Quero votar como um pirata

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Cada urna custa 985 dólares. Nós pagamos.

 

 

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Volto ao Walter Lippmann (1889 – 1974), o primeiro analista político estadunidense a criticar a mídia e escrever que a democracia representativa não funciona. Descobriu que o cidadão comum é incapaz de tomar decisões políticas simples, como votar para presidente, eleger um bom deputado é até escolher o melhor candidato a xerife do condado. A escola precária e a midia comprometida são culpados pela falta de educação social, isto é, educação para entender a sociedade moderna.

Os gregos antigos não escolhiam representantes. Elegiam diretamente, na ágora, seus senadores. Hoje o mundo não cabe na praça e tudo complicou. O cidadão precisa de uma quantidade enciclopédica de informação para não falar besteira numa simples conversa de bar. E não basta ensinar ao jovem estudante as questões de hoje; é preciso que ele continue estudando porque amanhã as questões serão outras.

Lippmann conta a fábula do professor que, ao entardecer, meditava sobre toda essa problemática caminhando por um parque. Bateu numa árvore. Sendo um homem bem educado, prontamente tirou o chapéu (na época, os professores ganhavam o suficiente para comprar chapéus), inclinou-se diante da árvore e disse: “Desculpe-me, senhor, eu pensei que o senhor fosse uma árvore”.

Imagino o que aconteceria se o professor batesse não em uma árvore mas no último modelo da máquina de votar do Tribunal Superior Eleitoral. E lesse na tela o convite para escolher o próximo presidente da República entre Lula, Bolsonaro, Ciro, Tebet e outros. E visse ainda telas com os nomes de centenas de candidatos a representá-lo no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa  estadual. Procura no bolso, não acha a colinha. Olha no chão, não há material de propaganda jogado fora, como nas eleições de antigamente. Tira o chapéu, inclina-se diante da urna eletrônica e diz: “Desculpe, Dona Urna, eu pensei que a senhora fosse do tempo em que o voto era impresso e entregue pelo cabo eleitoral”.

E não vota.

Vou votar dia 2 de outubro, mas desconfio que vai ser um esforço inútil. Nosso presidencialismo de coalizão produziu a figura do presidente de opereta, consagrou o foro especial por prerrogativa de função e transformou a Câmara e o Senado, que deviam ser templos do civismo, em covil de marginais. Quem não é malfeitor se sente meio deslocado lá dentro. Eis a verdade: nossa democracia representativa despreza a demografia. Como um país onde a maioria dos habitantes são negros e pobres tem um congresso branco e rico? Onde estão as mulheres deputadas, que deviam ser maioria no Congresso e não passam de 15% – algumas não conseguem nem fazer cara feia para as perversidades por causa do botox e dos fios tensores. Não sou contra o botox, mas exijo cara feia diante de um congresso sicofantista juramentado, que nem o Dias Gomes imaginou.

Lippmann não era otimista com o regime porque sabia que Jefferson, Hamilton e os outros Pais da Pátria americana fundaram uma república, não uma democracia. Aqui é pior: os “democratas” amam as multidões e têm medo dos indivíduos que as compõem.

 

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P.S. – Por que a pirataria deu tão certo no mundo? Porque os comandantes dos navios piratas eram eleitos por suas tripulações. Diretamente. Em assembleia no convés principal. E, se decepcionassem, a tripulação podia votar para substituí-los.

 

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Pequenos escorregões

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Eric Adams: Os prefeitos devem ir sempre ao mesmo restaurante?

 

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Está na primeira página do New York Times: “Eric Adams à noite: Mesa Privada e Amigos da Pesada”.

A notícia é sobre as idas constantes de Adams a um restaurante da Rua 52 West chamado Osteria La Baia, que pertence aos gêmeos Robert and Zhan Petrosyants — cujos negócios o prefeito tem apoiado com entusiasmo. Parece que longa folha corrida dos irmãos vai da lavagem de dinheiro a crimes contra a pessoa.

