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SOBRE A RÁDIO DA BOCA MALDITA E A “CONSPIRAÇÃO DOS NOTÓRIOS”

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Está na rede nova edição do Jornal Laboratório Marco Zero, da Uninter. A matéria de capa, assinada pela aluna Patrícia Lourenço, é sobre uma rádio comunitária na Boca Maldita, no centro de Curitiba, que recebeu licença do Ministério da Comunicação, mas nunca foi ao ar. Um horror.

A matéria dá a entender que a rádio não funcionou porque “oito notórios senhores” calaram um espaço democrático, impediram que a comunidade do centro da cidade tivesse voz.

Não sou notório mas me achei entre os oito citados. Assusta a gravidade da conspiração denunciada pela estudante. “A  Rádio da Boca, além de não ter voz, silenciou todas as possibilidades do centro da cidade ter uma rádio comunitária ativa tocada por outras instituições. “

Daqui do Juvevê, bairro que tem sua voz no valoroso Jornal do Juvevê (e que não impede a existência de outras vozes), tento me solidarizar com a indignação da futura colega mas não consigo. A história do “espaço democrático calado” não é real.

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Um parêntese para contar a saga de Julio Eduardo Gineste, um ex cocheiro de Paris, que em 1878 ganhou a concessão da linha de diligências entre Curitiba e Ponta Grossa. Cada diligência levava seis pessoas. O tempo de viagem era de três dias, mas ele ganhava seu dinheiro.

Dezoito anos depois, em 1896, chegou a Ponta Grossa o primeiro trem de passageiros e o tempo de viagem caiu para três horas.

Tchau, diligências. O negócio do Julio Eduardo Gineste virou pó.

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Acho que isso ocorreu com a Sociedade Civil Boca Maldita. A ideia da rádio surgiu no tempo da ditadura, provavelmente no governo Figueiredo. Vieram as Diretas Já, veio Tancredo, veio Sarney, veio a Constituição Cidadã, veio Collor. O pedido só foi atendido quando Lula era presidente.

Aí, inebriada de tanta democracia, Curitiba era só felicidade, do Bar do Leleco ao Ile de France. Nenhuma voz silenciada, nem a dos bêbados do Bar Bebedouro, nem a dos pornógrafos do teatro da meia-noite, nem a dos chatos que invadiam a Livraria do Chaim nas manhãs de sábado. Rádio prá quê?

Havia uma overdose de comunicação.

Curitiba hospedava, em 2003, doze estações de rádio, cada qual com seu nicho de público. Transmitiam em FM, ondas curtas e médias, e tinham seus sites. Havia ainda rádios em São José dos Pinhais, Colombo, Araucária e Campo Largo, que falavam para a capital.

O interesse do público estava também no UOL, Universo Online, no ar desde 1996, com serviços de bate papo, edição diária da Folha de São Paulo, notícias do New York Times, Notícias Populares, revista Isto É. Mais O Estado de S. Paulo, Veja, Globo, a Rede Bandeirantes.

E nas as redes internacionais. O serviço de internet da BBC nasceu em 1994. A tragédia da princesa Diana, seu amor impossível pelo Dodi, a morte chocante foi acompanhada por 2,5 bilhões, entre eles muitos curitibanos que madrugaram no computador, pulando da BBC para o Daily Mail, para o Times, para o Le Monde.

Naquele momento, ganhar uma concessão de rádio era uma furada tão grande quando operar uma linha de diligências para Ponta Grossa na véspera do trem de passageiros.

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P.S. – Um pleito aos futuros jornalistas: estudem sociologia. Saibam que não há comunidade, nem identidade, muito menos fraternidade em regiões absolutamente heterogêneas, como o centro de grandes cidades. Descubram que o curitibano vai à Boca para destilar rancores, desejar a mulher do próximo, achar um adversário político ou esportivo. Daí o nome Boca Maldita. Aqui está combinado: ninguém fala bem de ninguém.

Mas o café é bom.

 

Posted on 9th julho 2021 in Sem categoria  •  No comments yet

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