
Faltam 9 minutos para acabar o jogo da Copa Sul-Minas em Vila Capanema. Luciano entra na área e faz mais um gol, o sexto do Paraná contra apenas um do Coritiba. Estamos no dia 6 de abril de 2002, o técnico do Coxa é Joel Santana e a torcida deles grita entusiasmada: ”Fica, Joel! Fica, Joel!”
A maior goleada de um Paratiba, que era o apelido do clássico. Agravada pela circunstância de o Paraná jogar com um time misto, preocupado que estava com a disputa da Copa do Brasil. Dali a alguns dias ia enfrentar o Corinthians pelas quartas de final.
O primeiro tempo até que estava equilibrado, mas aos 40 e 43 minutos, Adriano Chuva, um gaúcho grandão (1m86) marcou dois gols – o segundo aproveitando a defesa desarvorada do Coritiba.
Na volta do intervalo, um fio de esperança: Lima foi lá e fez 2 a 1.
Esperança vã. Logo, no intervalo de cinco minutos, Luciano, Leandro Alves e Marquinhos marcaram para o Paraná.
“Fica, Joel! Fica, Joel!”
Ficha Técnica
Paraná 6 x 1 Coritiba
06/04/2002
Copa Sul-Minas
Vila Capanema
Paraná: Neneca; Fabinho, Xandão e Ageu; Luís Paulo (Marcelo Santos), Leandro Alves, Marquinhos (Junior), César Romero e Naílton; Adriano Chuva (Valdir) e Luciano. Técnico: Paulo Bonamigo.
Coritiba: Wellerson; Tiago, Allan e Márcio Costa; Reginaldo Araújo, Reginaldo Nascimento, Sérgio Manoel, Evair (Lima) e Badé; Liédson e Da Silva. Técnico: Joel Santana
A torcida volta a pé para o centro. Camisas do Paraná e do Coritiba misturam-se na Rua João Negrão. Um tempo bom, em que não há necessidade de decidir na porrada qualquer jogo de futebol. Nem mesmo em caso de goleada, uma vez que os adversários respeitosamente comentam trivialidades futebolística.
O sábado negro demora para passar. Na manhã do domingo, a diretoria se reune e demite Joel Santana. Tinha comandado o time em 16 partidas com 6 vitórias, 2 empates e 8 derrotas. Paulo Bonamigo, técnico do Paraná, aceita sem piscar o convite para substituir Joel.
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Corta para 19 de dezembro do ano anterior. Está chegando ao aeroporto Afonso Pena Joel Natalino Santana. “Eu e o Coritiba estamos no maior amor”, disse ao repórter Caio Castro Lima, da Gazeta do Povo. “É o início de um amor eterno”.
A ideia do amor eterno entre um clube e seu técnico é no mínimo discutível. Joel chegava para ser o 121º treinador na história do Coxa, um clube de 82 anos. Um técnico a cada oito meses.
Domingos Moura, secretário do Conselho Administrativo, que foi receber Joel no aeroporto, explica à imprensa que ele, o Papai Joel, é assim mesmo: amigo de todos, elogios em todas as direções, até para o Atlético, que completou uma ótima campanha.
O Natalino está no registro de nascimento porque ele vai completar 53 anos no dia 25. Nasceu no dia de Natal, como o ator Humphey Bogart, aquele de Casablanca. Como o craque Jairzinho, o furacão da Copa do México, dois anos mais velho. E como sir Isaac Newton, aquele que ensinou: “Para cada ação há sempre uma reação igual e em sentido contrário”.
Dentro do gramado fez história. Cracão do Vasco da Gama, Joel Santana comandava a defesa pensando na terceira Lei de Newton um pouco simplificada: bateu, levou. E algumas vezes nem bateu, mas levou assim mesmo para não se meter a entrar na área do Gigante da Colina. Vai armar no meio campo, malandrinho.
Joel era o dono da área desde o início da carreira no Olaria. Muito pobre, não arranjou dinheiro para comprar chuteiras e foi fazer a peneira descalço. Tinha 1m85, muita impulsão. Passou, entrou no time e chamou atenção dos grandes clubes. Em 1969 estava no Vasco junto com Miguel, também de Olaria. Inquietante dupla de zaga.
Durante quatro anos foi o dono da área do Vasco da Gama, culminando a carreira de jogador em um inesquecível Vasco 2 X Santos 1 em que marcou Pelé. A Rei fez um gol, e só. “Fui muito bem marcado”. Em 1974 o Vasco da Gama, azarão entre os quatro finalistas – os outros eram Cruzeiro, Santos e Internacional – conquistou seu primeiro título brasileiro.
Numa época de boemia, Joel se cuidava. Pensava no futuro. Enquanto jogava pelo Vasco passou no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde obteve diploma em Educação Física. Depois do Vasco foi jogar no América de Natal. Os companheiros diziam que ele era um técnico dentro do campo.
