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A Universidade de Washington fez uma projeção indicando que mais 100 mil brasileiros podem morrer antes de agosto, possivelmente colocando o país à frente dos EUA como o lugar onde a doença produziu mais vítimas. O Guardian chama o governo Bolsonaro de “confuso” e “disfuncional”.
O presidente faz o que o primeiro ministro Boris Johnson tentou fazer na Inglaterra – deixar o povo na rua para que adquirisse “imunidade de rebanho”, situação em que morre muita gente mas os sobreviventes ficam imunes à doença. O Imperial College apresentou uma estimativa de quantos ingleses iam morrer e Johnson desistiu do plano macabro. Aqui, Bolsonaro continua incentivando a volta ao trabalho.
O paralelo entre o que acontece agora e a Gripe Espanhola é inevitável. Em 1918 as estatísticas eram pobres mas estima-se que morreram entre 35.000 e 100.000 pessoas. Claudio Bertolli Filho, autor de livro sobre a pandemia de 1918 conta que os líderes da época não deram importância à gripe que começava a matar gente – igualzinho ao Bolsonaro. Mas não tentaram, como o Ministério da Saúde tentou agora, manipular os números.
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Imagine um imenso naufrágio. Entre os escombros, boia uma garrafa. Dentro dela a rota para uma ilha onde há água fresca da fonte, fruta-pão e sol.
Agora corte para a maltratada cidade de Havana na virada do milênio. De uma viela surgem “habaneros” famintos de dólares. “Puros? Chicas? PPG?” – sussurram no ouvido do turista.
Novo corte. Paisagem da pandemia do coronavirus. Das sombras emergem famílias divididas pelo Fla-Flu da baixa política, burocratas exibindo curvas de contaminação e casais a procura de advogado: descobriram no confinamento o quanto são inviáveis.
Pensei nesse roteiro de rotas e remédios para a pós-pandemia ao ler velha crônica do jornalista Nei Sroulevich em homenagem a Antonio Carlos Valente – meu primo empresário do setor turístico que inventou as Rotas da Reconciliação e foi dos primeiros a reconhecer os poderes do PPG vendido em Cuba.
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Antes de prosseguir, devo explicar que os dois, o Sroulevich, morto prematuramente em 2004, e o Valente, vivíssimo em seu isolamento no Rio de Janeiro, são essenciais para o momento que o Brasil vive.
Nei Sroulevich, jornalista e produtor de cinema no exílio, membro do Partidão e diretor da revista Manchete em Paris dos anos 1960. Um cara que parecia conhecer todo mundo e ajudava quem precisava. (O futuro diretor Cacá Diegues, estudante de cinema sem dinheiro, dormia clandestinamente no quarto dele no Hotel du Levant, no Quartier Latin. No chão, enrolado no edredon e no lençol extra).
Nei e outros refugiados ilustres (Fernando Henrique Cardoso, Darcy Ribeiro, Max da Costa Santos, Violeta Arraes, irmã de Miguel Arraes, Luiz Felipe Alencastro) se encontravam em certo restaurante do Marais para jantar e dividir um vinho. Por que a comida era sensacional? Não, porque era barata.
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Ao voltar, em 1974, dedicou muita energia ao Cinema Novo, onde sobravam projetos brilhantes e faltava dinheiro até para alugar uma câmera Arriflex de segunda mão e algumas horas de edição na moviola da produtora Lider.
Sroulevich foi o perfeito middleman, o cara que faz acontecer, o meio de campo capaz de sentar na frente do grande banqueiro – digamos José Luiz Magalhães Lins, o chefão do Banco Nacional de Minas Gerais – e convencê-lo das vantagens de financiar a juros de amigo a produção de A Queda (Rui Guerra, 1978), Getulio Vargas (Ana Carolina, 1974), Um Homem Célebre (Miguel Faria Jr, 1974) e Se Segura Malandro (Hugo Carvana, 1978). E de convencer Pierre Cardin a copatrocinar Joanna Francesa (1973), com Jeanne Moreau, direção de Cacá Diegues, música de Chico Buarque de Holanda e Roberto Menescal.
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Um dia, Nei se encontra com o empresário de turismo Antonio Carlos Valente e admira a nonchalance com que este fuma seu Cohiba Lancero (R$6,5 mil a caixa) e prescreve PPG aos que tentam baixar o colesterol e elevar a atividade sexual. O que impressiona no novo amigo é seu bem sucedido projeto das Rotas de Reconciliação, desenhadas sob medida – uma viagem inesquecível para cada casal à beira da separação.
