{"id":8339,"date":"2018-10-29T19:58:05","date_gmt":"2018-10-29T19:58:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8339"},"modified":"2018-11-05T15:12:04","modified_gmt":"2018-11-05T15:12:04","slug":"o-carrapicho-e-o-majorengo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=8339","title":{"rendered":"O carrapicho e o majorengo"},"content":{"rendered":"<p>Todos os delegados eram majorengos. Todos os rep\u00f3rteres \u00e9ramos carrapichos.<\/p>\n<p>Todos os majorengos eram doutores. At\u00e9 os que s\u00f3 possuiam t\u00edtulo de gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu, carrapicho, subi os 31 degraus da boate Marrocos, pouco depois da meia noite, e avistei o majorengo em sua mesa de pista. Para ser preciso: em sua mesa cativa de pista. Num segundo atravessei o sal\u00e3o.<\/p>\n<p>-Tudo bem, doutor Miguel?<\/p>\n<p>-Ol\u00e1, pegue um u\u00edsque, respondeu o doutor sem interromper a conversa com a deslumbrante Lacksmi, stripper argentina rec\u00e9m chegada \u00e0 casa, que bebia champanhe Veuve Clicquot.<\/p>\n<p>Sentei e n\u00e3o quis u\u00edsque, mesmo sendo um leg\u00edtimo scotch r\u00f3tulo preto. Pedi uma coca com uma fatia de lim\u00e3o e fiquei esperando a vez de falar. A casa estava lotada porque era estr\u00e9ia do bal\u00e9 portenho. Oficialmente oferecia lugar para 200 pessoas mas, em noites assim, tolerava-se superlota\u00e7\u00e3o em nome do faturamento.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m em nome da solidariedade humana. N\u00e3o era justo deixar bons amigos na garoa fria daquelas noites de junho, jogando conversa fora com o velho Cachimbo, que cumpria ordem \u2013 s\u00f3 entra se algu\u00e9m sair. O mandamento n\u00e3o valia para pol\u00edticos, tiras, carrapichos e amigos do Paulo Wendt, o grande Paulo, o Rei da Noite que trazia astros e estrelas internacionais para a Marrocos, teatro Guaira e clubes sociais.<\/p>\n<p>O gar\u00e7\u00e3o chegou com a coca e um pratinho de amendoim quando Lacksmi foi para o camarim e o doutor se virou:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, qual \u00e9 a manchete?<\/p>\n<p>-Vai dar problema no Diario do Paran\u00e1, doutor. Um gr\u00e1fico furou a grave e v\u00e3o rodar o jornal.<\/p>\n<p>O doutor tinha sido delegado da DOPS, Delegacia de Ordem Pol\u00edtica e Social.<\/p>\n<p>-E voc\u00eas?<\/p>\n<p>-N\u00e3o vai ter distribui\u00e7\u00e3o. Os piquetes fecharam as sa\u00eddas dos caminh\u00f5es.<\/p>\n<p>-Eles t\u00eam direito de distribuir jornal.<\/p>\n<p>-N\u00f3s temos direito de fazer greve. T\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o. O Diario Popular e a Ultima Hora entenderam e n\u00e3o v\u00e3o circular. A Gazeta dispensou todo mundo. A encrenca \u00e9 no Di\u00e1rio.<\/p>\n<p>-Se eu fosse voc\u00eas deixava o jornal sair. O Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a levou uma prensa dos propriet\u00e1rios. T\u00e1 balan\u00e7ando.<\/p>\n<p>-E o doutor?<\/p>\n<p>A bateria do maestro Genesio Ramalho deu um rufo, os pist\u00f5es iniciaram \u201cO Homem do Bra\u00e7o de Ouro\u201d. O majorengo pediu mais gelo no u\u00edsque e falou baixinho.<\/p>\n<p>-O doutor vai assistir ao show.