzilamento de seu colega mexicano, D. Pedro II deixou o trono e foi gozar confortável exílio em Paris.

Afinal, ela não era um fantoche. Era o Imperador Constitucional do Brasil. Uma boa parte do povo amava a monarquia, embora não gostasse da Princesa Isabel como sucessora.

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Londres 34 graus

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O bus deles tem horário

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Ponto de ônibus de Londres tem quadro de horário.

Todos os pontos.

Há uma placa digital em cada ônibus que manda um sinal para a central e para os pontos de parada.

Aqui também os ônibus têm placa digital que manda um sinal para a Urbs e para alguns terminais.

Na rua, dizem, seria temerário instalar os avisos.

Sabe os vândalos? Destruiriam tudo.

Curioso é que não há vandalismo na publicidade da Clear Channel.

Os desconfiados acreditam que as informações não são para todos porque muitos ônibus têm viagens canceladas arbitrariamente.

Não é por acaso.

A Urbs paga por passageiro transportado e não por quilômetro rodado.

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Lição de história

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Somerset House

 

 

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Todo poder é fugaz.

 

Em 1547, Edward Seymour,  poderoso Lorde Protetor e  Duque de Somerset, resolveu construir um palácio na margem do Tâmisa.

Em 1552, o palácio concluido, Seymour é surpreendido com uma ordem de condução coercitiva até a Torre de Londres. Lá é executado e o palácio se torna propriedade da Coroa inglesa.

Hoje, a Somerset House é administrada por um trust comandado pelos banqueiros da City. Um bom local para tomar chá, ver obras de arte de Van Gogh e, se tiver um amigo para ouvir, filosofar sobre a fragilidade essencial das coisas.

 

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Arquitetura moderna, ouro verde, a nova estética que definiu Brasília e encantou o mundo. O que isso tem a ver com a governadora Cida Borguetti?

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E a conta da luz – onde vai parar?

 

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As luzes nunca se apagam. O Palácio Iguaçu não consegue descansar após o expediente. O pior é que isso acontece há 64 anos.

Aos fatos:

Quando o arquiteto curitibano radicado no Rio de Janeiro David Azambuja (1910-1981) começou a projetar o Palácio Iguaçu, em 1951, os jornais Gazeta do Povo e O Dia, controlados pelo grupo do ex-governador Moisés Lupion, iniciaram a primeira briga – a indicação de Azambuja estava errada, devia ter havido um concurso internacional para escolher o responsável pelas obras.

Foi intenso o tiroteio entre situação (Aristides Mehri e Fernando Camargo, amigos de Bento, haviam criado O Estado do Paraná para defender o governo) e oposição. Sobraram acusações de modernismo exibicionista, erros técnicos, atraso nas obras e até desvio de recursos.

O Palácio foi inaugurado pelo presidente Café Filho, em 1954. Quem se interessar pode fazer uma antologia de editoriais e piadas sobre a aventura da comemoração do centenário de emancipação política do Paraná.

Tudo foi esquecido quando os paranaenses descobriram que eram protagonistas de uma revolução estética nacional, pioneiros de uma arquitetura que determinaria o desenho da nova capital Brasilia.

“Este Paraná vive entre o sonho e a invenção”, definiu Bento. O Palácio Iguaçu é a melhor síntese desse belo momento.

Nos anos 1950, o Paraná era rico. Produzia metade da gigantesca safra de café que anualmente o Brasil exportava para o mundo. E o Brasil era responsável por metade do consumo mundial. Nadávamos em ouro verde.

Os tempos mudaram, o dinheiro encurtou, mas há pouco tempo o Palácio Iguaçu foi totalmente reformado pelo governador Beto Richa. Não houve concorrência, o que gerou uma nova onda de acusações de pouco respeito pela Lei das Licitações e escasso amor ao dinheiro público.

Agora, candidata à reeleição, a governadora Cida Borguetti trabalha de dia e de noite para enfrentar duas ações que tramitam em conjunto, de forma sigilosa. Uma das ações já chegou a ser julgada improcedente pelo TRE, mas a acusação recorreu ao TSE, que ordenou o retorno da ação à instância inferior para nova averiguação.