Toninho é um harmonizador. Reaproxima os que se afastaram pela política. Viaja muito. De cada país traz uma experiência boa para ensinar. Viajar coloca as coisas em perspectiva. Nei pensa diferente: vê o mundo dominado pelos fazedores de guerra. “Querem nos suicidar”, adverte, invocando o embaixador Jório Dauster, maravilhoso papo, tradutor de J.D. Salinger e Nabokov.
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A Rota da Reconciliação não é remédio apenas para casais em crise. É uma poderosa metáfora da vida. Vale para grupos sociais, organizações políticas, para os que temem a Deus e para os que debocham da ciência; para os suicidas, para os que se vestem no Harrods, os veganos, os ensandecidos, bem como para os torcedores do Combate Barreirinha.
Imagino que para todos o Turismo Valente, passada a peste, será capaz de inventar rotas, sentidos para a vida, até refazer elos rompidos.
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O recado de Nei e Toninho é simples. Primeiro, é preciso entender esse terror. Uma tragédia cujos atores são o vírus mortífero, o empresário cúpido e o governo cúmplice. Segundo, reconhecer que a catástrofe sanitária, social e econômica vai destruir nosso modo de vida. Se um novo mundo for construído com sabedoria teremos a libertação do homem da idade do ouro que, segundo Octávio Paz, dorme em cada um de nós e só espera um sinal para despertar – o sinal do amor.
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P.S. – O site da Rádio Havana informa:
A partir de setembro, o medicamento cubano PPG – Policonasol será fabricado no Japão com matéria-prima procedente de Cuba. O remédio é utilizado para tratar doenças cerebrovasculares isquêmicas.
O produto tem como base a cera da cana-de-açúcar. Diminui o índice de colesterol ruim e tem um efeito antiagregante plaquetário e antioxidante. Além disso, é um suplemento que melhora a qualidade de vida dos idosos.
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Em 19 de fevereiro, a ação ordinária da Petrobrás (PETR3) valia 32,57 reais.
No dia 18 de março, com a pandemia, a PETR3 desabou para 11,05 reais.
Agora se recupera: subiu para 19,29 na manhã de hoje, 8 de maio.
Será que volta para os 32 ou o mundo nunca será o mesmo depois do Covid-19?
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Que voar é (era?) elegante ninguém discute.
Que a cor cinza é elegante ninguém duvida.
E ninguém questiona que o curitibano dos anos 1950 era um cara alinhado. Para marcar sua imagem, vestia cinza clássico, terno cortado no Paulo Japonês.
Usava paletó dois botões, sapato de cadarço e meias pretas, no bolso do paletó lenço azul marinho de poá. E gravata de jacquard preta sobre aquela camisa azul acinzentado, comprada em Roma,mas não em qualquer lojinha de Roma, na Via Condotti. Discretamente permitia que as pessoas soubessem de sua passagem pelo Caffé Grecco onde confirmara a soberba qualidade do cannolo siciliano. Era esnobe, um bestalhão? Não, apenas um curitibano tentando vencer no mundo.
Por isso, voava, ao contrário dos mais velhos, que preferiam cruzeiros em navios de luxo. Ou do Janio Quadros, que viajava na cabina de um cargueiro italiano.
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Curitiba sempre foi cinza e elegante. Muita gente daqui conhecia o sabor inigualável do cannolo do Caffé Grecco. Capital mais acromática do Brasil, disputava a liderança mundial da categoria com Edimburgo e Boston. Em cidades como a nossa, jamais alguém foi sensorialmente agredido por um por do sol vermelho amaranto, tipo Caribe; muito menos pelo amarelo intenso de certa lua cheia. Os stratus nos protegeram dessa beleza viciante. E foram responsáveis pela palidez sensual de belas moças de saia plissada. Stratus e também nimbustratus defenderam o curitibano do carcinoma basocelular, filtraram a luz e salpicaram de garoa as rosas verdes que Emiliano Perneta plantava na rua Aquidaban. Até hoje, quando cai a tarde, as pedras da São Francisco cintilam na neblina como o olho azul da poeta Helena Kolody, um brilho tão bonito que toda a tristeza se evanesce.
