DEFENDENDO GONET

É fácil defender Gonet. Basta comparar sua mentirinha sobre charutos e uísque 18 anos, com, por exemplo, as mentiras cruéis de Bolsonaro, que levaram centenas de milhares de brasileiros a não tomar vacina contra a Covid 19.

E morrer.

O que está na balança da Justiça, então, é isso – uma mentira monstruosa contra uma mentirinha para salvar a imagem?

Do pronto de vista prático, sim. São tantas as mentiras em circulação que uma pequena falta com a verdade é só uma sujeirinha de mosca na biografia.

Assim mesmo, complica o quadro geral.

A dissonância deliberada entre os fatos e as afirmações alimenta uma espécie de podridão que corrói os alicerces epistemológicos e éticos do nosso mundo e das nossas vidas. A frase é do historiador Robert Zaretzky.

Ele dialoga com Hannah Arendt, que escreveu: “A sinceridade nunca foi tida como virtude política, enquanto a mentira foi vista como algo justificável na negociação política”.

Ela também achava que há mentirinhas e mentiras monstruosas, desumanas.

Juscelino Kubischek teve dois enfartes e proibiu a divulgação deles. Um político enfartado é um animal ferido. Os adversários avançarão em alcateia para acabar com ele.

A biografia de Brizola, fantástico trabalho de investigação e análise de Karla Monteiro, revela pecados do líder (inclusive o affair com a filha de um companheiro de partido) que, se fossem parar nos jornais, certamente prejudicariam sua luta política. Foi preciso mentir. Aqui a mentira defendia interesses comuns.

Todos nós temos na vida
Um caso, uma loura
Você, você também tem.

(“Uma loira”, Hervê Cordovil, gravação de Dick Farney)

Uma coisa precisa ficar bem clara, gente: mentir não é para amadores. Exige competência. E memória. E senso da realidade.

Era razoável, inteligente, dizer que nunca teve intimidades com Vorcaro? Não se lembrava Gonet do encontro em Londres, ou achava que Londres é a capital de outra galáxia e ninguém nunca haveria de saber?

Na primeira hipótese, a falta de memória pode ser uma condenação à Casa de Repouso: “Fulano não se lembra do que comeu no almoço”.

A segunda, a má avaliação do risco, é menos grave. Em 2024, Vorcaro ainda não era um personagem muito radioativo. Além disso, “foi um encontro fortuito”.

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P.S. Ilustração da IA do Google

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