A defesa da governadora informou a Agência Estado que “nenhuma ação imputa responsabilidade ou conduta irregular da governadora” e que agora, só aguardam uma decisão definitiva do TSE.

 

 

 

 

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O Lobinho e a Matilha. Ou O Dia em que Rudyard Kipling acabou de vez com o Barão de Coubertin

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O menino criado por lobos.

 

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O técnico Tite dava uma entrevista a Alexandro Lozetti, Amanda Kestelman, Edgard Maciel da Sá e Tossiro Neto, jornalistas do Globo, quando saiu-se com essa:

-A força da matilha é o lobo, a força do lobo é a matilha.

 

Os jornalistas anotaram cuidadosamente, sabedores da importância do que lhes era dito. Naquele momento, o antropomorfismo ingressava no futebol brasileiro.

O autor não citado da frase, escrita em 1893, é Joseph Rudyard Kipling. Está no Livro da Selva. A Kipling Society (http://www.kiplingsociety.co.uk) coloca à nossa disposição o texto completo desse código de sobrevivência na vida selvagem. Lá está o poema Law of the Jungle, cujo quarto verso é o seguinte:

For the strength of the pack is the wolf, and the strength of the wolf is the pack.

Desde o finzinho do século 19, a Lei da Selva vem ensinando jovens ingleses como se comportar, a quem obedecer, onde se situar na pirâmide social – e principalmente como vencer nessa sociedade.

Os críticos informam que Kipling, inglês nascido na India, era um imperialista empedernido. Hoje seria um neocolonialista canalha, desses que acham que o papel do Brasil no mundo é exportar soja, café, milho e jogadores de futebol.

Ao usar a citação, Tite reiterou a seus jogadores e ao povo em geral que futebol não é um nobre esporte onde, mais do que vencer, o importante é competir. Essa besteira foi dita pelo Barão de Coupertin, organizador das Olimpiadas de 1908. Bullshit.

Futebol é selva feroz, globalizada, dominada por uma gang chamada FIFA, onde sobrevivem os que melhor se organizam para caçar.

Ninguém estava interessado em antropomorfismo antes de Kipling. Depois, o filme sobre Mogli, o Menino Lobo, enriqueceu a Disney.

E consultores de marketing têm usado a ideia para animar ações motivadoras com vendedores de seguro, de imóveis ou de dinheiro.

Reunidos no auditório, entupidos de cafeína, abastecidos com um pouco de humor, os gerentes são informados sobre a condição do mercado, a concorrência, as oportunidades. Organizem-se, sigam o líder, batam as metas. Vendam, vendam, vendam. É a sobrevivência de vocês.

Os selecionados de Tite têm vida mais fácil – recebem a melhor análise do adversário que os “espiões”, os drones  e os informantes virtuais (http://xmlsportsfeeds.com,  www.reportlinker.com ou www.footstats.co.uk) conseguiram reunir.

O mago Tite ensina a lei e aconselha concentração. Pensem só no jogo. Mentalizem o caminho para a meta. Vençam, vençam, vençam.

Eis a mensagem –  Vocês são a matilha. Neymar é o lobinho que ainda está aprendendo a lei da selva.

O lobinho depende da matilha, a matilha depende do lobinho.

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Rudyard Kipling

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O direito de saber e o dever de revelar os malfeitos dos governantes

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Alda, Kate e Matt. Ela podia contar aquilo aos leitores do jornal?

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A crise de 2008 trouxe consequências para o cinema, entre elas a quebra da produtora Yari Film Group, que recorreu ao Capitulo 11 do Código de Falências (equivalente à nossa recuperação judicial) e teve bloqueados seus ativos – entre eles Nothing But the Truth (Faces da Verdade). O filme custou US$11.400.000 e rendeu míseros US$3.600 no único cinema de Los Angeles em que foi exibido.