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Voar – é preciso insistir – era chic. Gente bonita, mala de grife, brinde de boas vindas com champanhe. Menos na noite cinza chumbo de Curitiba, a chuva e o vento, quando o ronco rouco do Douglas DC3 avisou que tentaria o impossível – aterrissar no Afonso Pena naquelas condições. Esse Douglas DC-3 foi o burro de carga da aviação comercial brasileira. Dez milhões transportou de um campo de aviação a outro, pista de cascalho, de grama, de lama, óleo pingando do cárter, rolo de arame para reforçar a porta que teimava de abrir em pleno voo. O avião do curitibano de terno cinza, com 21 passageiros a bordo, era da Transportes Aéreos Limitada – TAL, fundada em 1947 que logo teve seu nome mudado para TAC, Transportes Aéreos Catarinenses. Porque não era a tal.
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No meio da cerração o milagre: o piloto viu as luzinhas e as faixas brancas largas e paralelas – a cabeceira da pista! Com muita convicção gingou prá cá, gingou prá lá, foi perdendo altitude e tocou o solo. Horas depois, no quentinho do apartamento do Hotel Mariluz, chorava como criança entre os seios da aeromoça.
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Os Estados Unidos guardam em suas prisões 2,3 milhões de pessoas. O confinamento em massa gerou manifestações artísticas.
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O blog da New York Review of Books conta o que aconteceu com o projeto Marking Time: Art in the Age of Mass Incarceration (Contando o tempo: Arte na Era do Encarceramento em Massa), do Museu de Arte Moderna de NYC: a pandemia do COVID-19 colocou em prisão domiciliar a população e os curadores da mostra, transferida para o segundo semestre.
A autora Nicole Fleetwood é professora de Estudos Americanos e História da Arte na Universidade Rutgers. Seu livro nasceu como pesquisa acadêmica sobre o encarceramento em massa nos Estados Unidos. Um trabalho de nove anos que resultou em depoimentos, fotos, desenhos e aquarelas, além de relatos como a vergonha e a dificuldade de falar sobre as experiências prisionais em público.
Foi um jeito, ela explica, de lidar com a tristeza de ver tantos parentes,vizinhos e amigos de infância confinados em prisões por anos, muitos pela vida inteira.
A cidade em que Nicole cresceu dependia de tecelagens que ofereciam empregos aos trabalhadores da baixa classe média negra. Crises fecharam as fábricas e inviabilizaram os sindicatos. Nas décadas de 1980 e início de 1990, ela testemunhou jovens negros, e também mulheres e homens idosos, sendo embarcados para a prisão com tanta frequência que tornou-se corriqueiro o súbito desaparecimento e a longa ausência deles.
O livro e a exposição postergada devido ao Covid-19 denunciam o que a autora chama de Estado-Carcereiro, que nasceu da necessidade de esmagar os movimentos radicais dos anos 1960 e 1970, da Guerra às Drogas, das consequências adversas da Guerra à Pobreza, Guerra ao Terror, desindustrialização, políticas neoliberais, educação pública segregadora e punitiva, políticas de austeridade e permanente discriminação contra não-brancos, gays e outros grupos.
Uma iconografia nasceu da violência contra esses grupos minoritários. Posters de “Procura-se”, imagens de negros algemados, revistados, subjugados, fotos de identificação policial (mug shots) frequentavam os tabloides locais e nacionais e fortaleciam a imagem do “negro perigoso”, ladrão, assassino ou traficante de crack. Esse material foi reprocessado nas celas sob a ótica do encarcerado.
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Texto completo (em inglês) aqui
Do Brasil para o mundo. (Foto Agencia Brasil)
Donald G. McNeil Jr. é o autor de um texto prospectivo sobre os caminhos que o Covid-19 deve seguir daqui para frente. Ele aponta o Brasil e a India como os países que garantirão a produção das vacinas para estancar a pandemia. O artigo está na manchete da edição digital do New York Times de ontem, dia 18 de abril.
Por que foi parar em posição tão destacada?
Provavelmente porque Donald G. McNeil Jr. é um craque do jornalismo científico. Alguém capaz de interpretar os dados incompletos e às vezes discutíveis fornecidos pelos serviços de saúde dos países afetados pela pandemia. Um veterano que lida há 40 anos com ciência e saúde, especializando-se em epidemias e pestilências. Ele cobre doenças que dizimam os países pobres, entre elas AIDS, Ebola, malária, gripes suína e aviaria, doença da vaca louca e SARS.