O repórter abelhudo do NYT diz que não viu o prefeito pagar a conta, que não deve ser muito pequena. No cardápio, a entrada mais barata custa 30 dólares, o dobro do que ele pagaria em outro bom restaurante 100 metros adiante, também especializado em comida italiana.

O código de ética da cidade exige que funcionários públicos rejeitem presentes de valor superior a 50 dólares, por mais que a comida seja boa. Em Curitiba, a prefeitura não tem um código estabelecendo valores, mas todos sabem que não dá para aceitar agradinhos caros.

Mais de uma vez fui almoçar com o prefeito Jaime Lerner no restaurante Pekin, chinês que ficava no início da avenida João Gualberto e tinha uma mesa redonda no andar de cima. Jaime chamava alguns secretários e assessores para continuar a conversa da manhã. Comia trabalhando.

Nunca vi ele pagar a conta – aliás nunca vi político pagar conta, dizem que dá azar. Mas entendi que a Prefeitura acertava com o proprietário mensalmente. E o Jaime, que entendia de comida, nunca elogiou a qualidade da comida chinesa.

Mas falou bem da feijoada do Pasquale, o restaurante que funcionava dentro do Passeio Público. Lá quem pagava eram os amigos.

Também nunca vi Ney Braga pagar restaurante. Era um político que não gostava de comer – gostava de conversa e quando se decepcionava pedia um chá de camomila.

Sinto falta da sabedoria dos políticos antigos. Dizem que foi Ulisses Guimarães o primeiro a dizer: “Preste atenção, meu filho, não existe almoço de graça.” No exterior, Milton Friedman usou a frase como título de um de seus livros. “There is no such thing as a free lunch”

 

 

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Declaração de voto

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Walter Lippmann

 

Em “O Público Fantasma”, Walter Lippmann declara sua pouca fé na capacidade do cidadão comum na hora de tomar decisões políticas simples, como votar para presidente. Culpa da falta de educação social, isto é, educação sobre problemas urbanos, suburbanos, estaduais, nacionais, internacionais, financeiros, geológicos, industriais, trabalhistas, agrícolas, jurídicos.

É quase enciclopédica a quantidade de informação necessária para participar de uma simples conversa de café sem dizer besteira. E não basta ensinar ao jovem estudante essas questões; é preciso que ele se atualize permanentemente porque o problema do transporte público este ano não é o mesmo do ano passado. Nem o do orçamento público, que agora tem um anexo secreto. Muito menos o da legislação sobre o uso do IPTU para construir calçadas, que estão uma buraqueira.

Lippmann conta a fábula do professor que, ao entardecer, meditava sobre toda essa problemática caminhando por um parque. Bateu numa árvore. Sendo um homem bem educado, prontamente tirou o chapéu (a história é de 1927. Na época, os professores ganhavam para comprar chapéus), inclinou-se diante da árvore e disse: “Desculpe-me, senhor, eu pensei que o senhor fosse uma árvore”.

Imagino o que aconteceria se o professor batesse não em uma árvore mas no último modelo da máquina de votar do Tribunal Superior Eleitoral. Na tela estaria o convite para escolher o próximo presidente da República entre Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Simone Tebet e mais sei lá quantos outros candidatos. E em outras telas os nomes de centenas de candidatos e deputado federal e deputado estadual. Procura no bolso, não acha a colinha. Olha no chão, não há material de propaganda jogado fora, como nas eleições de antigamente. O professor tira o chapéu, inclina-se diante da urna eletrônica e diz: “Desculpe, urna eletrônica, eu pensei que a senhora fosse do tempo em que o voto já vinha impresso e era entregue pelo cabo eleitoral”.

E decide não votar.