Não é o melhor filme sobre ética jornalística, mas entraria fácil numa lista dos vinte mais se tivesse distribuição mundial. Em vez disso, ficou limitado ao DVD e ao streaming. Merece ser visto no Netflix.

 

O roteiro de Rod Lurie (também autor do bem sucedido thriller político A Conspiração, de 2000, que resultou na indicação de Joan Allen e Jeff Bridges para o Oscar) baseia-se vagamente no caso que levou a jornalista Judith Miller, do New York Times, a cumprir 85 dias de prisão por expor a agente da CIA Valerie Plamex. A matéria mostrava que o Iraque não tinha e nem estava adquirindo capacidade nuclear, e portanto não havia justificativa para a guerra decretada por George Bush.

Em Nothing But the Truth Lurie conta a história da repórter Rachel Armstrong, do fictício jornal Sun, de Washington, que revela a condição de agente da CIA de Erica Van Doran (Vera Farmiga). Desta vez o inimigo dos EUA seria a Venezuela, mas um relatório da agente desmente o governo. A reação é imediata e severa. Rachel é intimada pelo juiz Hall (Floyd Abrams) a revelar sua fonte. A negativa é considerada desacato à Corte de Justiça e resulta na prisão de Rachel.

Para defende-la, o jornal chama o advogado Albert Burnside (Alan Alda), especialista em Primeira Emenda – liberdade de expressão, direito de reunião, essas coisas. Do outro lado está Patton Dubois (Matt Dillon), um promotor duro, que argumenta com a tese da segurança nacional. Se os agentes da CIA forem expostos, o país corre risco de ataques terroristas.

O filme mostra as más condições do encarceramento da jornalista, a humilhação e as pressões da família e até do jornal, condenado a pesada multa, que aumenta a cada dia. A jornalista não cede e cumpre 355 dias de prisão, até que uma decisão por 5 a 4 da Corte Suprema considera a segurança nacional mais importante do que o sigilo da fonte protegido pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

A solução do enredo é brilhante, como em outros filmes de Lurie, e para os brasileiros fica a confirmação de que a imprensa, inclusive a norte americana, não está com essa bola toda. Ao contrário, submete-se a forças econômicas e contingências políticas. A verdade vai cada vez mais para o fundo do poço.

Na vida real, a jornalista Judith Miller deixou o New York Times e hoje está abrigada no City Journal, bancado pelo Manhattan Institute, poderoso think tank conservador. Il faut bien vivre, aconselha o provérbio. O City Journal defende a tese de que “Inequality Does Not Reduce Prosperity” –  uma pesquisa deles mostrou que a maior desigualdade é um efeito colateral do desenvolvimento econômico.

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Albert Burnside (Alan Alda) cita Patrick Henry: “As liberdades públicas nunca estiveram e nunca estarão garantidas enquanto os negócios de seus governantes puderem ser escondidos do povo.”

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Floyd Abrams, que defendeu Judith Miller e o Times na investigação do vazamento interpreta o juiz Hall. Ter o famoso advogado dos direitos civis no set foi importante para evitar erros.

Abrams disse que tive prazer em fazer o papel de um juiz brusco e impaciente. “Foi muito terapêutico para mim.”

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Para a ex-reporter Judith Miller ver o filme foi o oposto da terapia – uma experiência difícil que trouxe de volta lembranças ruins. As cenas da cadeia, mistura de solidão e humilhação, são dolorosas. “O tempo na prisão é uma eternidade. Você precisa de um esforço para entender porque está lá.”

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Mas a performance mais difícil do filme é de Vera Farmiga, que faz a agente da CIA Erica Van Doren. Suspeita de revelar a própria condição de agente, submete-se ao teste do detector de mentiras. “Trouxemos um técnico em polígrafo. Pedimos um teste de verdade. Ele ligou todos aqueles cabos e começou perguntando: “Seu nome é Erica Van Doren?” e Vera Farmiga confirmou. No fim do teste o especialista chamou Lurie para um canto para informar: “Você não vai acreditar nisso. A máquina registrou que ela disse a verdade.”

