{"id":6517,"date":"2016-07-27T07:06:48","date_gmt":"2016-07-27T07:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=6517"},"modified":"2016-07-27T17:05:08","modified_gmt":"2016-07-27T17:05:08","slug":"o-julio-se-foi-a-ideia-ficou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=6517","title":{"rendered":"O Julio se foi, ficou a ideia"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_6519\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/julio-gomel-lar-bom-caminho.jpg\"  rel=\"lightbox[6517] attachment wp-att-6519\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6519\" class=\"size-full wp-image-6519\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/julio-gomel-lar-bom-caminho.jpg\" alt=\"jkjkjkj\" width=\"448\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/julio-gomel-lar-bom-caminho.jpg 448w, https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/julio-gomel-lar-bom-caminho-300x215.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6519\" class=\"wp-caption-text\"><em>.Julio Gomel (1931 &#8211; 2016)<\/em><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano passado, o m\u00e9dico Julio Gomel foi at\u00e9 o Video 1 para gravar um <a href=\"http:\/\/memoriasparana.com.br\/julio-rapahel-gomel-2016\/\">depoimento<\/a>, a pedido do Luiz Renato Ribas. J\u00e1 estava doente. Dormia pouco e mal; passava o dia cansado. Mas entrou no pequeno est\u00fadio e falou durante 60 minutos. Agora, depois de sua morte, ao assistir ao v\u00eddeo vejo que Julio estava nos entregando seu legado de \u00e9tica profissional, de compromisso com os carentes e de lealdade com os amigos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poucos entenderam Curitiba t\u00e3o bem &#8211; a peculiar condi\u00e7\u00e3o de uma cidade com fama de rica habitada por gente muito pobre. Da capital com pose cosmopolita atada a preconceitos da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso se deve, em boa parte, ao pai Davi, imigrante turco que chegou em 1920, ao encontro do irm\u00e3o Benjamin, que vindo em 1911. Eram judeus sefaradim, cujos antepassados viveram s\u00e9culos na Peninsula Ib\u00e9rica. Cultos, poliglotas, falavam grego, ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol. Traziam o gosto pela conviv\u00eancia calorosa em fam\u00edlias onde as mulheres tinham nomes rom\u00e2nticos como Linda, a m\u00e3e deles, Alegre, a irm\u00e3, e Felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Julio estudou na Escola Americana, de Belmiro Cezar, do Col\u00e9gio Estadual, e da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paran\u00e1. Formado, conseguiu uma vaga como residente na cl\u00ednica de urologia do Hospital do Servidor P\u00fablico do Rio de Janeiro, dirigida pelo professor Guerreiro de Faria, o maior especialista dos anos 1950.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que ficou famoso. Atendeu, na emerg\u00eancia, o vice-presidente da Rep\u00fablica, Jo\u00e3o Goulart, que sofria crise renal aguda. Ap\u00f3s 14 dias Jango teve alta. Gostou tanto do profissionalismo daquele m\u00e9dico curitibano de quem ficou amigo que pediu ao presidente Juscelino Kubitschek um emprego para ele no SAMDU.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1957, Gomel foi trabalhar no posto de sa\u00fade de Duque de Caxias, regi\u00e3o pobre e violenta do Estado do Rio. N\u00e3o era uma unidade com grandes recursos. Muitos partos eram realizados na ambul\u00e2ncia. Balas de calibres variados alojavam-se no corpo dos pacientes. Quando era grave, a ambul\u00e2ncia tentava chegar at\u00e9 os hospitais da cidade. M\u00e9dicos, doentes e as fam\u00edlias criavam entre eles elos de solidariedade que nascem do conv\u00edvio intenso e da supera\u00e7\u00e3o de todo tipo de car\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um m\u00e9dico n\u00e3o pode separar a atividade profissional dos problemas sociais<\/strong>, ensina Julio no v\u00eddeo. Sem