Aposentou-se e iniciou uma carreira vitoriosa nos Emiratos Árabes Unidos. Tricampeonato pelo Al Wasl (1982, 1983 e 1985), campeão saudita pelo Al-Hital (1987-1990). Na década de 90, um feito histórico: Joel Santana conseguiu ser campeão carioca por três grandes clubes.
No Vasco, conquistou o bicampeonato carioca (1992 e 1993) e a Copa Ouro da CONMEBOL (1993). No Fluminense foi campeão de 1995, com o famoso gol de barriga de Renato Gaucho no Fla-Flu decisivo. No Flamengo, faturou o Campeonato de 1996. Invicto. No Botafogo, campeão carioca de 1997. Em 2000, de novo no Vasco, campeão brasileiro e vencedor da Copa Mercosul, em virada histórica de 4 a 3 em cima do Palmeiras.
Ganhou um novo apelido: Rei do Rio. O Coritiba não estava contratando qualquer um.
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Tive um amigo chamado, vamos dizer, Natálio.
Tinha casado três vezes, estava solteiro de novo. As tias diziam: “O Tatá, não tem sorte no casamento”.
Não que o Tatá fosse pobre. Tinha um belo emprego e administrava bem o que herdara da tia rica e sem filhos. Não era burro, não tinha mau hálito. Sabia dançar, andava de moto, ia aos bares da moda, saia com garotas bonitas, casava e não dava certo.
Por que?
Uma terapeuta mandou Tatá focar em si mesmo. Sugeriu vários livros, palestras, grupos de conversa. Apareceu a Armadilha da Desconfiança.
Ah, mas eu não sou desconfiado.
Pense. A Armadilha da Desconfiança já pegou muitos amigos seus – é uma ferida emocional. Você acredita que outros vão lhe causar dor, traição ou abuso.
Nunca desconfiei delas.
Pense de novo. Isso começa na infância por abuso, você ver os pais brigarem. Aí o cara fica hiper vigilante, vive testando o parceiro, sem querer sabota o relacionamento.
Entendi.
Tatá não casou de novo. Mas pegou a terapeuta e teve uma bela relação amorosa com ela. Longa e equilibrada.
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Tatá não era muito coxa, nem gostava muito de futebol. Estava mais para games e cinema de arte. Entra na história para explicar a psicologia da torcida. Sua persona resumia a massa alviverde em 2000, traída por técnicos que assinavam por uma fortuna e bastava ganhar três em seguida para correrem atrás de convite de clubes do Rio, de São Paulo, de Minas ou do Rio Grande do Sul.
Joel Santana chegou e começou uma série invicta. Cinco jogos. Então perdeu a primeira. E a segunda.
Na social, um conselheiro desconfiou do motivo.
-Tá querendo ser mandado embora.
Outro concordou.
-Conversou ontem com o empresário. Acho que mandou sinalizar que vai estar livre.
Era a Armadilha da Desconfiança. Pegou forte entre diretores, conselheiros e torcedores do Coritiba por causa do Ivo Wortmann. Todos se lembravam da cachorrada (o termo ouvi na arquibancada) de Wortmann no ano anterior.
O técnico gaúcho chegou ao Coritiba com 40 anos e pouca experiência em times da primeira divisão. Tinha a seu favor um título mundial obtido com a seleção sub-16 da Arábia Saudita, que venceu a Escócia na final. E, em desfavor, as denúncias jamais comprovadas de que aquele time estava cheio de gatos. Jogadores barbudos, com corpo de 20 anos passavam-se por garotos de 16, graças a certidões de idade fornecidas pelo estado árabe.
Mas fez um excelente trabalho no Coritiba. Levou a equipe às semifinais da Copa do Brasil, implantou um esquema 3-5-2 elogiado pela crítica esportiva e disputava o Brasileiro, quando recebeu uma proposta do Cruzeiro. Nem piscou: foi embora sem dizer adeus, deixou a diretoria do Coxa abandonada. A torcida não teve dúvida: traidor, rasgou o contrato.
No Cruzeiro, as coisas não correram bem e, no final de 2001, eis o Ivo Wortmann de novo no Coxa. Finda a temporada, discutia com a diretoria modificações do elenco para o ano seguinte quando chegou um convite do Internacional. Não teve dúvida, mandou-se para Porto Alegre.
A dupla traição instalou na alma dos coxas a Armadilha da Desconfiança.
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As derrotas que o Joel Santana estava sofrendo eram o gatilho (pergunte ao Google terapeuta o que é gatilho) para novo surto de desconfiança. Começou na diretoria, espalhou-se pela social, contaminou a arquibancada, a Curva do Amendoim e o bar do esquenta, na Rua Amâncio Moro. Adeus, Joel.
Joel foi para o Vitória, onde ganhou o Campeonato Baiano de 2002.
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P.S. – Do livro COXA – Desde que a Bola é Bola, em construção.
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