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Um ótimo livro sobre Fim de Semana, o suplemento cultural de O Estado do Paraná

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Cadernos de cultura, o jornalismo brasileiro produziu muitos. No Correio da Manhã, no Estadão, no Jornal do Brasil.

Em Curitiba surgiram o Anexo, criado por Reynaldo Jardim no Diário do Paraná, e o Fim de Semana, do Estado do Paraná, agora resgatado pela professora Selma Suely Teixeira graças ao apoio de Marilene e Francisco Millarch, esposa e filho do jornalista Aramis Millarch, que cederam a coleção completa à autora. Quem puder, deve correr à livraria para obter um exemplar de “Fim de Semana: um jornal feito com paixão pela cultura”, 505 páginas, edição do autor, que recebeu investimento da Caixa Econômica, através da Lei de Incentivo

O suplemento Fim de Semana nasceu em março de 1978, idealizado por Jean Luiz Feder, Luiz Fernando Bond e Marcia Bicudo. Mais tarde, Aramis Millarch, Mussa José Assis, Dante Mendonça e Mai Nascimento assumiram o caderno, destinado a informar o curitibano sobre as atividades culturais, que aos poucos transformou-se em veículo de ideias e inquietações de uma sociedade que vivia sob o comando dos generais.

Aqui terminava o governo Canet, um político que tinha autoridade mas não era autoritária. Um período de muito desenvolvimento para o Estado, que em quatro anos ganhou 4.100 quilômetros de rodovias pavimentadas, seis mil novas salas de aula, um novo Estatuto do Magistério e a retomada dos concursos públicos para acesso à carreira entre outros resultados de uma excelente administração.

Ney Braga assumia o governo pela segunda vez. Os paranaenses Karlos Rischbieter e Maurício Schulman presidiam o Banco do Brasil e Banco Nacional de Habitação.

Jaimer Lerner voltava à Prefeitura com seu estilo de prefeito sem gravata, criativo, bom de diálogo, amigo das artes. Consolidava-se a Cidade Industrial de Curitiba com a chegada da fábrica de caminhões pesados da Volvo e outras indústrias estratégicas.

Havia no ar uma certeza: as coisas estavam boas e iam continuar melhorando. “Fim de Semana…” conta esse tempo do ponto de vista cultural. É um documento do maior interesse público, que envolveu dezenas de pessoas e não seria possível sem o apoio da família de Aramis Millarch, provavelmente nosso mais importante pesquisador.

A história do período está nos arquivos do Aramis, preservados graças a um projeto que teve o apoio da Petrobrás e a energia da esposa Marilene e do filho Francisco. São gravações, fotografias, filmes e grandes entrevistas que ele promoveu com figuras tão variadas como a produtora teatral Ruth Escobar, o cientista Newton Freire-Maia, a cantora Ellis Regina ou o pesquisador Cid Distefani. Através deles, e de outros repórteres, fotógrafos, cronistas, temos um retrato rico e detalhado daquela época cheia de esperança na volta da democracia e na construção de uma sociedade igualitária, bonita e inovadora.

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O Irã é um enigma. Como o Brasil

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Outro dia, alguém escreveu que o mundo intelectual abriga três categorias: pensadores, pobres pensadores e gente que faz análises na Globo News. Na tela, alguns estão berrando por intervenção militar, isto é, golpe de estado, outros falam em revolução popular e a maioria reza para tudo voltar ao que era antes da greve dos camioneiros.

 

Intervenção militar é improvável. Voltar ao que era antes é impossível, porque as sociedades vivem em lenta e inexorável evolução. Então vamos falar de revolução.

Thomas Carlyle, escrevendo em 1789, declarou que revoluções reais são um “fenômeno transcendental dos Tempos Modernos”, que ocorreriam apenas uma vez em cada milênio. Ele claramente exagerou, mas teve uma intenção ao fazê-lo. Ao lado da chinesa, russa e chinesa, a revolução iraniana pode ser classificada entre as poucas que claramente deram nova forma à sociedade do Irã”.

