{"id":8732,"date":"2019-09-01T05:35:33","date_gmt":"2019-09-01T05:35:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8732"},"modified":"2019-09-02T05:44:55","modified_gmt":"2019-09-02T05:44:55","slug":"um-mundo-enfim-ordenado-per-cola-e-commata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8732","title":{"rendered":"Um mundo enfim ordenado. Per cola et commata"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\">N\u00e3o sei se s\u00e3o muitos, ou se reunidos cabem numa kombi, mas h\u00e1 os que desprezam a nova linguagem que aparece em mensagens de celular \u2013 os <em>rs,<\/em> emoticons, <em>ctz (certeza), fikdik (fica a dica)<\/em>.<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"color: #3366ff;\">Por isso voltaram a estudar gram\u00e1tica.<\/span><\/h3>\n<p>T\u00eam que estudar mesmo porque mudou quase tudo. N\u00e3o se usa mais a Gram\u00e1tica Expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, que teve 158 edi\u00e7\u00f5es. No pr\u00f3logo, o mestre ensinava: <em>\u201cVehiculo da Id\u00e9a, \u00e9 a palavra o mais bello e util apanagio da humanidade. Filha do homem, traz com o homem frisante analogia. Sua origem, como a do seu putativo genitor, tem o cunho do mysterio, perde-se na noite remota dos tempos, e offerece \u00e1s pesquisas dos s\u00e1bios indecifr\u00e1vel enigma. Como elle ainda, ella nasce, cresce, adoece e morre\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Para desvendar esse \u201cmysterio\u201d \u00e9 preciso voltar ao ano 400, quando S\u00e3o Jer\u00f4nimo concluiu a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia e deu aos monges copistas instru\u00e7\u00f5es sobre como dividir o texto \u201cper cola et commata\u201d. Ele queria a Palavra bem articulada e a pontua\u00e7\u00e3o servia para acabar com ambiguidades, regular o ritmo da leitura. Uma pausa breve, commata; longa, fim de senten\u00e7a, cola.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>E se a pausa fosse maior do que a v\u00edrgula e menor que o ponto? Ai n\u00e3o havia o que fazer. A solu\u00e7\u00e3o s\u00f3 chegou mil anos depois, em 1494, quando um editor de Veneza inventou o ponto e v\u00edrgula.<\/p>\n<p>Era o fim da Idade M\u00e9dia, o in\u00edcio da Renascen\u00e7a, com suas luzes. A sabedoria do mundo ainda estava escondida em velhos manuscritos, preservados em bibliotecas de mosteiros. Aqueles textos precisavam ser divulgados com clareza e para isso apareceram outros sinais de pontua\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sobreviveram.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou falar do trema, antigo terror dos estudantes, hoje reduzido \u00e0 sua insignific\u00e2ncia: s\u00f3 serve para registrar a pron\u00fancia de certos nomes estrangeiros. Agora a gente <strong>aguenta<\/strong> as <strong>consequ\u00eancias<\/strong> sem gastar dois tremas e o texto continua claro.<\/p>\n<p>Exce\u00e7\u00e3o, nomes pr\u00f3prios: a portentosa Gisele continua carregando um trema no B\u00fcndchen.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Com o ponto e v\u00edrgula a conversa \u00e9 outra. Ele \u00e9 significant\u00edssimo. Os modernos gram\u00e1ticos tratam-no com carinho. Valorizam a meia pausa que Antonio Vieira usava t\u00e3o bem. No Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima, por exemplo, ele define o pregador, que \u00e9 vida e exemplo:<\/p>\n<p><em>\u201cPor isso Cristo no Evangelho n\u00e3o o comparou ao semeador, sen\u00e3o ao que semeia. Reparai. N\u00e3o diz Cristo: Saiu a semear o semeador, sen\u00e3o, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia h\u00e1 muita diferen\u00e7a: uma coisa \u00e9 o soldado, e outra o que peleja; uma coisa \u00e9 o governador, e outra o que governa.