…e surge o futebol no Paraná. (Só sei porque o Helênico contou em seu livro)

Há duas maneiras de entender a história do Coritiba Foot Ball Club. Uma é mergulhar em documentos do começo do século, com o registro das reuniões dos associados, dos jogos e promoções sociais e das obras que resultaram na construção dos estádios do clube. Outra é consultar “A História do Futebol Paranaense”, do professor Francisco Genaro Cardoso, um livraço de 450 páginas publicado pela Editora Grafipar em 1978.

As duas abordagens são boas, mas a segunda é mais interessante. Página após página a vida dos clubes é desenhada com muito respeito aos fatos dentro do contexto do futebol daquele tempo, que era um futebol desrespeitoso, de dirigentes claudicantes, árbitros meio desonestos, campeonatos meio desorganizados.

Não foi fácil publicar o livro, trazê-lo a lume, como se dizia na época. Vinicius Coelho conta que durante meses Cardoso, originais debaixo do braço, perambulou de editor em editor, pediu ajuda oficial, conversou com empresários e presidentes de clubes. Nada, até que apareceu o mecenas Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro, dono do Tabelionato Motta, decidido a fazer uma grande administração na Federação Paranaense de Futebol, e mandou imprimir o calhamaço.

O acadêmico Valfrido Piloto, 1,94 de altura, outro apaixonado pelo esporte, analisa o livro, que é um presente para os historiadores do futebol, e garante que a parte mais importante dele não é a impressa – são os arquivos que Genaro Cardoso organizou durante décadas e que continuam aí, bem guardados. Tornaram-se porto seguro para dirimir dúvidas sobre a prática do velho e rude esporte bretão no Paraná. “Ele conhece, garante e prova tudo”, assegura Piloto, que também era delegado de polícia e entendia de provas.

Francisco Genaro Cardoso era o “Helênico” das colunas da Gazeta do Povo Esportiva, onde foi secretário e editor. E é o Helênico inspirador do grupo de pesquisadores que mantêm atualizada a história do clube mais antigo do Paraná.

Não é exagero dizer que ele moldou a forma de pensar o esporte da geração que saiu das universidades durante o Estado Novo e que viveu a idade de ouro do rádio. Formado em Direito na turma de 1937 da Universidade do Paraná (que só seria federalizada em 1951) tinha colegas ilustres. Um deles, o desembargador Henrique Nogueira Dorfmund, foi presidente do Tribunal de Justiça onde atuavam Alceste Ribas de Macedo, Eurico Pereira de Macedo e Heliantho Camargo.

Outro colega de peso era José Muggiati Sobrinho, que Piloto chama de Pajé do Futebol Indígena. Da pajelança de Muggiati nasceu não só a Gazeta do Povo Esportiva como o Paraná Esportivo, cuja coleção é uma das poucas fontes à disposição do público digital. O jornal foi escaneado página por página pela Biblioteca Nacional e pode ser consultado em memoria.bn.gov.br.

Vale a pena conhecer o outro lado do professor Genaro Cardoso, atuante no magistério. Lecionou Português e Literatura Portuguesa no Colegio Estadual do Paraná, na Escola Tecnica de Comércio que funcionava no prédio da Universidade, entrada pela rua Presidente Faria. Aceitou o convide de professor Alfredo Parodi e de Dona Isabel e tornou-se orientador da cadeira de Português do Colégio Iguassu – assim mesmo, com dois ss – durante mais de trinta anos. Foi ainda Inspetor Federal de Ensino e durante muitos anos presidente do Sindicato dos Professores do Paraná.

Era um lider, tanto que, naquele horror do golpe de 1964, mandaram um tenente prendê-lo. Parece que era coordenador de uma treta subversiva chamada PUA, nome ameaçador do Pacto de Unidade e Ação que unia os sindicatos dos professores, jornalistas e bancários, gente de paz, desarmada. Em caso de greve, um ajudaria o outro. O tenente não acreditou que fosse só isso e levou-o para o cárcere improvisado no quartel da Polícia do Exército, na praça Rui Barbosa, no dia 3 de abril de 1964. Seria talvez encaminhado aos porões da ditadura, mas seus amigos, tendo à frente Valfrido Piloto, intercederam a tempo.

Francisco Genaro Cardoso deixou a militância sindical e voltou para os arquivos. Identificou personagens que apareciam em fotos emboloradas, mostrou o contexto de velhos relatórios cobertos de ácaros, achou fichas de atletas abandonadas em algum sótão. O que há de registro sobre o futebol dos anos 1920, 1930 é em grande parte devido a ele e a seu grupo de arqueólogos da história.

E há também o relato meticuloso de episódios envolvendo jogadores, cartolas, técnicos e todo o mundo do futebol. No campeonato de 1971, por exemplo, a Polícia Federal aprendeu, em Foz do Iguaçu, uma Kombi que transportava mercadorias não registradas, algumas dentro de malas. Abertas as malas apareceram comprimidos do psicotrópico Prelundim. O casal dono da Kombi assustado entregou o destinatário da droga. “Tem 900 comprimidos para o União Bandeirantes, adquiridos a pedido do médico do clube”. O médico era um certo doutor Lisboa, o Lilão, funcionário há 15 anos da família Meneghel, proprietária da Usina de Açúcar União e praticamente dona do clube de futebol Bandeirantes.

Escândalo. Manchetes nos jornais, bate-boca nas rádios. No fim não deu em nada. Ninguém conseguiu ou teve interesse em provar a ligação entre o clube e os Meneghel. E logo apareceu um documento dizendo que Lilão não era mais médico do Bandeirantes. Tem mais detalhes na “História do Futebol do Paraná”.

“Helênico nasceu com o futebol nas veias”, garantia Albenir Amatuzzi, editor de esportes do Estado do Paraná e da Tribuna do Paraná, e uma espécie de sobrinho torto de Rei, craque do Coritiba, do Vasco da Gama e da Seleção Brasileiro, de quem vai se falar adiante.

.

(Trecho de Coxa – Desde que a Bola é Bola, livro em construção)

.

Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *