{"id":8344,"date":"2018-11-02T06:18:32","date_gmt":"2018-11-02T06:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8344"},"modified":"2018-11-02T06:31:05","modified_gmt":"2018-11-02T06:31:05","slug":"emocoes-fortes-no-6o-distrito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8344","title":{"rendered":"Emo\u00e7\u00f5es fortes no 6\u00ba Distrito (*)"},"content":{"rendered":"<p>Naquela segunda-feira de frio e garoa fina, Doc Franco, 32 anos, delegado do 6\u00ba Distrito, tinha motivos para se sentir infeliz. Al\u00e9m do doloroso fora da namorada, a bronca da vizinha &#8211; megera estridente inconformada com o som de seu sax (a tentativa de replicar Paul Desmmond em Blue Rondo a la Turk foi at\u00e9 meia noite mesmo?). E, para complicar, o pr\u00f3prio fracasso como encanador. Agora, enquanto n\u00e3o chegava o profissional, era obrigado a fechar o registro geral da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Dormiu mal e cedinho o chefe ao telefone.<\/p>\n<p>-Bom dia, chefe.<\/p>\n<p>-Mau dia, Franco. Teve fuga no Ahu. Oito bandidos cheios de p\u00f3 e anfetamina andam por ai. Dois latrocidas.<\/p>\n<p>-Armados?<\/p>\n<p>-Fac\u00e3o e estoque, mas daqui a pouco arranjam revolver. Mobilize a equipe.<\/p>\n<p>Fez um caf\u00e9 que como sempre n\u00e3o deu certo e entrou no Mustang 69. Preto, joia descolada num picareta que lhe devia um favor. Inseriu um Bud Powell no toca-fitas do carr\u00e3o e acelerou at\u00e9 o Cajuru.\u00a0 L\u00e1 ningu\u00e9m sabia da fuga em massa, da cidade em polvorosa, das fam\u00edlias com medo. Com o escriv\u00e3o em licen\u00e7a-pr\u00eamio, dois agentes jogavam damas, o mais barrigudo acabava de fazer uma rainha.<\/p>\n<p>-Bom-dia, colegas, chama o super pra mim?<\/p>\n<p>-Saiu para ver uma ocorr\u00eancia, doutor.<\/p>\n<p>N\u00e3o acreditou. O superintendente in\u00fatil devia estar se enchendo de ch\u00e1 de gengibre com mel para curar a ressaca. N\u00e3o disse nada e seguiu para a sala de espera, onde quatro cabe\u00e7as se voltaram para ele. O soldado que os conduzia explicou.<\/p>\n<p>-Agress\u00e3o entre cunhados, doutor, com les\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>-Todo mundo na minha sala.<\/p>\n<p>Havia duas cadeiras em frente \u00e3 mesa do doutor. Nelas sentaram o agressor e o agredido, este com olho roxo e grande calombo na testa. As duas testemunhas em p\u00e9.<\/p>\n<p>-Ele me deu uma cabe\u00e7ada, doutor. \u00c0 trai\u00e7\u00e3o \u2013 iniciou o de cabelo loiro escorrido, que se chamava Pedro e falava com forte sotaque da Barreirinha. Sabe como, n\u00e9? Caro\u00e7a, corente, briga de ripa, essas coisas.<\/p>\n<p>-\u00c9 verdade?<\/p>\n<p>-Ele me agrediu primeiro, defendeu-se o neg\u00e3o com cara de babalorix\u00e1. \u2013N\u00e3o tenho de aguentar xingamento em minha casa.<\/p>\n<p>-Xingou ele?<\/p>\n<p>-S\u00f3 disse a verdade. Esse vagabundo me roubou.<\/p>\n<p>-Verdade? Voc\u00ea roubou ele?<\/p>\n<p>-Ia devolver.<\/p>\n<p>-Devolver o que?<\/p>\n<p>-A bacia.<\/p>\n<p>Franco fez ar contrariado..<\/p>\n<p>-Deixa eu entender. Voc\u00eas vieram parar aqui por causa de uma bacia. \u00c9 de ouro?<\/p>\n<p>-\u00c9 da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>O babalorix\u00e1 aproveitou a deixa.