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Sem Algaci Tulio e sem o Diario do Paraná ia ser difícil resolver o Caso Marinês

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gghhhh

Craque do microfone e da Olivetti.

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Convém avisar que as próximas linhas estão eivadas de parcialidade e espírito de corpo. Foram escritas para louvar o jornalismo paranaense, especialmente o que se fazia do tempo da Ultima Hora, edição do Paraná. Nosso jornal heroico e breve começou a funcionar em 1958 e foi fechado em 1965, depois do golpe. Com o fechamento da UH paranaense e o enquadramento da redação quase inteira no Código Penal Militar, sobrou o quê? O editorial cheio de platitudes sobre o paranismo, a coluna social com a foto da Garota Caiobá e a reportagem policial.

Por algum motivo ainda por ser revelado, em todas as redações da cidade a parte dos fundos era resevada à editoria de polícia. Um território de craques da Rolleiflex e paladinos da Olivetti, gente que fumava maconha, bebia demais e andava com as bailarinas da boate Marrocos. Para cumprir a pauta diária usava a consagrada combinação de instinto da notícia, esperteza e ética seletiva.

Às vezes, o repórter de polícia precisa encarnar Diabo da Fonseca, personagem de Nelson Rodrigues que diz: “E vou provar o seguinte, querem ver? Que é falsa a família, falsa a psicanálise, falso o jornalismo, falso o patriotismo, falsos os pudores, tudo falso!”

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Vamos falar sobre Algaci Tulio, jornalista e político morto esta semana, vítima do Covid-19. Em certo momento Algaci Tulio foi o nosso Diabo da Fonseca. Era 1977. Com a imprensa política censurada, os jornais mancheteiros vendiam às dezenas de milhares nas bancas do Rio e São Paulo e Curitiba. Notícias Populares, Tribuna do Paraná, Luta Democrática, O Dia. Aqui, os integrantes da redação da Ultima Hora Paraná estavam livres graças ao talento do Renê Dotti, Elio Naresi, Antonio Breda e outros advogados, que conseguiram alguns dos últimos habeas corpus concedidos pelo Supremo Tribunal Federal antes do AI-5. Livres e procurando emprego. Circulava uma lista negra entre os patrões. Estavam lá todos os comunistas, esquerdistas e liberais (“linha auxiliar da subversão”) inocentes úteis. Essa turma era perigosa porque defendia a volta das eleições diretas.

Alguns furaram a lista negra e trabalhavam no novo Estado do Paraná, comprado pelo governador Paulo Pimentel. Outros foram para as Mercês, para onde mudaram a TV Paraná e o Diario do Paraná, agora de propriedade do milionário paulista Oscar Martinez, dono da Rede OM de Comunicação. O presidente da Rede era o filho José Carlos Martinez, amigo de Fernando Collor, prefeito de Maceió. O alagoano sonhava com a presidência da República e dependia de muito apoio mediático.

Entre os contratados estavam “subversivos” e “inocentes úteis”: Cicero Cattani, Creso Moraes, Carlos Coelho e o mestre Reinaldo Jardim. O Diário do Paraná tentava mudar de trajetória e tornar-se um jornal popular, com cobertura dos bairros e muito crime na primeira página. Para isso mantinha uma aguerrida equipe de repórteres policiais, onde se destacava Algaci Tulio, com experiência em rádio-jornalismo.

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Certa madrugada, foi parar nas mãos de Algaci uma carteira de identidade ensanguentada. A dona chamava-se Marinês Lemanski e o corpo dela estava caído no banco de trás de um carro abandonado numa estradinha de Colombo. A vítima era esposa do jornalista Henrique Lemanski, secretário da Tribuna do Paraná, internado no hospital, o braço quebrado por um tiro.

O casal teria – e aqui a matéria começava a usar o condicional necessário às notícias policiais – teria sido vítima de sequestro ao sair de um restaurante próximo à Reitoria da UFPR. O criminoso mandou tocar para Colombo. Lá, roubou joias e dinheiro e atirou. Marinês caiu morta, o marido teria conseguido correr para o matagal. Escapou com vida, mas ferido no braço.

