{"id":9747,"date":"2020-11-01T19:40:27","date_gmt":"2020-11-01T19:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=9747"},"modified":"2020-11-02T19:32:04","modified_gmt":"2020-11-02T19:32:04","slug":"a-democracia-algoritmica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=9747","title":{"rendered":"A democracia algor\u00edtmica"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<div id=\"attachment_9748\" style=\"width: 273px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jill-Lepore.jpg\" rel=\"lightbox[9747]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9748\" class=\"size-full wp-image-9748\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jill-Lepore.jpg\" alt=\"gghghg\" width=\"263\" height=\"192\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9748\" class=\"wp-caption-text\"><em>JILL LEPORE: \u00e9 poss\u00edvel inventar o futuro?<\/em><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>Na New York Review of Books de 8 de outubro, James Gleick resenha <a href=\"https:\/\/www.bookshop.org\/a\/312\/9781631496103\"><strong>If Then: How the Simulmatics Corporation Invented the Future<\/strong><\/a><strong>, <\/strong>de Jill Lepore, professora de Hist\u00f3ria Americana na Universidade de Harvard e colaboradora do New Yorker. O livro recomendado come\u00e7a com uma pergunta sinistra:<\/p>\n<p>\u201cEm que categoria puseram voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>A quest\u00e3o remete o leitor ao romance <em>The 480<\/em>, de Eugene Burdick, escrito em 1964, que pela primeira vez falou em <em>targeting \u2013 <\/em>o m\u00e9todo que cientistas pol\u00edticos usam para agrupar eleitores de opini\u00f5es parecidas. <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>No caso, 480 categorias de eleitor, definidas por regi\u00e3o, religi\u00e3o, idade e outras caracter\u00edsticas demogr\u00e1ficas como \u201cMeio-Oeste, rural, protestante, baixa renda, feminino\u201d. Muitos leitores revoltaram-se com a ideia de poderiam ser separados em caixinhas com o objetivo doentio de vencer uma elei\u00e7\u00e3o. O cr\u00edtico do New York Times considerou <em>The 480<\/em> \u201cum romance chocante\u201d e implaus\u00edvel.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\"><em>The 480<\/em> (que voc\u00ea encontra sem custo na Internet Archive Books) n\u00e3o era fic\u00e7\u00e3o. Era um <em>roman \u00e0 clef <\/em>baseado na vida real da empresa Simulmatics, que trabalhara secretamente na campanha de John F. Kennedy em 1961. Burdick tinha sido um operador pol\u00edtico e conhecia bem os fundadores da Simulmatics. As 480 categorias de que falava o romance eram um resultado do trabalho de analistas sobre uma montanha de dados adquiridos do Instituto Gallup e outras empresas de pesquisa da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/span><\/h3>\n<p>Aqui um elogio para Lopore, considerada uma historiadora brilhante e prol\u00edfica, com um olhar atento a hist\u00f3rias inusuais \u2013 e esta \u00e9 uma saga not\u00e1vel, meio c\u00f4mica, meio amea\u00e7adora, \u201cuma hist\u00f3ria sombria dos anos 1960\u201d, segundo ela. A Simulmatics atravessou a d\u00e9cada atuando na Guerra do Vietn\u00e3, no movimento de direitos civis, em greves e protestos de rua.<\/p>\n<p>O grande momento da empresa parece ter sido a elei\u00e7\u00e3o de Kennedy. N\u00e3o era f\u00e1cil ganhar dos republicanos. Nixon era um conservador s\u00f3lido, com um p\u00e9 no macarthismo outro na elite financeira. E, pela primeira vez, haveria debate televisionado entre os candidatos.<\/p>\n<p>Os democratas corriam atr\u00e1s de informa\u00e7\u00e3o e estavam dispostos a confiar da Simultanics, que alugou um gigantesco computador IBM 704 da Universidade de Columbia. A coleta de dados n\u00e3o era f\u00e1cil, principalmente entre os negros. Velhos caciques acreditavam nos tradicionais mecanismos de press\u00e3o que assustariam os eleitores de cor e n\u00e3o queriam briga com propriet\u00e1rios de jornais dos estados do sul. Os caciques pol\u00edticos do Sul n\u00e3o queriam ver entrevistadores perdendo tempo com negros.<\/p>\n<p>Apesar disso, a empresa entregou relat\u00f3rios de qualidade. Uma das constata\u00e7\u00f5es era que os democratas n\u00e3o conseguiriam vencer sem o apoio do movimento dos direitos civis. Simulmatics tamb\u00e9m aconselhou o candidato a bater de frente com o preconceito anti-cat\u00f3lico que estava minando sua campanha. Recomendou ainda a participa\u00e7\u00e3o nos debates. \u201cKennedy pode fazer uso de sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o, humor, espiritualidade e entusiasmo\u201d. JFK seguiu todos os conselhos. Os eleitores n\u00e3o foram manipulados nem enganados. Ningu\u00e9m teve a privacidade invadida. E os democratas venceram um pleito que ficaria para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O problema foi o dia seguinte. Os democratas queriam tocar a vida, n\u00e3o precisavam ficar contando detalhes da campanha. O pessoal da Simulmatics, por seu lado, estava sedento de gl\u00f3ria. Queria transformar os conselhos eleitorais em fama, credibilidade, novos clientes. Mas tinha o compromisso de manter em sigilo seu trabalho.