Porque o presidencialismo gerou o presidente de opereta. Votar é uma inutilidade. Nossa democracia representativa não dá bola para a demografia. Como é que um país em que a maioria dos habitantes são negros e pobres tem um congresso branco e tão rico? Onde estão as mulheres deputadas, que poderiam ser maioria no Congresso se mulher votasse em mulher e não passam de 15%?  Os representantes discursam contra a corrupção que, para eles, é roubar dos cofres públicos. Evitam deblaterar contra o sistema bancário, que rouba em um dia o que a turma do petrolão levou anos para levar. Nem denunciam o sistema que manda para a penitenciária, aos milhares, passadores de fumo – gente preta, pobre e periférica. O dono do negócio goza a vida a beira mar.

Um congresso de opereta, mistura de Cancion de Tchuchuchuca com La Generala.

Lippmann não era otimista com o futuro. Lembrava que Jefferson, Hamilton e os outros Pais Fundadores dos EUA fundaram uma república, não uma democracia. Aqui foi pior: o Marechal Deodoro, com dolorosa crise de gota, foi levado ao Paço para homologar o golpe de estado.

Que tal proclamar uma democracia?

 

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Tarde de maio

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Rua Mauá tarde de sol.

 

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Carlos Drummond de Andrade

 

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de
seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

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O dia em que não quis fazer uma visita e trocar ideias com Lygia Fagundes Telles

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Cada capa de Eugênio Hirscht é uma obra prima. Nesta parece que ele caprichou ainda mais.

 

 

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Avalio a repercussão da morte de Lygia Fagundes Telles com certo desapontamento. Esperava muita comoção. Cada brasileiro com curso secundário completo tem obrigação de chorar essa perda. Morreu uma mestra da literatura, a autora traduzida em quinze línguas que todo ano está no Enem, a escritora que combinou o feminino com o político naquele momento de medo nacional e não teve medo – mergulhou com força nas personagens que inspiravam um mundo novo, onde as mulheres são capazes de tudo em todas as áreas. Até de vencer uma ditadura.

O romance “As Meninas”, de 1973, tinha algum tipo de parentesco com “O Grupo”, de Mary McCarthy, publicado dez anos antes, e vinte e quatro meses na lista de mais vendidos do New York Times, pela temática e principalmente pelo frescor, a inteligência, a valentia do texto.  Ignorei que Lygia não enfrentou a ferocidade dos críticos como aconteceu com “O Grupo”. Norman Mailer disse que aquilo não passava de “um romance trivial escrito por uma mocinha”, impregnado de um “perfume comunal, mistura de Ma Griffe com gel contraceptivo”. Aqui no Brasil, longe de Mailer mas perto do DOI-CODI, Lygia foi corajosa bastante para incluir críticas pesadas à ditadura no auge do AI-5. A descrição crua, minuciosa, da sessão de tortura num subterrâneo da repressão vale por cem editoriais.

Descobri novos jeitos de escrever em “As Meninas”, que encontrei já na terceira edição da José Olímpio Editora, com capa de Eugênio Hirsch (nascido em 1923, como Lygia). Em folhas de papel-lauda, copiei trechos para sentir as pausas e a melodia da narrativa. Era um dos editores do suplemento de domingo do Estado do Paraná. Na capa do caderno publiquei uma resenha meio impressionista sobre aquele livro romântico e subversivo, aquele português cheio de invenções e influências (achei) de James Joyce e Jack Kerouak. A página do Estado ficou atraente e mereceu uma carta da autora; em sua caligrafia bonita elogiou minha acuidade literária. Acuidade, heim? “Você levantou questões importantes sobre a literatura atual e o meu trabalho”, escreveu Lygia agradecida e convidando para uma conversa. “Espero poder trocar ideias com você”.

Trocar ideias? Imagine. Eu não tinha uma única e anêmica ideia para oferecer à dona de tanta criatividade. Nem era capaz de qualquer observação inteligente sobre o psiquismo das personagens, o desenvolvimento da trama, muito menos sobre a mensagem, uma coisa que estava na moda e devia ser descoberta e analisada nas entranhas da obra literária.