<\/p>\n<p>-Mixaria de bacia, doutor. Estava furada, a sogra pediu para eu consertar. Ent\u00e3o teve o problema&#8230;<\/p>\n<p>-Cala a boca!<\/p>\n<p>Fran\u00e7a sentiu que estava na hora de assumir seu papel de majorengo. Com voz de baixo profundo perguntou:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea tem medo de eletricidade, neg\u00e3o?<\/p>\n<p>-Tenho.<\/p>\n<p>-Tenho sim senhor! \u2013 corrigiu Franco com um berro.<\/p>\n<p>-Sim senhor.<\/p>\n<p>-Portanto n\u00e3o quer levar um choque el\u00e9trico nesse rabo preto.<\/p>\n<p>-N\u00e3o senhor.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o me diga que vai devolver a porra da bacia.<\/p>\n<p>-Vou devolver a porra de bacia, doutor.<\/p>\n<p>-E pede desculpa.<\/p>\n<p>-Desculpa, doutor.<\/p>\n<p>-N\u00e3o pra mim. Pede desculpa pro cunhado.<\/p>\n<p>Hesita\u00e7\u00e3o. Fran\u00e7a subiu mais um tom.<\/p>\n<p>-PEDE DESCULPA, CACETE!<\/p>\n<p>-Desculpa, cunhado.<\/p>\n<p>-Que beleza! Agora em ingl\u00eas, porque Curitiba \u00e9 a terra de todas as l\u00ednguas. Diga: ai ame s\u00f3rri.<\/p>\n<p>-Ai ame s\u00f3rri.<\/p>\n<p>-Agora em franc\u00eas. Diga j\u00ea su\u00ed desol\u00ea.<\/p>\n<p>-J\u00ea su\u00ed desol\u00ea.<\/p>\n<p>-Agora em polaco. Diga &#8211; virou para a v\u00edtima &#8211; como \u00e9 que se diz sinto muito em polaco, polaco?<\/p>\n<p>-Tak mi przykro.<\/p>\n<p>-Ouviu? Diga t\u00e1qui mi pisicr\u00f3 pro teu cunhado e amigo.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1qui mi pisicr\u00f3.<\/p>\n<p>-Muito bom. S\u00f3 falta um beijo no olho dele, pra curar o machucado mais depressa.<\/p>\n<p>O babalorix\u00e1 vacilou um pouco, ent\u00e3o delicadamente beijou o olho do cunhado.<\/p>\n<p>-Agora voc\u00ea, polaco.<\/p>\n<p>&#8211; Eu o qu\u00ea, doutor?<\/p>\n<p>-Tua vez de beijar ele. Diga que aceita a desculpa.<\/p>\n<p>O polaco perguntou cauteloso<\/p>\n<p>-Pode ser na testa?<\/p>\n<p>-Beija onde quiser. Depois sumam.<\/p>\n<p>Quando eles sumiram, os tiras abandonaram o tabuleiro de damas. O mais velho perguntou cheio de respeito:<\/p>\n<p>-O doutor trabalha com gerador de manivela?<\/p>\n<p>-\u00c9 meu instrumento de investiga\u00e7\u00e3o preferido, com dois motores de seis volts.<\/p>\n<p>Os dois se olharam. Ele t\u00e1 nos gozando?<\/p>\n<p>-Vou dar mais uma informa\u00e7\u00e3o aos colegas. N\u00e3o gosto de me jactar, mas na Furtos e Roubos meu nome de guerra era Doutor Volts. S\u00f3 de ouvir que o Doutor Volts ia descer para o interrogat\u00f3rio a malandragem come\u00e7ava a dar o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Fez uma pausinha e autorizou.<\/p>\n<p>-Podem espalhar.<\/p>\n<p>Saiu. Antes de dar a partida no carr\u00e3o, trocou a fita de Bud Power pelo tema de Dirty Harry, bom para acelerar pela BR-116 at\u00e9 o Atuba, por onde os fugitivos da Pris\u00e3o Provis\u00f3ria deviam passar daqui a pouco.<\/p>\n<p>Elementar, grande Lalo Schifrin!<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><em>(*) &#8211; Publicado antes na coluna &#8220;Coisas e Gente&#8221;, da velha Ultima Hora de Curitiba<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela segunda-feira de frio e garoa fina, Doc Franco, 32 anos, delegado do 6\u00ba Distrito, tinha motivos para se sentir infeliz. 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