<\/p>\n<p>A sa\u00edda foi encontrada quando um dos analistas, que havia contribu\u00eddo para os relat\u00f3rios ao candidato, entrou em contato com a revista Harper\u2019s fazendo de conta que era um jornalista desinteressado. A revista publicou seu relato em janeiro de 1961 \u2013 o m\u00eas da posse de Kennedy \u2013 com uma capa que anunciava a \u201cPeople-Machine\u201d e explicava: \u201cRelato sobre um computador projetado secretamente para a campanha presidencial do Partido Democr\u00e1tico \u2013 e as consequ\u00eancias disso para a estrat\u00e9gia pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria era uma avenida de elogios \u00e0 estrat\u00e9gia da campanha. A certa altura citava um amigo dos donos da empresa, o cientista social da Universidade de Yale Harold Lasswell dizendo: \u201cEsta \u00e9 a bomba at\u00f4mica das ci\u00eancias sociais!\u201d<\/p>\n<p>O New York Herald Tribuna revelou o nome da bomba A \u2013 Simulmatics. Um jornal do interior do Oregon editorializou: \u201cOs eleitores \u2013 eu, voc\u00ea, Mrs. Jones da casa ao lado e o prof. Smith na Universidade fomos transformados em pequenas perfura\u00e7\u00f5es em um cart\u00e3o de cartolina ou alguma outra ferramenta digital que o pessoal do Kennedy est\u00e1 usando\u201d.<\/p>\n<p>O \u201cpessoal do Kennedy\u201d entrou em p\u00e2nico e resolveu negar tudo. Simulmatics tentou explicar: \u201cM\u00e1quinas nada podem fazer a n\u00e3o ser acelerar as comunica\u00e7\u00f5es\u201d. Isso permite \u201crestaurar a possibilidade de debater importantes temas em grandes sociedades.\u201d Mas n\u00e3o era isso que a empresa pensava.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\">\u201cOs cientistas da Simulmatics \u2013 observa a autora &#8211;\u00a0 acreditavam que se conseguissem coletar grande quantidade de dados sobre grande quantidade de pessoas tudo, um dia, poderia ser previsto e todos, cada c\u00e9rebro humano simulado, cada ato poderia ser antecipado ou mesmo dirigido por mensagens direcionadas, precisas como m\u00edsseis.\u201d<\/span><\/h3>\n<p>Isso tudo aconteceu em um tempo remoto, na era pr\u00e9-internet.<\/p>\n<p>Agora estamos ante a realidade da campanha de Trump em 2016. Com ajuda da ci\u00eancia comportamental ele dirigiu m\u00edsseis certeiros aos tr\u00eas principais alvos da manipula\u00e7\u00e3o: a comunidade afro-americana, os antigos apoiadores de Sanders, e jovens mulheres que poderiam ter algum ressentimento contra Bill Clinton voc\u00eas-sabem-porqu\u00ea. Ganhou.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria refor\u00e7ou a ideia de que hoje um pesquisador sem sair da frente de sua tela pode compilar e cruzar informa\u00e7\u00f5es sobre compras (dos registros do com\u00e9rcio), pessoas com baixo Q.I. (dos registros escolares), desempregados (arquivos da previd\u00eancia social). A pergunta que se faz frequentemente \u00e9: \u201cTudo bem, ele tem capacidade tecnol\u00f3gica para fazer isso. Mas \u00e9 \u00e9tico faz\u00ea-lo?\u201d<\/p>\n<p>Sempre \u00e9 poss\u00edvel dizer que essa estrat\u00e9gia \u00e9 arma contra um mal maior, que seria a reelei\u00e7\u00e3o de Trump.<\/p>\n<p>O assunto ganha relev\u00e2ncia nesta \u00e9poca de constante amea\u00e7a \u00e0 liberdade individual pelos instrumentos de vigil\u00e2ncia tecnol\u00f3gica \u2013 reconhecimento facial, rastreamento de DNA &#8211;\u00a0 cada vez mais apurados.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\">Ningu\u00e9m ignora que megaempresas faturam bilh\u00f5es predizendo e manipulando nosso comportamento como consumidores e como eleitores.<\/span><\/h3>\n<p>\u00c9 recente o epis\u00f3dio da entrega de 50 milh\u00f5es de perfis do Facebook \u00e0 empresa Cambridge Analytics, que os transformou em programas de disparos em massa pelas m\u00eddias sociais. Disparos de informa\u00e7\u00f5es e imagens manipuladas, <em>fakenews<\/em>, para criar animosidade em grupos \u00e9tnicos (os supremacistas brancos), religiosos (evang\u00e9licos pentecostais) ou sociais (desempregados, trabalhadores dom\u00e9sticos).<\/p>\n<p>Para isso funciona a simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong><em>P.S. \u2013 Simulmatics = simulation + automatics.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. &nbsp; . 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