
É uma das três maiores sinfônicas do mundo, junto com as orquestras de Viena e Nova York. Há 26 anos não vinha ao Brasil. Trazê-la significou pagar seguros para instrumentos caríssimos, passagem, hotel e alimentação para 150 pessoas, além de mobilizar um aparato de segurança parecido com o de reis e presidentes que nos visitam.
Falando do seguro. Alguns músicos usam violinos, violas e violoncelos fabricados por Stradivarius, Guarneri del Gesu e Guadagnini. A soma do valor deles ultrapassa fácil centenas de milhões de dólares. São transportados em caixas especiais. As apólices são do tipo nail-to-nail (do prego ao prego), significando que o instrumento está segurado desde o minuto em que sai do armário em Berlim até o retorno à casa.
Imaginem a conta.
Os paulistas da Tucca Música pela Cura – entidade dirigida pelo oncologista pediátrico Sidnei Epelman, que atende crianças e adolescentes com câncer – conseguiram realizar essa façanha com o apoio do Banco Safra e outros pesos pesados da alta finança, além de milhares de doadores individuais.
Tudo se materializou nas históricas noites de 18 e 19, domingo e segunda-feira, na Sala São Paulo, com o auditório lotado. Consegui dois assentos no fundão. Ninguém reclama porque a acústica da Sala é perfeita. O som do oboé chega incólume até a última fila.
O resultado do evento não poderia ser melhor: milhões de reais em novos recursos para pagar medicamentos muito caros, alguns não acessíveis através do SUS, e a conquista de novas plateias para a música erudita.
Casais de doadores paulistanos e de cidades do interior – meros milionários em um ambiente de bilionários – fizeram fila para a fotografia antes do concerto de domingo. Um acontecimento desses vai para o álbum da família. E aplaudiram até o silêncio entre os dois primeiros movimentos do Concerto para Piano nº1 de Brahms.
Heresia? Desrespeito à etiqueta? O pianista islandês Vikingur Olafson aplaudiu o aplauso errado. “Sinal de público novo conquistado”.
O professor e crítico Sidnei Molina escreveu na Folha de S. Paulo um elogio ao público, à orquestra e principalmente ao maestro russo Kirill Petrenko. Ele é uma espécie de Pep Guardiola dos diretores musicais: exige dos músicos um apuro técnico difícil de superar. O crítico Molina analisa a qualidade da orquestra nos diálogos entre o piano e a massa de cordas em momentos de extrema leveza – como nas camadas de pianos e pianíssimos propostas pelo islandês.
Encanta também a precisão milimétrica das entradas dos metais na execução de Assim Falou Zaratrusta, de Strauss (a introdução O Nascer do Sol é lembrada por todos que assistiram a 2001-Uma Odisseia no Espaço, de Kubrik).
Ao final, um público entusiasmado aplaudindo de pé e depois correndo para a fila do taxi, no pátio interno da Sala São Paulo. Xispa pra casa. A região dos Campos Elísios não é exatamente a mais bem frequentada da cidade.
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