A carta de Lygia está perdida entre as camadas geológicas dos guardados. Uma primeira mexida nos papeis não teve sucesso. Transcrevê-la agora seria importante primeiro para mostrar aos amigos que não estou escrevendo à toa; estou lamentando a perda da oportunidade de conversar com uma notável escritora, minha correspondente, que talvez viesse a ser uma amiga, colega, confreira, irmã em admirações. Pois concordamos que “As Meninas” é o melhor romance de Lygia Fagundes Telles, não porque seja literariamente superior aos outros, ou o mais traduzido, ou aquele que fez sucesso no cinema, mas porque foi escrito nos anos de chumbo – “um testemunho desse nosso tempo e dessa nossa sociedade”.

Um dia, anos depois, visitava minha amiga Lygia França Pereira, casada com Modesto Carone, crítico literário e tradutor de Kafka. Contei sobre a incursão pela crítica (o texto era na verdade uma resenha) e sobre a carta-convite. Modesto era amigo da escritora e do marido Paulo Emilio Salles Gomes. “Vamos lá”, propôs. Entrei em pânico. Não posso, tenho que voltar correndo para Curitiba – era desculpa para não contar que tinha medo de não estar à altura da conversa, de ser chamado a opinar sobre o fluxo de consciência e o monólogo interior, ficar boboca, cristalizado, provincianamente encolhido num canto da sala da maior escritora do Brasil.

Caridosamente não insistiram no convite. E eu fiquei sem trocar ideias com Lygia, portanto sem descobrir o que ela e Paulo Emílio conversaram enquanto escreviam a quatro mãos o premiado roteiro cinematográfico de “Capitu”, de Machado de Assis. Sem poder perguntar se ela leu Monteiro Lobato para gostar tanto de analisar insetos como a Emília na “Reforma de Natureza”. Ou como decidiu que “O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta?”

E dizer que concordo cem por cento com ela quando diz: “Às vezes a gente melhora. Mas passa”.

 

 

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Um novo Roosevelt?

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Um New Deal da pós-pandemia.

 

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Mark Twain dizia que não se deve prestar muita atenção a discurso de político – a gente corre o risco de acreditar nele. Pois eu prestei atenção ao discurso de posse de Joe Biden. Ele disse que ia trazer a cadeia de suprimentos (supply chain) de volta para os Estados Unidos e essa foi uma declaração revolucionária porque propõe um cavalo-de-pau no neoliberalismo, na globalização e na terceirização que dominou o pensamento americano de Ronald Reagan para cá.

Acredito que Biden disse a verdade.

Para botar sua verdade no mundo – que também é o nosso mundo, na medida em que o Brasil continua dependente dos EUA até para decidir quem pode visitar a Base de Alcantara – o presidente encomendou à assessoria econômica um estudo da realidade americana. Quem tiver paciência, pode lê-lo em whitehouse.gov sob o título Building Resilient Supply Chains, Revitalizing American Manufacturing, e Fostering Broad-Based Growth: 100 Day Reviews Under Executiva Order 14017. Trata-se de um relatório de 250 páginas que já está na mesa dos candidatos e, a não ser que virem a mesa, vai estar no discurso de posse do novo presidente do Brasil.

O documento dispensa retórica porque tem a força dos números. Começa homenageando o mais intervencionista de todos os presidentes americanos. Para ganhar a guerra, o governo Roosevelt requisitou todos os insumos estratégicos, ditou salários e preços, investiu em fábricas de tanques, canhões, uniformes, medicamentos e alimentos para os soldados. A produção de automóveis entre 1942 e 1945 foi zero porque as montadoras fabricavam jeeps e tanques; o governo tornou-se o comprador de dois terços da produção de toda produção das indústrias.

