{"id":1842,"date":"2013-09-23T19:17:26","date_gmt":"2013-09-23T19:17:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=1842"},"modified":"2013-09-23T19:22:28","modified_gmt":"2013-09-23T19:22:28","slug":"sao-os-tempos-o-rei-das-sedas-imperador-dos-precos-virou-marisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=1842","title":{"rendered":"S\u00e3o os tempos. O Rei das Sedas, Imperador dos Pre\u00e7os, virou Marisa"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1843\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Lojas-Marisa.jpg\" rel=\"lightbox[1842]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1843\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Lojas-Marisa.jpg\" alt=\"marisa\" title=\"Lojas Marisa\" width=\"800\" height=\"533\" class=\"size-full wp-image-1843\" srcset=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Lojas-Marisa.jpg 800w, https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Lojas-Marisa-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1843\" class=\"wp-caption-text\"><em>A loja foi construida para a alta burguesia de Curitiba; hoje atende a classe C.<\/em><\/p><\/div>\n<p>.<br \/>\nDo sofisticado Louvre, Rei das Sedas, Imperador dos Pre\u00e7os, restaram a escadaria, os vitrais e talvez os lustres. N\u00e3o garanto os lustres. A loja era uma das gl\u00f3rias de Curitiba nos anos 50, conforme atesta a cr\u00f4nica de Francisco Brito de Lacerda, que destaca, ali naquela quadra da Rua 15, o Bar Paran\u00e1. Hoje transformou-se em Lojas Marisa, uma rede que cresceu no interior de S\u00e3o Paulo com foco na classe C.<\/p>\n<p>&#8220;Na Rua Quinze, entre Marechal e Monsenhor Celso, lado esquerdo de quem sobe, havia um bonito sobrado, propriedade do comerciante Miguel Calluf; a parte de cima abrigava o Instituto de M\u00fasica Messing; no t\u00e9rreo, com porta de vaiv\u00e9m, lembrando filme de mocinho, estava o famoso Bar Paran\u00e1, que ali funcionou de 37 a 64, vizinho do Pal\u00e1cio do Com\u00e9rcio (ent\u00e3o sede do Centro Acad\u00eamico de Direito, depois Hugo Simas) e da pequena Chapelaria Central, que fechou por falta de freguesia, sem falar no Louvre (&#8220;rei das sedas, imperador dos pre\u00e7os&#8221;), tamb\u00e9m dos Calluf.<\/p>\n<p>Por imposi\u00e7\u00e3o do &#8220;milagre&#8221; urbano, ali quase tudo se refun-diu; do antigo Louvre sobrou a escadaria de m\u00e1rmore; foram-se as sacadinhas do Pal\u00e1cio do Com\u00e9rcio, de onde se podia apreciar, todas as tarde, as Leatrices e Raqu\u00e9is descendo a Rua Quinze.<\/p>\n<p>Os elogios \u00e0 comida e ao ambiente do bar, que os antigos habitu\u00eas ainda apregoam, n\u00e3o t\u00eam fim.<\/p>\n<p>Linguado \u00e0 milanesa, seguido de moranguinhos com nata, ningu\u00e9m fez melhor. A sopa h\u00fangara,um man\u00e1; alguns copiaram sua receita (\u00e1gua da fonte, fil\u00e9 mignon, leite, batatinhas, sal e pimenta), mas nem um conseguiu fazer nada igual. O poeta Ant\u00f4nio Salom\u00e3o, mem\u00f3ria de anjo, diz que o mist\u00e9rio da sopa h\u00fangara tinha v\u00ednculo com certo tempero tcheco; o nome e endere\u00e7o dos fabricantes, por mais que se procurasse, nunca foi achado.<\/p>\n<p>O dono e fundador foi o alem\u00e3o Walter, maitre por voca\u00e7\u00e3o, cozinheiro invej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das iguarias que inventava, Walter dispunha de alv\u00edssimas toalhas, lou\u00e7a e talheres de primeira, mobili\u00e1rio de bom gosto.<\/p>\n<p>No balc\u00e3o de entrada, \u00e0 direita, o retrato de um trem na Serra do Mar, \u00e0 beira do precip\u00edcio, soltando fuma\u00e7a pela chamin\u00e9; de t\u00e3o bem focalizado, o trem do retrato s\u00f3 faltava apitar.<\/p>\n<p>Restaurante que se preza carece de bons gar\u00e7ons; o Bar Paran\u00e1 tinha os veteranos Filippe (af\u00e1vel, bom ouvinte, alem\u00e3o como o dono) e o brasileiro Eloy, louco por roleta, ass\u00edduo visitante do Cassino Ah\u00fa.<\/p>\n<p>Em 55, dinheiro sobrando, resultado de anos e anos de trabalho, Walter decidiu rever sua cidade natal, na Alemanha.<br \/>\nNem bem desembarcou, teve um treco e morreu do cora\u00e7\u00e3o. A vi\u00fava baldeou seu corpo para Curitiba, passando o restaurante, depois, ao catarinense Evil\u00e1sio, que manteve a boa fama do estabelecimento uns oito, nove anos, at\u00e9 a demoli\u00e7\u00e3o do sobrado.<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia alta comparecia aos domingos, depois da missa no Bom Jesus.<\/p>\n<p>Em dias de semana, era comum a presen\u00e7a do lend\u00e1rio capit\u00e3o Manoel Aranha, acompanhado de Jofre Cabral e Ab\u00edlio Ribeiro.<br \/>\nManoel Aranha presidia longas reuni\u00f5es, regadas a chope escuro (o melhor de Curitiba), varando a tarde, de prefer\u00eancia quando o Atl\u00e9tico atravessava fases cr\u00edticas.<br \/>\nCa\u00e7oando desses encontros, diziam os coxas que o Atl\u00e9tico s\u00f3 vai bem quando em crise.<\/p>\n<p>De vez em vez, sob efeito do tal chope escuro, o jornalista Dic\u00e9sar Plaisant pronunciava grandes discursos de desafio \u00e0 ditadura,- chamava o interventor Manoel Ribas de &#8220;energ\u00fameno, murnu, esbirro de Gel\u00falio&#8221;. Se crescia a eloqu\u00eancia do orador, a ponto de assustar certos frequentadores, o gar\u00e7om Filippe, am\u00e1vel conselheiro, punha-o menos agressivo.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Salom\u00e3o, o poeta, garante que n\u00e3o h\u00e1 saudosismo nas lembran\u00e7as do Bar Paran\u00e1. &#8220;S\u00f3 Deus sabe como eram bons aqueles tempos&#8221;, diz.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. Do sofisticado Louvre, Rei das Sedas, Imperador dos Pre\u00e7os, restaram a escadaria, os vitrais e talvez os lustres. N\u00e3o garanto os lustres. 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