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Aqui o leitor pode constatar mais uma vez a atualidade de Vieira. Vivemos entre governadores que nem sempre governam, e todo mundo sabe que raramente o presidente preside.<\/p>\n<p>O trecho vale por dez aulas de pontua\u00e7\u00e3o. E de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Claro que o ponto e v\u00edrgula n\u00e3o \u00e9 uma unanimidade. Kurt Vonnegut Jr o odeia. \u201cN\u00e3o use pontos e v\u00edrgulas. Eles s\u00e3o hermafroditas travestidos, representam absolutamente nada. S\u00f3 servem para mostrar que voc\u00ea frequentou algum curso superior.\u201d<\/p>\n<p>Machado de Assis, ao contr\u00e1rio de Vonnegut, era amigo do ponto e v\u00edrgula. Em uma de suas cr\u00f4nicas da s\u00e9rie \u201cBons dias!\u201d ele explica bem humorado que n\u00e3o valia a pena traduzir o texto: \u201cEstes meus escritos n\u00e3o admitem tradu\u00e7\u00f5es, menos ainda servi\u00e7os particulares; s\u00e3o palestras com os leitores e especialmente com os leitores que n\u00e3o t\u00eam o que fazer.\u201d<\/p>\n<p>(Um ponto depois de \u201cservi\u00e7os particulares\u201d seria muito; uma v\u00edrgula, pouco.)<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>O s\u00e9culo 19 foi o s\u00e9culo do soneto e do ponto e v\u00edrgula. Linguistas fizeram as contas e constatam que era mais usado que a v\u00edrgula. Quanto ao soneto, conv\u00e9m registrar que continua sendo cometido por poetas muito competentes, como a mineira Liria Porto<\/p>\n<p><strong><em>Cometi um soneto<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>pedi socorro a hipotenusas e catetos<br \/>\nfalei comigo e tamb\u00e9m com os meus bot\u00f5es<br \/>\namasso versos sou assim aos borbot\u00f5es<br \/>\npor\u00e9m insisto em processar alguns sonetos<\/em><\/p>\n<p><em>conversa vai conversa vem eu vou tentar<\/em><br \/>\n<em>busco o luar a luz do sol amarro-os bem<\/em><br \/>\n<em>ou largo tudo num papel em qualquer trem<\/em><br \/>\n<em>trago co&#8217;as m\u00e3os as ilus\u00f5es l\u00e1 de al\u00e9m-mar<\/em><\/p>\n<p><em>batuco os dedos a contar s\u00edlabas tortas<\/em><br \/>\n<em>e veja s\u00f3 velho cam\u00f5es se n\u00e3o te importas<\/em><br \/>\n<em>sempre fui doida e fico mais tenho certeza<\/em><\/p>\n<p><em>falo sozinha a cavoucar rimas avessas<\/em><br \/>\n<em>sou assassina criminosa r\u00e9 confessa<\/em><br \/>\n<em>deste soneto atordoada eu me fiz presa<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A poeta entrou neste texto para, primeiro, animar o leitor com a gra\u00e7a de sua inven\u00e7\u00e3o; segundo, mostrar que \u00e9 poss\u00edvel escrever bonito sem ponto, sem v\u00edrgula, sem ponto e v\u00edrgula.<\/p>\n<p>Certo estava George Campbell, fil\u00f3sofo do Iluminismo Escoc\u00eas, que decretou: \u201cA l\u00edngua \u00e9 um conjunto de modismos. N\u00e3o cabe \u00e0 gram\u00e1tica regular os modos do discurso.\u201d<\/p>\n<p>CTZ<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>P.S. \u2013 Quem tiver curiosidade, deve dar uma olhada em <strong>\u201c<\/strong><strong>&#8220;Gram\u00e1tica reflexiva da l\u00edngua portuguesa&#8221;, de\u00a0Marcelo Moraes Caetano (Editora Ferreira).<\/strong><strong> \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>P.S. 2 \u2013 Ver tamb\u00e9m<\/p>\n<p><strong>Semicolon: The Past, Present, and Future of a Misunderstood Mark<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Kindle Edition<\/em><\/p>\n<p>by <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Cecelia-Watson\/e\/B07V7QBJZ4\/ref=dp_byline_cont_ebooks_1\">Cecelia Watson<\/a><\/p>\n<p>E tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/www.englishproject.org\/april-and-comma\">http:\/\/www.englishproject.org\/april-and-comma<\/a><\/p>\n<h1><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. 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