{"id":9260,"date":"2020-07-21T22:53:19","date_gmt":"2020-07-21T22:53:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=9260"},"modified":"2020-08-05T05:50:01","modified_gmt":"2020-08-05T05:50:01","slug":"a-boca-maldita-machista-nada-disso-toda-curitiba-era-machista-do-bacacheri-ao-portao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=9260","title":{"rendered":"A Boca Maldita machista? Errado: Curitiba toda, do Bacacheri ao Port\u00e3o, era machista"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffff99;\"><a style=\"color: #ffff99;\" href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fernando-Pessoa-Ferreira-Curitiba-a-Fria-3.jpg\" rel=\"lightbox[9260]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9261\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fernando-Pessoa-Ferreira-Curitiba-a-Fria-3.jpg\" alt=\"gghghg\" width=\"640\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fernando-Pessoa-Ferreira-Curitiba-a-Fria-3.jpg 640w, https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fernando-Pessoa-Ferreira-Curitiba-a-Fria-3-300x132.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p><em>Trecho de &#8220;Curitiba, a Fria&#8221;, de Fernando Pessoa Ferreira em Livro de Cabeceira do Homem, Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em><\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma cidade qualquer.\u00a0Era Curitiba, a capital mais europeia do Brasil. Na segunda metade do s\u00e9culo passado ela come\u00e7ava no Bacacheri, terminava no Port\u00e3o. Para al\u00e9m as chacrinhas e col\u00f4nias de polacos.<\/p>\n<p>O Paran\u00e1 deixou de ser a 5\u00aa. Comarca de S\u00e3o Paulo em 1853, mas faltou cortar direito o cord\u00e3o umbilical. O poder econ\u00f4mico paulista ficou nas ag\u00eancias banc\u00e1rias e filiais de grandes empresas naquilo que o historiador Samuel Guimar\u00e3es da Costa chamou de imperialismo paulista.\u00a0 La\u00e7os de fam\u00edlia reproduziam o patriarcalismo da matriz.<\/p>\n<p>ECOS DO SIMBOLISMO<\/p>\n<p>Aqui, ainda ecoavam em ruas de pedra os passos dos poetas simbolistas, Emiliano Perneta o pr\u00edncipe deles. O Vampiro caminhava pela madrugada ao lado dos jornalistas Mauri Furtado e Roberto Muggiati, e do trombonista Raul de Souza anotando as fa\u00e7anhas do abomin\u00e1vel Nelsinho. Beppi e seus Solistas enchiam de boleros e sambas a noite da Caverna Curitibana &#8211; vinham homens de todos os bairros e de cidades do interior dan\u00e7ar no melhor taxi-girl do Brasil.<\/p>\n<p>Todo ano algu\u00e9m sugeria sem sucesso que o Col\u00e9gio Santa Maria, tido por muitos como o melhor da cidade, aceitasse alunos do sexo feminino. Por que s\u00f3 meninos? Porque era assim na Fran\u00e7a, em 1817, quando o padre Marcelino Champagnat fundou o Instituto dos Irm\u00e3os Maristas\u00a0das Escolas\u00a0<em>(Fratres Maristae a Scholis &#8211; F.M.S)<\/em>.<\/p>\n<p>Nos bailes do Clube Curitibano ou do C\u00edrculo Militar as mo\u00e7as sentavam-se \u00e0s mesas com a fam\u00edlia, uma tacinha de meia-de-seda (leite condensado, vodca e licor de cacau) durava at\u00e9 o fim do baile. S\u00f3 umas poucas metidas a modernas iam para o bar beber u\u00edsque <em>on the rocks<\/em> com os rapazes. No dia seguinte estavam mal faladas.<\/p>\n<p>As faculdades mais procuradas da Universidade Federal do Paran\u00e1, Direito, Medicina e Engenharia, formavam poucas mulheres. Havia duas engenheiras na turma de Engenharia de 1952. Na Faculdade de Direito as mulheres representavam talvez dez por cento. A porcentagem se invertia desproporcionalmente na Filosofia, onde se preparavam professoras. Dez a um para as mulheres.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, os plen\u00e1rios da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justi\u00e7a exalavam testosterona. Nos gabinetes do Poder Executivo havia algumas mulheres, mas assessoras e secret\u00e1rias. A maioria ficava em casa, criando os filhos e aplicando os conhecimentos adquiridos na famosa Educa\u00e7\u00e3o Familiar do Paran\u00e1, apelidada \u201cCa\u00e7a Marido\u201d ou apenas \u201cCa\u00e7a\u201d. Era um col\u00e9gio de freiras que funcionou na rua Bento Viana, de 1953 a 1986, assim chamado, segundo o jornalista Jos\u00e9 Carlos Fernandes, por ensinar a servir \u00e0 francesa e a bordar ponto-cruz.<\/p>\n<p>MACHISMO ESTRUTURAL<\/p>\n<p>Uma cidade perdidamente machista. Estruturalmente. De fora era mais f\u00e1cil descobrir isso, como fez o jornalista e poeta pernambucano Fernando Pessoa Ferreira, durante algum tempo morador de Curitiba e diretor do Teatro Guaira. Ele escreveu para o \u201cLivro de Cabeceira do Homem\u201d, da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, um artigo intitulado \u201cCuritiba, a Fria\u201d.