
Na foto, Inar Rodrigues Carvalho está no pandeiro, Guarani Nogueira, o homem que ajudou a inventar a batida da bossa nova, no bongô. o trumpeter é Osval, os saxes Nascimento e Reinaldo. (Foto do arquivo de Silvio Carvalho)
A música faz amigos.
Meu amigo musical mais recente é o Silvio Carvalho, cliente do Edson do Grimm Haus Sebo e Livraria, ali na Rua Mauá.
Silvio anda a investigar a carreira do avô Inar Rodrigues Carvalho, percussionista das orquestras que animavam os bailes do Curitibano, Círculo Militar e Sociedade Thalia nas décadas de 1940/50, entre elas a Colúmbia e a Banda do Osval.
Quer saber se o avô tocou com Xavier Cugat na excursão que o maestro fez ao Brasil em 1949, patrocinada pelo Departamento de Estado nos bons tempos da política da boa vizinhança – agora voltamos ao tempo do Big Stick.
Falemos de Cugat, um espanhol criado e educado musicalmente em Havana no tempo do ditador Fulgêncio Batista, que não imaginava ser tão popular entre os curitibanos. É que ele não era apenas ele, era a imagem de Esther Willians, a exuberante atriz de “Escola de Sereias” (Bathing Beauty, 1944), filme da Metro Goldwyn Mayer que praticamente inaugurou a era dos grandes musicais. Esther foi a primeira gostosa que vi em tecnicolor. Todos nós, garotos, assistimos ao filme e concordamos: “Que coxas!”
O Cine Opera tinha 1.600 lugares, faltou lugar. No dia seguinte, Cugat tocou na Sociedade Thalia, os convites foram disputados a tapa. Para fazer o “esquenta” dos shows, os promotores chamaram a Orquestra Colúmbia, com os craques da época, entre eles provavelmente o Inar Rodrigues Carvalho.
Interessante é registrar a perenidade das músicas que compunham o repertório de Cugat. Minha preferida é “Perfídia”. O eterno bolero foi composto pelo mexicano Alberto Dominguez em 1939, levou oito anos até que o Trio Los Panchos se interessasse por ele. E nunca mais saiu das paradas. A gravação definitiva, de 17 de fevereiro de 1947, foi feita no célebre estúdio da Columbia na 7ª. Avenida, 799, entre as ruas 50 e 51, em Manhattan. Descubro que o prédio foi demolido em 1983 para dar lugar a um desses monstrengos de vidro e aço da Era Trump.
E por que “Perfídia” é perene? Porque nos reencontramos o tempo todo com suas harmonias. Agora, em 2026, ela é também nome da personagem que contracena com Leonardo DiCaprio, o Bob Ferguson de “Uma Batalha Após a Outra”, filme que ganhou seis Oscars. No final, quando rolam os créditos, ouvimos “Perfídia” na gravação original do Trio Los Panchos para a Columbia Records.
Atenção para o detalhe crucial: Los Panchos não era bem um grupo de mexicanos. A voz que deu balanço e identidade àquela gravação é de um boliviano, Raul Shaw Moreno. Apenas com ele o trio soou suficientemente bom para os ouvidos do maestro argentino Terig Tucci, que dirigiu a gravação que entrou no filme.
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P.S. – Mais sobre Cugat e os incríveis músicos curitibanos em “Curitiba no Tempo do Jazz Band”, que saiu em 2019, foi vitima da pandemia, mas está voltando a interessar os leitores.
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