O dia seguinte foi de comoção na sociedade. Mais de uma centena de pessoas no velório, realizado na capela do cemitério Parque Iguaçu. Cercado de amigos e colegas, o marido chorava levando a mão ao rosto; via-se o braço engessado, testemunho da violência dos sequestradores.

Algaci tinha muitas fontes. Sabia onde ir, o que perguntar. Amigo de delegados e tiras, foi recebendo dicas e seguindo pistas. Chegou ao Rio Grande do Sul – e sua presença desagradou gente poderosa. Um gaúcho de chapelão e vasto bigode fez uma visita ao Diario do Paraná. Queria conversar com quem mandava. Entrou na sala do José Carlos Martinez e deu seu recado: é bom parar com a investigação. Continuar pode ter consequências. Quais consequências? Ninguém soube, porque o bigodudo pegou o chapéu e foi embora. E agora? Zé Carlos mandou uma ordem para a redação: continuem.

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Era um jornal feito com algum dinheiro e muita coragem. A visita do emissário não meteu medo nos repórteres. E no domingo, 12 de maio de 1978, uma enorme manchete dizia: “NA ORIGEM DOS BENS DE LEMANSKI, TODO MISTÉRIO DO CRIME”.

Eis o texto que explicava porque o motivo do crime era dinheiro:

“Advogados e policiais, que acompanham o caso Lemanski desde a época do crime, não têm dúvida em concluir que na origem dos bens do empresário está todo o mistério do assassinato de Marinês. O último lance estranho é o fato de a própria Policia “seqüestrar” e manter incomunicável o mecânico Pedro Roberto Salvattl, que ficou fazendo verdadeira romaria pelas delegacias de Policia de Curitiba, a fim de que não fosse localizado por parentes e advogados interessados em defendê-lo. A Polícia estava escolhendo advogados para o mecânico, além de indicar defensor para a família de Marinês. O delegado Peter Wlaslowskl impediu, de todas as formas, que o advogado Mário Jorge fosse contratado para defender o mecânico, mantendo em completo sigilo o paradeiro do preso, até que ele se dispôs a contratar outro advogado, Douglas Godoy, filho de um delegado de policia. “Quando a Policia impede que o advogado fale com o preso e que até sua mãe o veja é porque tem “chuncho”. E dos grandes”. Um outro fato não explicado: o tremendo esforço da Delegacia de Furtos e Roubos a fim de evitar que Henrique Lemanski viesse a se apresentar espontaneamente, para esclarecer os verdadeiros motivos do crime. Aparentemente, a Polícia temia que suas declarações pudessem ser por demais comprometedoras, complicando elementos da própria Polícia, como de outras pessoas da sociedade, cujos bens tiveram a mesma origem que os seus. Detalhes, na 16º pag.”

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A matéria não estava assinada, mas todo mundo sabia que era do Algaci Tulio. Dali em diante, a investigação avançou, os outros jornais entraram com mais vontade na cobertura, até que um delegado tomou coragem e fez o relatório apontando o marido e o mecânico como responsáveis pelo assassinato. Algaci ganhou fama de destemido, de herói do jornalismo, e não não viu muito futuro nessa condição. Não queria ser uma espécie de Amado Ribeiro curitibano.  Por que? Porque não faz bem para a saúde. (“Não quero virar nome de rua”)

Olhou para o lado, deparou-se com o largo caminho da política. Virou vereador pelo PTB, depois deputado, depois, por duas vezes, vice-prefeito de Curitiba, com Jaime Lerner e com Cassio Taniguchi.

Mas nunca deixou de ser jornalista. Para muitos colegas, foi o melhor repórter policial que a cidade conheceu.

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gghghg O homem do chapeu preto veio dar o recado. 

 

Posted on 16th janeiro 2021 in Sem categoria  •  1 comment

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  1. Antônio Carlos

    16 de janeiro de 2021

    Muito boa essa história.

    Responder

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