
Vivo em Curitiba e não nos EUA ou Europa, e sou feliz.
Aqui tudo chega atrasado.
A própria secretaria de turismo está atrasada em colocar no Aeroporto Internacional Afonso Pena esse anúncio: Curitiba, a Capital Mundial do Delay.
A luz elétrica chegou em Nova York, Londres e Paris em 1882. Aqui, dez anos depois. Quer dizer: tivemos mais dez anos para serenatas ao luar e a poesia do lampião de gás.
A cloração de água em larga escala começou na virada do século passado em Nova York e na Europa. Aqui, a primeira estação de água tratada, a ETA Tarumã, é de 1945.
O primeiro automóvel rodou em Paris em 1887. Aqui, só em 1903 – um carro francês, trazido pelo Francisco Fido Fontana.
O neoliberalismo é de 1970/80 (Reagan, Thatcher). Aqui, em 1996, parceria Fernando Henrique/Jaime Lerner.
Frank Sinatra estourou nos EUA em 1942 com show no Paramount Theatre, em Nova York. Ao Brasil, só chegou em 1980 quando cantou para 150 mil pessoas no Maracanã.
Aqui, nada.
O primeiro metrô foi inaugurado em Londres em 1863. Curitiba desfruta de um magnífico delay de 163 anos. Depois vieram todos os outros subterrâneos na Europa, na América do Norte, na Africa – até em Pyongyang, Coreia do Norte, onde os comunistas construíram linhas 110 metros abaixo da rua. Isso enseja outro anúncio que a secretaria de turismo deve colocar no Aeroporto: “Você chegou a Curitiba, única capital do mundo que não tem metrô”.
O TGV, Trem de Alta Velocidade, roda na Europa desde 1981. Perguntei à Inteligência quando vai chegar a Curitiba. Ela respondeu com a sinceridade dos algorítmos: “O transporte aéreo e rodoviário continuam sendo as únicas opções disponíveis por tempo indeterminado”.
Então, as aéreas metem a faca e o jeito é viajar de ônibus. A Cometa com muito senso de humor garante que ninguém vai sentir a diferença: “Nosso ônibus é um verdadeiro avião”, diz o anúncio.
Sou feliz porque, graças ao delay, aqui não tem superaquecimento, seca, Trump, heatstroke, ingresso de futebol a dois mil dólares, pausa no teatro para os atores se hidratarem. E nunca ninguém foi empurrado para morrer nos trilhos do subway como vive acontecendo em Nova York. Não há polícia de imigração, os venezuelanos são bem-vindos, os cubanos são bem-vindos, as portas estão abertas.
Recentemente descobri outro motivo para ser feliz. É que aqui, apenas aqui, vive-se em permanente afternessless, um barato absolutamente Leminski, leve, alternativo – uma Era Dourada que o vivente não precisa viver para desfrutar.
A fruição do delay é privilégio de curitibano que curte gol pela CazéTV.
Quando não tem Copa, a gente vai que vai para a praça Eufrásio Correia desfrutar o maior delay do mundo – esperar a chegada do TGV.
Também vou prá lá. Só essa garoa passar.
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