Agora McNeil avalia os cenários que os cientistas estão construindo e, a partir da opinião dos mais qualificados, conclui: 1) a única atitude razoável neste momento é o isolamento; 2) a saída definitiva só virá com a vacina.
É necessário no mínimo quatro anos para se chegar a uma vacina efetiva, se respeitados os protocolos científicos. Graças aos modernos recursos da biotecnologia, com o uso de plataformas RNA ou DNA é possível desenvolver vacinas menos tempo, entre 12 e 18 meses.
Mas não basta ter a vacina, é preciso testá-la, o que significa mais um ano de trabalho. Encurtar esse prazo só através de um processo doloroso que exige o sacrifício de certo número de voluntários. Eles receberão uma vacina ainda insegura, na fase 2 de testes, e em seguida serão inoculados com o Covid-19. Se resistirem é porque a vacina funciona.
É um procedimento altamente discutível. Perder vidas humanas para testar vacinas, isso é ético? Pressionadas pelo número de contaminações, pelo sistema de saúde em colapso e pelos cadáveres que se acumulam em caminhões frigoríficos transformados em necrotérios móveis, as autoridades provavelmente acharão que sim. A salvação de muitos justifica a morte de alguns.
Obtida a vacina, surgirá o problema industrial. Todo o mundo vai querer. Só nos Estados Unidos serão 300 milhões de unidades ou 600 milhões, caso sejam necessárias duas doses, além de 300 milhões de seringas. Os grandes laboratórios da China e Europa estarão voltados para o atendimento das necessidades nacionais.
Os outros países que têm indústrias capazes de produzir vacinas em grande quantidade, escreve McNeil, são India e Brasil. E segue avaliando o que pode ocorrer entre brasileiros e indianos: “Se o vírus mover-se rapidamente entre suas grandes populações, eles poderão perder milhões de cidadãos mas alcançar extensa “imunidade de rebanho” – aquela situação em que os sobreviventes adquirem anticorpos e ficam livres da doença – muito antes disso acontecer nos Estados Unidos. Nesse caso, haverá capacidade ociosa para produzir as vacinas que os EUA necessitam.”
É um cenário cruel para nós. Mas pode explicar a insanidade do “vem pra rua”, a defesa irada do direito de ir e vir. Não se trata mais de manifestação de falta de juízo. Trata-se de um estímulo “ético” à contaminação dos brasileiros pelo bem da humanidade. Ao aumentar em algumas dezenas de milhares o número de vítimas do vírus, a maior parte possivelmente entre os mais pobres e com menos acesso às facilidades médicas, o Brasil alcançará mais depressa a “imunidade de rebanho”.
Poderá voltar ao trabalho, fabricar vacinas para o mundo e talvez até salvar o PIB.
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Com a saida de Bernie Sanders da corrida pela presidência, a democracia sofre uma derrota. (Foto do arquivo UG)
Por Elizabeth Bruenig (*) , do NYT
Bernie Sanders encerrou sua campanha pela indicação a candidato à presidência, o que é uma tragédia, porque ele estava certo sobre virtualmente tudo.
Estava certo desde o início, quando defendeu a completa remodelação do sistema de saúde americano, nos anos 1970. Continua certo agora, quando a pandemia ressalta a falta de recursos médicos para milhões de cidadãos ameaçados de morte. Estava certo quando parecia ser o único alarmista em um ambiente de complacência política.
Está certo agora, quando é o único político que não parece surpreso ao ver a indústria farmacêutica lucrando com uma praga letal, com ajuda do Congresso. Em política, como na vida, estar certo não é necessariamente recompensado. Mas pelo menos há alguma dignidade nisso. Continue lendo
Conselho ao Negro Humilla, que andava descuidado com o treinamento. (Em “Tia Julia e o Escrevinhador”, de Mario Vargas Llosa.)
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A primeira pessoa que chegou na redação do Diario do Paraná na tarde de 20 de fevereiro de 1962 foi o critico Eduardo Virmmond. Antes da uma ele terminou de escrever uma nota sobre a peça que ia estreiar no Guairinha e pediu espaço para a primeira crítica que entregaria no fim da noite. Trocou uma ideia com Silvio Back sobre o filme “Pagador de Promessas”, que Anselmo Duarte estava concluindo e correu ao escritório de advocacia.