<\/p>\n<p>Peguei minha coca e fui para o fundo do sal\u00e3o, onde estavam os rep\u00f3rteres Ali Chaim, Cem\u00a0Gramas e mais dois que eu n\u00e3o lembrava o nome. Batemos palmas para o bal\u00e9 e mais ainda para Laksmi, cujo strip tease era puro bal\u00e9. A luz mudava, um spotlight jogava luz sobre a artista. Sax, clarineta e flauta tocavam o trecho do bal\u00e9 Bela Adormecida intitulado Varia\u00e7\u00f5es do P\u00e1ssaro Azul. O plateia veio abaixo, um gigolozinho de terno preto e cabelo abotoado gritou:\u201dSucesso!\u201d Terminei a coca e voltei para a frente do Diario do Paran\u00e1 sem boas not\u00edcias.<\/p>\n<p>Nada a fazer. Ainda bem que chegou o lanche \u2013 caf\u00e9 com leite e sanduiches \u2013 feito na casa do Nelson Comel. Algu\u00e9m comparou aquela frugalidade com os fil\u00e9s em bandejas de prata que gar\u00e7ons do Ile de France traziam para os fura-greve. Tomara que tenham indigest\u00e3o.<\/p>\n<p>Os jornais impressos em fardos de cinquenta \u2013 \u201cGreve fracassa!\u201d era o titulo da primeira p\u00e1gina \u2013 foram colocados no caminh\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Amanheceu. Havia dois piquetes, um de cada lado da rua. O caminh\u00e3o come\u00e7ou a sair.<\/p>\n<p>-Senta todo mundo!<\/p>\n<p>Os grevistas sentaram, o caminh\u00e3o parou. A greve ia vencer, quando chegou o Corpo de Bombeiros. Um tenente desceu do caminh\u00e3o vermelho e veio falar com o piquete. V\u00e3o embora, temos ordem de desbloquear a rua. Ordem de quem? Do governo.<\/p>\n<p>Do orelh\u00e3o da esquina avisei os deputados Luiz Alberto Dalcanalle e Leon Naves Barcelos. O secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a tamb\u00e9m foi informado e disse j\u00e1 vou ai. Os vizinhos come\u00e7aram a descer para ver no que dava aquilo. J\u00e1 eram 6 e meia e nada se resolvia. Ent\u00e3o o tenente se irritou.<\/p>\n<p>-Saiam ou passo por cima!<\/p>\n<p>-Ningu\u00e9m sai.<\/p>\n<p>O tenente deu ordem de avan\u00e7ar, o sargento na boleia n\u00e3o avan\u00e7ou. Transtornado, o tenente disse saia da\u00ed e assumiu o caminh\u00e3o. Botou uma primeira e veio vindo. Os deputados gritaram: \u201c\u00c9 assassinato!\u201d Um morador correu e sentou na rua ao lado dos grevistas. O tenente continuou avan\u00e7ando. A trag\u00e9dia era inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, do nada, surgiu o doutor Miguel. Palet\u00f3 aberto, 38 na cintura, subiu no degrau do caminh\u00e3o e ordenou: \u201cPare, tenente, ou te prendo agora!\u201d<\/p>\n<p>O tenente parou. Parecia aliviado com a ordem. Os deputados \u2013 agora havia outros \u2013 deram parab\u00e9ns ao militar porque n\u00e3o se mata irm\u00e3o trabalhador, o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a apareceu e defendeu o entendimento. Por um buraco no muro dos fundos, os fura-greve come\u00e7aram a transportar jornais. Uns 200 chegaram \u00e0s bancas, onde foram empilhados ao lado do jornal \u201cA Greve\u201d, impresso na m\u00e1quina do Di\u00e1rio Popular. O propriet\u00e1rio Abdo Aref Kudri emprestou a chave da gr\u00e1fica ao comando da greve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os delegados eram majorengos. Todos os rep\u00f3rteres \u00e9ramos carrapichos. Todos os majorengos eram doutores. At\u00e9 os que s\u00f3 possuiam t\u00edtulo de gradua\u00e7\u00e3o. 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