<\/p>\n<p><em>\u201cAo transitar pelas ruas de maior movimento depois das 10 horas da noite v\u00ea-se apenas homens, todos de terno escuro e engravatados, enxameando ao longo das cal\u00e7adas e nas portas dos caf\u00e9s, que s\u00e3o os redutos da maledic\u00eancia pol\u00edtica, esportiva e er\u00f3tica da popula\u00e7\u00e3o local. Da popula\u00e7\u00e3o masculina, pois mulher curitibana que se preza n\u00e3o toma cafezinho na rua, mesmo acompanhada por escolta do outro sexo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Nada mais natural, portanto, que o legend\u00e1rio Anfr\u00edsio Siqueira, fundador e presidente vital\u00edcio da Confraria da Boca Maldita, definisse a institui\u00e7\u00e3o como exclusivamente masculina. Nem pensou em levar mulheres ao jantar realizado h\u00e1 mais de 50 anos para entrega das comendas de Cavalheiro da Boca Maldita. Anfr\u00edsio, de tradicional fam\u00edlia lapeana, respeitava os mitos conservadores.<\/p>\n<p>NOVA GEOGRAFIA<\/p>\n<p>A Boca Maldita mudou a geografia do centro, dominado durante d\u00e9cadas pelo Caf\u00e9 Alvorada, na Travessa Oliveira Belo, onde tomavam cafezinho o professor Bento Munhoz da Rocha, o major Fernando Flores ou o deputado Lauro Portugal Tavares. Quando o caf\u00e9 lotou demais e a travessa ficou apertada, houve um \u00eaxodo para o lado norte da avenida Luiz Xavier. Um grupo ficava na esquina da \u00c9bano Pereira, em frente ao antigo Banco Bamerindus. O pr\u00f3prio presidente e fundador Avelino Vieira dava um plant\u00e3ozinho com seu cigarro de palha.<\/p>\n<p>Outro grupo, liderado pelo Anfr\u00edsio, reunia-se em frente da Galeria Tijucas. Eram advogados e ju\u00edzes na sa\u00edda do forum, mais o cartor\u00e1rio Jos\u00e9 Nociti, o projetista Orlando Carlini, o grande goleiro atleticano Ivan Pereira, professores, m\u00e9dicos e jornalistas. Havia tamb\u00e9m comerciantes, corretores imobili\u00e1rios e espi\u00f5es do Pal\u00e1cio \u2013 gente escorregadia que passava de roda em roda para colher boatos e levar maledic\u00eancias aos ouvidos gulosos do governador e secret\u00e1rios.<\/p>\n<p>INFORMA\u00c7\u00d5ES &amp; NEG\u00d3CIOS<\/p>\n<p>Um especialista em marketing descobriria r\u00e1pido que a Boca n\u00e3o era um simples ponto de encontro, mas uma ag\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es e um poderoso lobby de neg\u00f3cios. \u00c0s vezes o doutor Francisco Cunha Pereira decidia ali o tema do editorial da Gazeta do Povo ou a nota que n\u00e3o podia deixar de sair na coluna social do Dino Almeida. Paulo Pimentel, dono da TV Igua\u00e7u e do Estado do Paran\u00e1, mantinha-se atualizado atrav\u00e9s do Mussa Jos\u00e9 Assis, diretor de reda\u00e7\u00e3o. E Abdo Aref Kudri, diretor do Diario Popular e presidente da associa\u00e7\u00e3o dos jornais, passava na Boca para ouvir novidades e marcar reuni\u00f5es. Abdo tinha canal direto com o governador para transmitir a preocupa\u00e7\u00e3o da m\u00eddia com algum assunto relevante.<\/p>\n<p>Em novembro a sala do Anfr\u00edsio virava centro de decis\u00f5es para o jantar do dia 13. Quem merece uma comenda? Quem far\u00e1 o discurso? O advogado Ren\u00ea Dotti, maravilhoso orador? O deputado Alvaro Dias, candidato a governador? Qual ministro do Supremo receber\u00e1 homenagem? Ser\u00e1 que o doutor Antonio Ermirio de Morais vem?<\/p>\n<p>A BOCA N\u00c3O PERDOA<\/p>\n<p>Em 1973, estreou no Teatro Paiol, o musical \u201cCidade Sem Portas\u201d, escrito por mim e pelo Paulo V\u00edtola. A primeira ideia para a pe\u00e7a veio do Jaime Lerner, prefeito da cidade. \u201cE preciso contar a hist\u00f3ria de Curitiba de um jeito leve que todo mundo goste\u201d \u2013 exortou ele, um apaixonado por musicais do cinema e da Broadway.<\/p>\n<p>O roteiro foi feito com supervis\u00e3o da professora Oksana Burushenko, do Departamento de Hist\u00f3ria da UFPR. Detalhes pitorescos e picarescos da hist\u00f3ria da cidade inspiraram a bel\u00edssima trilha sonora do Paulinho, onde se destacava o samba da Boca Maldita. \u201cA Boca falou, seu doutor, t\u00e1 falado; a Boca pichou, seu doutor, t\u00e1 pichado.\u201d<\/p>\n<p>Paulinho V\u00edtola virou Cavalheiro da Boca. O samba logo chegou \u00e0s r\u00e1dios e levou ainda mais gente ao jantar s\u00f3 para homens daquele 13 de dezembro, na Sociedade Thalia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. 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