O secretário de redação Airton Baptista iniciou a rotina das tardes pelo futebol. Cobrava informação sobre o Coritiba, em Porto Alegre para jogar com o Grêmio. Chegaram ao “aquário” Luiz Renato Ribas e o diagramador Arno Voigt. Pediam mais espaço para o turfe, ia ter grande prêmio. Repórteres da geral corriam para completar informaçôes sobre o ano escolar que começava na outra semana e sobre as vítimas de grave acidente na estrada de Joinvile que chegavam ao Pronto Socorro do Cajuru.
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Mas, por mais que os repórteres suassem pela melhor notícia, o trabalho estava condenado ao quase anonimato das páginas internas ou do segundo caderno. A primeira página dos matutinos dos Diarios Associados destinava-se a grandes temas nacionais ou internacionais que chegavam pelos teletipos.(*) Os editores que chegariam mais tarde para fechar o jornal valorizavam coisa séria, “de peso”, do gosto do senador Assis Chateaubriand. Chatô dizia o que era importante e o que não era. Só ele. Se alguém quisesse dar ordem no lugar dele – avisava aos interessados – devia primeiro assumir a folha de pagamento da empresa.
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Naquele dia 20 de fevereiro a manchete seria “John Glenn poderá ser lançado hoje ao espaço: tempo melhorou”. Algum novato na redação poderia questionar aquele “poderá”. Tirava a força da notícia. Pra que? Mordaz, o Roberto Novais gritaria para o editor Ortiz: “Para tudo ai, Julio, parece que o nosso novo colega tem manchete melhor!”
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Numa sala ao lado da fotografia teletipos não paravam de bater noticias da United Press e da Reuters, além do material da Agência Meridional, dos Diários Associados. Na outra saleta a máquina de telefoto aguardava uma imagem do Senado ou da Presidência da República. Se a imagem do presidente João Goulart viesse borrada, o que acontecia com certa frequência, não havia problema. Era só pedir para o Monteiro escolher outra no arquivo.
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A capa daquela terça-feira apresentava outros títulos respeitáveis: “EUA pede apoio da OTAN para boicote a Cuba” , “Desaparecido avião da Colômbia”, “Retorno de Jânio ao Brasil”, “Mensagem de Jango a Kruschev”, “Principe do Japão vem ao Paraná”, “Arinos justifica abstenção no caso de Angola”, “Bloco comunista manobra para condenar EUA por agressão a Cuba”, “Socialistas não integrarão o governo italiano”, “Caças soviéticos interferem no corredor aéreo de Berlin”, “Reinício das explosões nucleares dos EUA”.
No pé da página uma foto mostrava um carro de boi passando pelo aeroporto recém-inaugurado na capital do Laos. O título da foto da UPI era: “Antigo e moderno”.
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O grave, o indesculpável é que lá dentro, em apenas duas colunas, estava o grande assunto do dia: o deputado Pedro Liberti, do PTB, tinha tentado matar o colega Julio Jacob. Contido por outros deputados e por seguranças, guardou o 38 no coldre, mas anunciou: “Eu havia me regenerado, mas agora vou ter que matar mais um!” Não perdoava Jacob, que invadira a área eleitoral dele em Jaguapitã.
A reação destemperada, além da política, estimulava a investigação sobre a maneira como o sistema eleitoral, de voto proporcional, tinha sofrido mutações patológicas, regredindo ao tempo da República Velha, ao distrito do Império. A indignação de Pedro Liberti revelava que boa parte do Paraná pertencia a coronéis. O voto de cabresto não fora extinto.
A reportagem não foi escrita. Não haveria ordem para publicá-la sem que alguém, como sugeria Chatô, assumisse a folha de pagamento.
Aquela primeira página cheia de notícias internacionais e de siglas condenou o Diario a mais uma derrota na disputa pelo leitor real, aquele da banca de jornal. Ao lado, na capa da Ultima Hora, Pedro Liberti, de olho rútilo e ar feroz, avisava em letras gigantes: “VOU TER QUE MATAR MAIS UM!”.
A UH esgotou cedo.
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(*) Havia exceções. O casamento da filha do professor David Carneiro, por exemplo, foi generosamente noticiado na primeira página. Talvez pelo fato de um dos padrinhos ser o diplomata Gilberto Chateaubriand, filho do doutor Assis.