A economia bombou, com volta ao pleno emprego e aumento de 48% no Produto Nacional Bruto. Como não havia besteiras tipo teto de gastos, o déficit orçamentário superou 25%. Não custa repetir: os assessores de Biden descobriram que até o início da guerra o desemprego era maior que dois dígitos; após a chegada de encomendas governamentais de mais de 100 bilhões de dólares – mais do que o produto de toda a economia uma década antes – o desemprego caiu para 3 e a produtividade dobrou. Em 1944 as fábricas produziram 96 mil aviões e os estaleiros de Henry Kaiser, que levavam 365 dias para colocar no mar um navio da classe Liberty, baixaram para 39 dias em 1943 e apenas 14 dias no ano seguinte.

Uma virada na economia que não ficou nisso. O esforço industrial melhorou a vida da população civil e trouxe avanços tecnológicos, como a Internet, que mudaram os EUA e o mundo nos pós-guerra. Um documento clássico da época foi “Ciência, a Fronteira Sem Fim”, de Vannevar Bush, conselheiro científico de Roosevelt, que ensinava: a pesquisa tecnológica é o motor do desenvolvimento.

O documento de Biden cita o passado para indicar um caminho para as atuais dificuldades, que não são poucas; começam com o desafio da China, que atualmente refina 60% de todo o lítio e 80% do cobalto mundial. E prosseguem no front interno, onde alguns cabeças de ovo insistem na crença neoliberal do laisser faire, a ideia de que se o vizinho faz melhor e mais barato deve-se comprar. O livre mercado, o estado mínimo e outros dogmas da ortodoxia conservadora acabaram com a grande indústria manufatureira – aquela que cria empregos, gera encomendas às indústrias e dificilmente sonega impostos porque reinveste o lucro. O Big State ganhou a Guerra Fria.

Para competir nessa nova guerra contra o império chinês Joe Biden apresentou uma proposta de orçamento de quase quatro trilhões de dólares, depois reduzida pelo Congresso. O objetivo desse dinheirão é conseguir soberania industrial em áreas estratégicas. A produção não pode parar, por exemplo, porque os semicondutores que movem tudo que é moderno são feitos na China, Coreia do Sul, Taiwan e até na Tailândia; a poluição não pode aumentar porque a produção de baterias elétricas de alto desempenho está na Asia; as pessoas não podem ser contaminadas pelo Covid 19 porque faltam máscaras – também produzidas do outro lado do mundo porque lá é mais barato.

Não foi necessário muito esforço para descobrir o caminho. Desde 1989, o MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, publica uma série de relatórios intitulados Made in América: Recuperando a Liderança Produtiva, onde sugere estratégias para retomar o espaço entregue aos produtores asiáticos. Em 2005 o jornalista Barry Lynn escreveu End of Line, mostrando os custos ocultos de globalização.  Os que criticaram hoje admitem que aquele era mais que um livro de não-ficção – era uma profecia.

O relatório do Casa Branca significa uma dramática reviravolta nos dogmas econômicos dos últimos 50 anos. Ele diz que não é sonho uma estratégia neo-Rooseveltiana de prosperidade compartilhada, empregos para quase todos e um peru na mesa no Dia de Ação de Graças.

Se vai dar certo ninguém sabe. Os Estados Unidos são aquele lutador de 40 anos que volta ao ringue para tentar reconquistar o cinturão de ouro contra um adversário fortíssimo e muito mais novo.

Tirando os últimos neoliberais (que, em grande número, vivem no Brasil e falam em perigo comunista), todas as pessoas lúcidas concordam que está na hora de o mundo inteiro fazer uma curva em U e pensar na importância do investimento público e do planejamento para desenvolver o país e compartilhar a prosperidade com todos.

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P.S. – A resenha de Robert Kuttner está na página 8 do exemplar de 18 de novembro da New York Review of Books. Encontrável na Livraria da Vila. Os livros de Kuttner são editados no Brasil pela Companhia das Letras.

