{"id":2837,"date":"2014-01-28T20:35:27","date_gmt":"2014-01-28T20:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=2837"},"modified":"2014-01-30T04:27:02","modified_gmt":"2014-01-30T04:27:02","slug":"milton-cavalcanti-e-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=2837","title":{"rendered":"Milton Cavalcanti e eu, picaretas provis\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<p>.<br \/>\n<div id=\"attachment_2840\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/milton-cavalcanti-carlos-andrade-e-gerson-bientinez1.jpg\" rel=\"lightbox[2837]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2840\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/milton-cavalcanti-carlos-andrade-e-gerson-bientinez1.jpg\" alt=\"vbvbvbv\" width=\"480\" height=\"562\" class=\"size-full wp-image-2840\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2840\" class=\"wp-caption-text\"><em>Milton Cavalcanti com Carlos Andrade, no Caf\u00e9 da Boca<\/em>.<\/p><\/div><br \/>\n.<br \/>\n.<\/p>\n<p>O hotel de Barbosa Ferraz era de madeira, sem pintura. Pelo lado de fora, uma escada estreita levava ao pavimento superior. No quartinho, ao lado da cama, uma tampa de doce de leite servia de casti\u00e7al para a vela que a dona me entregava. Madeira + vela = inc\u00eandio. <\/p>\n<p>-N\u00e3o preciso vela.<\/p>\n<p>-Todo mundo precisa vela. A luz evita o barbeiro.<\/p>\n<p>-Barbeiro?<\/p>\n<p>-O bicho barbeiro. Tem um ali na parede, t\u00e1 vendo? Mas ele s\u00f3 morde no escuro.<\/p>\n<p>Fui dormir no banco de tr\u00e1s do Fusca do Aristeu. No escuro. No calor. Sem bicho barbeiro. <\/p>\n<p>Aristeu Brandespin era o dono da revista NP \u2013 Norte do Paran\u00e1, que nos levava, o Milton Cavalcanti e eu, para mais uma viagem ao Noroeste, onde v\u00e1rias cidades rec\u00e9m-criadas comemoravam anivers\u00e1rio. A da vez era Umuarama, nascida em 1955, que festejava dez anos.<\/p>\n<p>A data merecia um caderno especial \u2013 mat\u00e9ria paga \u2013 no pr\u00f3ximo n\u00famero. Uma \u201cedi\u00e7\u00e3o maravilhosa\u201d, na g\u00edria dos picaretas. N\u00e3o adianta negar, \u00e9ramos picaretas. Mas picaretas circunstanciais, transit\u00f3rios, desempregados pelo golpe de 64, que ceifou a reda\u00e7\u00e3o da Ultima Hora. <\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, como um anjo, surgiu o Aristeu.<\/strong> Precisava de quem escrevesse as reportagens especiais. N\u00f3s. Milton conhecia hist\u00f3ria e economia paranaense, escrevia bem, fotografava com compet\u00eancia, sabia revelar filmes e usar o ampliador. Para completar, dominava a arte da diagrama\u00e7\u00e3o, que aprendeu com Marcel Leite no antigo O Dia. Eu escrevia depressa e precisava ganhar dinheiro. Formamos uma equipe m\u00ednima, completada pelo Miguel, motorista japon\u00eas com fama de maluco.<\/p>\n<p>Naquelas estradas sem asfalto e com muita areia solta n\u00e3o havia ningu\u00e9m melhor que o nosso Miguel. Ao chegar no alto do morro mandava a gente descer e seguir a p\u00e9. Acelerava, entrava no arei\u00e3o a cem por hora tentando manter as rodas longe dos sulcos deixados pelas rodas dos caminh\u00f5es. \u00c0s vezes conseguia \u2013 e segu\u00edamos viagem. \u00c0s vezes o carro ficava naquele mar de areia e os tr\u00eas empurr\u00e1vamos. <\/p>\n<p>Se fracass\u00e1ssemos, o jeito era esperar o \u00f4nibus. Os passageiros desciam e tiravam o Fusca do atoleiro. Ou a viagem deles n\u00e3o prosseguia, porque a estrada s\u00f3 dava passagem a um ve\u00edculo de cada vez.<\/p>\n<p>No fim do dia seguinte, chegamos a Umuarama, pouco mais de dez mil eleitores e uma pra\u00e7a principal que resumia a cidade. O Aristeu foi falar com o prefeito, com quem tinha combinado a mat\u00e9ria paga. Tinha cr\u00e9dito para isso. Em 1957, fora o publisher da famosa Maring\u00e1 em Revista, cujos exemplares circulavam de prefeitura em prefeitura por todo o Norte, como modelo de documento bem feito sobre a vida de uma cidade e de seus pioneiros. <\/p>\n<p>A conversa com o prefeito s\u00f3 tinha um aspecto perigoso. E se ele mandasse fotografar uma ponte no distrito de Perobal? Ou em Lovat? Ou na Serra dos Dourados? Era mais calor, arei\u00e3o e um dia de atraso no trabalho. Felizmente as obras escolhidas estavam todas na sede. <\/p>\n<p><strong>Cavalcanti j\u00e1 sabia onde era o japon\u00eas.<\/strong> Em todas as cidades do norte, sem falhar uma s\u00f3, um japon\u00eas dominava o mercado fotogr\u00e1fico e concordava em alugar as cubas e o ampliador por algumas horas. <\/p>\n<p>De manh\u00e3 cedo, Milton, Aristeu e o prefeito foram visitar a cidade; eu fiquei com o Secret\u00e1rio da Prefeitura, que tinha os n\u00fameros, os custos e sabia a import\u00e2ncia de cada mata-burro conclu\u00eddo. \u00c0 tarde, gravamos uma entrevista com o prefeito no meu Sony de carretel e fui com a Lettera 22 para uma sala dos fundos do hotel, a nossa reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 madrugada, a edi\u00e7\u00e3o maravilhosa come\u00e7ou a ser diagramada. Estilo revista Manchete, com grandes fotos sangradas, t\u00edtulos em corpo 72, chamadinhas em corpo 24. <\/p>\n<p>L\u00e1 pelas 7 da manh\u00e3 estava pronto o caderno. Fomos tomar caf\u00e9 com o Aristeu, que examinou o material, achou bom e pediu mais fotos para trocar se fosse necess\u00e1rio. <\/p>\n<p>N\u00e3o foi. O prefeito aprovou tudo, menos as 16 paginas. Ficava muito caro. Milton voltou para o laborat\u00f3rio, produziu novas fotos e tudo foi rediagramado em 12 p\u00e1ginas. Ficou um pouco menos com cara de Paris Match, mas estava bonito. Mais do que bonito \u2013 era um informe honesto e real, sem adjetivos e adv\u00e9rbios. Mais um documento sobre o Norte, o novo Paran\u00e1 que explodia de tanto caf\u00e9 e tinha em Londrina o terceiro aeroporto mais movimentado do Brasil, depois de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O Milton aproveitou o Norte. Consolidou no cafezal e no arei\u00e3o o que aprendera nos relat\u00f3rios da Codepar, depois Badep. Tornou-se um jornalista importante para a Revista Paranaense do Desenvolvimento e outras publica\u00e7\u00f5es do Governo. Nascido em Pernambuco, criado na Bahia, poucos contribu\u00edram como ele para entender a explos\u00e3o econ\u00f4mica da cafeicultura e os dilemas estrat\u00e9gicos do desenvolvimento paranaense.<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. . . O hotel de Barbosa Ferraz era de madeira, sem pintura. Pelo lado de fora, uma escada estreita levava ao pavimento superior. 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