Quem diz isso é Ervand Abrahamian, na New York Review of Books (nybooks.com) analisando o livro Iran: A Modern History, de Abbas Amanat (Yale University Press, 979 pp., $40.00).

 

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Para muitos americanos, o Irã é um enigma empacotado em um conjunto de contradições incompreensíveis e altamente inflamáveis. Durante décadas, antes da criação da República islâmica no final dos anos 1970, o Irã era admirado como um aliado indispensável dos Estados Unidos, que comprava armamento com desconto e funcionava como uma espécie de polícia do Golfo Pérsico.

Hoje, é retratado como um adversário implacável e ameaçador, constantemente tentando expandir sua influência do Mediterrâneo ao Oceano Indico.

Durante décadas, o xá da Persia fazia visitas anuais à Casa Branca para oferecer e receber gentilezas. O atual Lider Supremo não visita países estrangeiros, muito menos o Grande Satã.

Durante décadas, senhores bem apessoados, rosto escanhoado, usando ternos italianos e gravatas de seda lideraram o Irã. Conversavam em francês e inglês fluentes. Eram criticados por serem autocráticos. Os americanos não os criticavam. “São os nossos autocratas.”

O contrário acontece com os atuais líderes, que usam turbantes e ostentam barbas grisalhas. Ou com seus tecnocratas de barbas aparadas, profundamente descrentes não apenas da política externa norte-americana mas também de muitos aspectos de sua cultura – exceto da tecnologia nuclear.

A mudança foi rápida em quinze meses, entre 1977 e 1979, a monarquia do xá foi substituída pela República Islâmica. Isso levou a uma radical transformação do sistema político, de legitimação do governo, e do conceito de ordem social.

 

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A Revolução Islâmica foi acompanhada de considerável violência, embora não tanto como os revolucionários gostam de proclamar, e teve um impressionante apoio popular. O resultado mais visível foi que um milhão de pessoas deixaram o pais.

Os americanos fitavam hipnotizados as imagens da primeira revolução transmitida pela TV e logo ultrajados pela cobertura diária da crise dos reféns na embaixada dos USA em Teerã, que durou 444 dias.

Desde 1980 os EUA advogam abertamente a mudança de regime e mesmo ataques militares contra o Irã. Os dois países desfrutaram uma breve detente em 2015, quando Barak Obama assinou o acordo nuclear e substituiu o discurso sobre derrubar o regime por apelos para mudança recíproca de atitude.

O interlúdio terminou abruptamente em 2017, com Donald Trump, que denunciou o acordo. A ordem, novamente, é desestabilizar a República Islãmica – e pode ser mais uma das batalhas que os ultraconservadores vão perder, ao lado do Vienã, da Coreia, da antiga Indochina, do Iraque.

Qualquer tentativa de mudar o regime iraniano muito provavelmente levaria ou à guerra ou a mais uma crise continuada, capaz de arrastar os EUA mais fundo em seu envolvimento no Oriente Médio, especialmente no Afganistão, Siria e Libano. A única vantagem dessa crise seria distrair a opinião pública dos sérios problemas internos que a administração
Trump está enfrentando.

 

A New York Review of Books recomenda com entusiasmo esse Iran: A Modern History. Mas cuidado: são 900 páginas em inglês.O autor, Abbas Amanat, é professor de história em Yale e produziu um trabalho que a revista classifica de “majestoso”, comparável à Identidade da França, de Fernand Braudel, ou a História dos Povos Arabes, de Albert Hourani. Aliás, Hourani foi mentor de Amanat, e os dois se identificam na valorização da importância da continuidade e da persistência na história política e social dos povos, que eles consideram uma questão de evolução gradual e não de súbitas mudanças.

 

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P.S. – Camioneiro ou caminhoneiro? As duas formas estão certas. O site Pé na Estrada explica: “A palavra é nova, até porque, caminhões são novos, têm pouco mais de 100 anos. Para nós, a origem está no francês Camion, que foi “aportuguesado” e virou camião. Quem dirige um camião é um camioneiro. Assim é em Portugal até hoje. Vejam os sites das montadoras por lá.”

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