 

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Receita (antiga) de sucesso

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Alessandra Galloni, da Reuters

 

 

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21.0pt 0cm;">Press Gazetta, da Inglaterra, perguntou a empresários de mídia o que acham do ano de 2022. Um bom número deles indicou uma oportunidade: trabalhar com notícias de boa qualidade. É o que todo mundo devia estar fazendo, mas o universo de fakenews é gigantesco.

21.0pt 0cm;">“Na medida em que a política e a sociedade tornam-se cada vez mais polarizadas e opiniáticas, surge uma tremenda oportunidade para publishers que oferecem notícias imparciais” , escreveu Allessandra Galloni, editora-chefe da Reuters. “Oferecer ao leitor jornalismo bem checado, baseado em fatos, é uma boa receita de sucesso do ponto de vista comercial”.

Almar Latour, do Dow Jones, foi além: “A sociedade está testemunhando mudanças profundas na tecnologia, midia, geopolítica, saúde, economia, desigualdade. Nunca houve um momento como esse em nossas vidas e isso cria uma necessidade cada vez maior de jornalismo de qualidade. Nossa missão é oferecer ao leitor jornalismo acreditado, dados e análises para ajudar as pessoas a tomar decisões e navegar essa era”.

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Midia digital nos EUA – Murdoch é o líder

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Rupert Murdoch, magnata australiano, dono da Fox News, lidera a midia digital nos EUA

 

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Relatório publicado na PressGazette, da Inglaterra, informa que a mídia digital nos EUA ainda está razoavelmente diversificada.

A análise do número de visitas aos 50 maiores sites de notícia mostra que apenas três recebem mais de 10% do total de visitas, enquanto outros oito têm um share superior a 3%. Os dados são da Similarweb.

Na Inglaterra, a concentração é maior. Apenas dois grupos – Reach (Daily Mirror, Daily Express etc) e BBC – recebem metade de todas as visitas.

A News Corp, de Rupert Murdoch, dona da foxnews.com e nypost.com, entre outros, tem o maior share – 12%. Recebe 425 milhões dos três bilhões de visitas mensais aos 50 maiores sites. Os dados são de outubro de 2021.

Em segundo lugar, com 11%, correspondentes a 364 milhões de visitas, vêm os sites de propriedade da gigante de telecomunicações AT&T, que controla entre outros a Turner Broadcasting, dona da CNN.

Em terceiro, estão os sites da Microsoft, com 10% (330 milhões).

A seguir, temos Apollo Global Management – Cox Midia Group, Yahoo! (8%, ou 250 milhões)

Ochs Sulzbergers/NY Times Co. (7% ou 212 milhões)

Google (5%, 165 milhões)

Comcast (4%, 130 milhões)

Grupo Bezos – Amazon & Washington Post (3% ou 100 milhões)

Refletindo a diversidade do mercado digital americano, 40% das visitas foram para sites pertencentes a pessoas ou grupos que conseguiram menos de 3% de share. Entre eles, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Ùltimos Dias, dona da maior emissora de Utah, a KSL; Axel Springer, proprietário do Business Insider e Politico; New Media Investiment Group, que controla o jornal USA Today através da rede Gannett.

Abaixo estão sites de entretenimento como gazillions.com; de notícias gerais standardnews.com; de direita epochtimes.com, ligado ao movimento religioso chinês Falun Gong.

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A quarta dose para idosos

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Israel anunciou que o número da novas infecções de Covid-19 é o maior desde setembro. Apesar de os novos casos representarem só 21 por cento do número de setembro, bastou para que o governo anunciasse a aplicação da quarta dose de reforço para pessoas acima de 60 anos e para quem trabalha na área de saúde.

-A Ômicron chegou – anunciou pela TV o primeiro ministro Naftali Bennett. – Vamos tomar a quarta dose.

A decisão foi tomada apesar de advertências de especialistas que desejam maiores evidências sobre os benefícios da quarta dose em prazo inferior a doze meses. No caso de idosos, porém, todos concordam que a imunidade da terceira dose cai rapidamente entre a população acima de 60 anos, justificando o reforço.