entender a doen\u00e7a da sociedade ningu\u00e9m salva o doente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era um inventor. Inventava amigos por toda parte. Exerceu uma lideran\u00e7a desinteressada, feliz, bem humorada, que atraia todos para participar de seus projetos. Um dia me ofereceu um dos duzentos t\u00edtulos de imagin\u00e1rio clube de nata\u00e7\u00e3o que ele e o empres\u00e1rio Berek Kriger desejavam criar para colocar Curitiba no mapa do esporte brasileiro. Era um castelo no ar. Mas ningu\u00e9m se arrependeu de ficar dono de uma cota do Clube do Golfinho, que logo virou realidade, com arquibancada, sede social, gin\u00e1sio, tr\u00eas piscinas &#8211; uma de 50 metros, um luxo, na Cruz do Pilarzinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Golfinho criou a rotina das cl\u00ednicas de nata\u00e7\u00e3o com professores estrangeiros.\u00a0 A garotada come\u00e7ou a ganhar competi\u00e7\u00f5es enfrentando as equipes do Curitibano, Circulo Militar, Cefet. E tamb\u00e9m as de fora &#8211;\u00a0 Fluminante, Paulistano, Minas Tenis Clube.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o Lar Bom Caminho foi diferente. A entidade assistencial j\u00e1 existia, dirigida por um oficial reformado, que cuidava de rapazes at\u00e9 a hora do servi\u00e7o militar. Imaginava que ali conseguiriam uma carreira, um curso de sargento, uma aposentadoria como oficial. O grupo de m\u00e9dicos que Julio Gomel reuniu pensava em necessidades mais urgentes. Centenas de rec\u00e9m-nascidos com problemas herdados de pais pobres, muitos com problemas na Justi\u00e7a. Eram doen\u00e7as dif\u00edceis de tratar. Como salvar um beb\u00ea filho de m\u00e3e com s\u00edfilis ou HIV, sem acesso aos grandes hospitais?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deu certo. Vieram mais m\u00e9dicos, equipes de apoio e doadores. As hist\u00f3rias vividas no Lar d\u00e3o roteiro de cinema. Provam que coopera\u00e7\u00e3o funciona e generosidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma palavra para enfeitar discurso. Um pouco de criatividade ajuda. Surgiu o Jantar das Estrelas que, durante 17 anos, reuniu no Curitibano famosos chefs da cozinha. Sem cobrar nada, elas produziam jantares de gala e levantavam recursos para fortalecer o or\u00e7amento do Lar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Houve doa\u00e7\u00f5es improv\u00e1veis, como a do jornalista Candido Gomes Chagas &#8211; um cara temido pelas brigas com pol\u00edticos sustentadas pela revista Paran\u00e1 em P\u00e1ginas, com fama de mal humorado. Quem podia imaginar que Candinho tinha um grande cora\u00e7\u00e3o? Julio sabia, tanto que n\u00e3o se surpreendeu ao ser informado, com a morte de Candido, que ele havia doado grande parte de seu dinheiro ao Lar Bom Caminho. Justamente numa hora em que a institui\u00e7\u00e3o passava dificuldade com a chegada da primeira onda de crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O momento \u00e9 dif\u00edcil. No meio de tantos problemas, com a crise econ\u00f4mica que parece n\u00e3o ter fim, como encontrar gente como Julio Gomel para assumir as a\u00e7\u00f5es de que a sociedade precisa? Outro atleticano fan\u00e1tico capaz de fazer amizade profunda com o coxa-branca Evangelino Neves? Outro m\u00e9dico disposto a atender de gra\u00e7a os jogadores do rubro-negro &#8211; e os amigos deles de outros clubes tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez a solu\u00e7\u00e3o seja mais uma vez chamar os chefs, convocar a cidade para um novo Jantar das Estrelas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m \u00e9 humanit\u00e1rio de est\u00f4mago vazio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. &nbsp; &nbsp; &nbsp; . . &nbsp; No ano passado, o m\u00e9dico Julio Gomel foi at\u00e9 o Video 1 para gravar um depoimento, a pedido do Luiz Renato Ribas. J\u00e1 estava doente. 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