Tuta não era um goleador; era um craque da comunicação

FOTO-ANTONIO COSTA/Tribuna do Paraná

Naquele fim de tarde do dia 18 de abril de 2004 o vestiário da Baixada era o lugar mais desconfortável de Curitiba.

Como todo vestiário da época era apertado, úmido, abafado, fedia a urina, Zig e creolina. Mas ali, naquele momento, tornara-se assustador porque reverberavam pelas paredes de cerâmica e concreto os gritos que vinham de fora, onde dois mil torcedores enfurecidos ameaçavam os jogadores do Coritiba, em particular o centro avante Tuta, autor de dois gols naquela 3 a 3 que dava o título paranaense ao alviverde.

Do lado de fora e nos corredores de acesso estava a Polícia Militar de escudo, cassetete e pistolas de gás (que não precisou usar). Não foi fácil conter aquela multidão cega de ódio que tentava pegar o Tuta. Durante três horas, jogadores e diretores do Coritiba comemoraram o título com um olho na cerveja, outro na porta. Alguns dispensaram a comemoração a apenas oraram como cristãos nas catacumbas.

Só lá pelas 9 da noite foram liberados para o ônibus que os levaria ao Alto da Glória. E apenas então, baixada a adrenalina, avaliaram o risco que aquele vestiário representava.

A explosão de raiva começou após o segundo gol de Tuta, de cabeça, aos 31’ do segundo tempo, que selava o empate de 3 a 3 e dava o campeonato ao Coxa. O centro-avante, que tinha sido artilheiro rubro negro no campeonato de 1998, correu até a torcida do antigo clube e mandou aquele povo todo calar, com o dedo indicador na boca. A galera devolveu com palavrões, alguns tentaram escalar o alambrado.

“Eu estava mordido com a ingratidão deles”, explicou Tuta.

Na verdade, uma dupla ingratidão: tinha sido xingado o jogo inteiro e, pior, fora apagado da história do Atlético. Seu nome e biografia não constavam no site que registrava os jogos, os gols e homenageava os campeões de 1998. Para um veterano camisa 9 que vive de gols o esquecimento é pior do que a morte.

A mágoa de Tuta com os cartolas rubro negros foi explorada durante a preleção de Antônio Lopes. O técnico entendia a alma humana desde o tempo de delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro. “O que fizeram com Tuta podem fazer com um de vocês”. Convocou os jogadores a vingar Tuta, o craque esquecido, apagado e humilhado pelo Mario Celso Petralha no site oficial do clube.

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Após a vitória, os jogadores e o árbitro Marcos Tadeu da Silva Mafra (antigo jogador do Avai de Florianópolis) correram para o vestiário.

A volta olímpica ficou para outro dia.

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Era inacreditável o poder de comunicação no camisa 9 coritibano.

Na segunda-feira,todos jornais abriram a primeira página para a desafiadora foto de Tuta diante da torcida adversária e a manchete: “Silêncio na Baixada”. Analistas dividiam-se entre criticar a provocação, e considera-la parte do jogo. “A provocação, o sarro, o deboche são o combustível do futebol”. Todos reconheciam que Tuta foi hostilizado desde o primeiro minuto do primeiro jogo (2 a 1 para o Coritiba) e elogiavam o oportunismo do centro-avante (que vinha de campanhas vitoriosas no Flamengo e no Palmeiras). Alguns advertiam: isso vai terminar mal. Aquele clima de altíssima tensão que rodeava o clássico podia degenerar em violência incontrolável.

Era um bicampeonato merecido. O presidente Giovani Gionedis conseguiu reunir o melhor grupo de jogadores em duas décadas. Não era pouco, por exemplo, ter na zaga Reginaldo Nascimento, Miranda e Adriano.

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Nascimento, o “capitão” Nascimento, 338 jogos pelo Coxa, é um exemplo de liderança usado pela diretoria – primeiro do clube, agora da SAF – para coordenar as coisas entre o time de cima e as divisões de base.

Mas é também um pretexto para falar na fábrica de craques instalada pela família Matsubara em Cambará, no Norte do Paraná. Imagine, leitor, o surgimento no meio daquelas plantações de algodão, de uma Vila Olímpica modelo. Cinco campos de futebol com dimensões FIFA, ginásio bem equipado, piscinas regenerativas, Foi o primeiro a usar scout para identificar talentos em todo Brasil. Oferecia quase tudo que existe hoje – departamento médico e odontológico, nutricionista, fisioterapeuta, hotelaria, escola a cerca de 100 garotos peneirados em vários estados.

E possuía uma capacidade que poucos clubes hoje possuem – a de pensar no médio e no longo prazo. Outro dia, ouvi de novo uma entrevista do craque Alex no podcast Carneiro & Mafuz, em que ele define a decisão mais difícil dos executivos do futebol. “Você tem um garoto de 16 anos, com tudo para ser craque. E você pode optar em investir nele para compor um elenco que vai conquistar campeonatos e taças para o clube; ou você, diferentemente, trabalhar o garoto para se tornar um produto na prateleira e ser vendido com lucro dali a um ano. O Mateus Cunha, hoje no Manchester United, é um exemplo da segunda visão: veio para o Coritiba em 2014, morou três anos nos alojamentos do Estádio Couto Pereira, fez sucesso na Copa São Paulo e foi vendido para o Sion, da Suiça, por 700 mil reais. O United pagou por ele 74 milhões de euros.

Os donos do Matsubara tinham visão de longo prazo. Mantiveram o mesmo Diretor Esportivo Luis Carlos de Oliveira, o Bolão, durante 13 anos. E a mesma equipe de apoio. E produziram, além de Reginaldo Nascimento e Miranda, craques como Nilmar (Internacional), Carlos Alberto Dias (Botafogo, Vasco e Coritiba), Toninho Carlos (Santos dos anos 1980).

Pena que o Matsubara não era uma empresa esportiva. Desintegrou-se com a doença do algodão. As plantas eram destruídas por uma praga do besouro chamado Bicudo. O patriarca,  Sueo Matsubara teve que desistir do futebol. Os campos de treinamento abandonados viraram capinzais. Os edifício sem manutenção estão em ruinas. Só sobrou, em mau estado, o Estádio Regional Vicente de Carvalho, onde o Matsubara mandava seus jogos profissionais, construído pela comunidade de Cambará. O espaço recebe alguma manutenção da prefeitura e de antigos funcionários do clube para acolher jogos de equipes amadoras e eventos locais.,

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Miranda era o zagueiro alto e ágil, firme e frio, com técnica para dominar uma bola na área e em vez do chutão, livrar-se do adversário com um drible seco e avançar para o meio do campo encaminhando a transição. Depois do Coritiba, foi tricampeão pelo São Paulo e supercraque do Atlético de Madri.

Gosto muito da carreira de Adriano, zagueiro e ala moderno que começou no futsal (AABB), formou-se no Paraná Clube, veio para o Coritiba com 17 anos. Era admirado por Pep Guardiola, que foi busca-lo no Sevilha para viver seis anos de ouro no Barcelona. Saiu de lá com duas Ligas dos Campeões, dois Mundiais de Clubes e quatro títulos da La Liga.

Aquele Coritiba de 2004 tinha quatro operários no meio campo: Ataliba, Márcio Egídio, Capixaba e Luis Mário. No ataque, o craque Aristizabal, maior artilheiro do futebol colombiano e peça fundamental da Tríplice Coroa conquistada pelo Cruzeiro em 2003.

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Tuta não jogava sozinho.

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