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Compromisso de ano novo

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A gente acorda cedo no primeiro do ano. E corre para a cidade para ver as ruas desertas, pardais ciscando no asfalto sem medo de carros. Aproveita a oportunidade para inspecionar as entranhas do horroroso pinheirinho de arame e fio elétrico, disneylike, que a prefeitura teima em iluminar todo ano sob pretexto de homenagear a Terra dos Pinheirais.

Anos atrás uma palmeira de plástico foi enxotada da Pracinha do Batel pelos moradores do bairro. Urge expulsar esse falso pinheiro ianque.

A gente quer fotografar uma vez mais o gari, solitário trabalhador do ano novo.

Lá está ele no meio da praça Dezenove de Dezembro  disposto a provar aos turistas que: a) aqui se trabalha, mesmo sem pagamento de adicional de ano novo e apesar da reforma trabalhista; b) que Curitiba é limpa, ao menos no sentido literal.

Mas não há turistas. Apenas um casalzinho de namorados, um grudado no outro, que ainda dorme em um banco – e nesse aspecto Curitiba é mais generosa que, por exemplo, Nova York, onde bancos de madeira têm braços de ferro a cada 50 centímetros.

Cenas assim foram cantadas por João de Barro e Alberto Ribeiro em Fim de Semana em Paquetá.

E quando rompe a madrugada
Da mais feiticeira das manhãs
Agarradinhos, descuidados,
Ainda dormem namorados
Sob um céu de flamboyants

Flamboyant não é árvore curitibana, não aguenta o frio, mas o pesquisador Francisco Cardoso descobriu dois exemplares que sobreviveram ao clima. Estão na rua Sete de Abril, entre Conselheiro Carrão e Simão Bolivar, no Alto da Glória.

Os namorados da Praça Dezenove seriam o grande assunto do primeiro do ano não fossem os sem-teto do Centro Cívico. Eles moram bem em frente da Prefeitura. Tiveram a boa ideia de inventar uma lavanderia a céu aberto e quaradouro no jardim que hoje pertence ao Tribunal de Justiça. Lá colocaram as roupas para secar e quarar – demonstração de como o espaço público pode ser usado para elevar a qualidade de vida do povo e incluir os excluídos.

Não vá o guarda municipal expulsar os sem-teto de lá. A marquise não é dele, é da antiga LBA – Legião Brasileira de Assistência. De Assistência, entendeu?  Numa sociedade saudável, os líderes estariam sugerindo lugares para mais quaradouros, para outras marquises e para mais bancos de praça sem braços de ferro.

Agora uma observação importante, do Chistopher Hitchens. Dante reservou um dos cantos mais quentes de seu Inferno para aqueles que, em tempos de crise moral, teimam em permanecer neutros. Não se pode ser neutro diante dos namorados da Praça Dezenove e dos sem-teto do Centro Cívico.

Eles nos tocam. Instigam a agir.

No século 20, a palavra genocídio foi inventada para descrever o extermínio dos armênios cristãos pelos turcos otomanos e a tentativa de alemães nazistas de eliminar os judeus do mundo. No século 21, os genocídios se multiplicaram pelo mundo e chegaram a nós – o governo negligenciou o fornecimento de oxigênio para milhares de moradores de Manaus, que morreram de falta de ar. Brasileiros, geralmente negros e pobres, são executados em confrontos com a polícia, na luta pela terra, no hospital público sem higiene, sem medicamentos, sem médicos.

Meu compromisso de ano novo é pela igualdade e contra os fanatismos, principalmente o fanatismo da pátria amada, do líder justiceiro, da ideologia da ordem, da fé no “futuro grandioso”. Na essência, é um compromisso com o ceticismo, com a impaciência, com o ódio à injustiça.

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Exemplo.

 

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