{"id":11791,"date":"2026-08-28T02:41:42","date_gmt":"2026-08-28T02:41:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=11791"},"modified":"2026-08-28T14:44:28","modified_gmt":"2026-08-28T14:44:28","slug":"um-carioca-no-comando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=11791","title":{"rendered":"Um carioca no comando"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/King-of-Rio.jpg\" rel=\"lightbox[11791]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"148\" height=\"148\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/King-of-Rio.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11792\" style=\"width:251px;height:auto\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faltam 9 minutos para acabar o jogo da Copa Sul-Minas em Vila Capanema. Luciano entra na \u00e1rea e faz mais um gol, o sexto do Paran\u00e1 contra apenas um do Coritiba. Estamos no dia 6 de abril de 2002, o t\u00e9cnico do Coxa \u00e9 Joel Santana e a torcida deles grita entusiasmada: \u201dFica, Joel! Fica, Joel!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior goleada de um Paratiba, que era o apelido do cl\u00e1ssico. Agravada pela circunst\u00e2ncia de o Paran\u00e1 jogar com um time misto, preocupado que estava com a disputa da Copa do Brasil. Dali a alguns dias ia enfrentar o Corinthians pelas quartas de final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro tempo at\u00e9 que estava equilibrado, mas aos 40 e 43 minutos, Adriano Chuva, um ga\u00facho grand\u00e3o (1m86) marcou dois gols \u2013 o segundo aproveitando a defesa desarvorada do Coritiba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na volta do intervalo, um fio de esperan\u00e7a: Lima foi l\u00e1 e fez 2 a 1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esperan\u00e7a v\u00e3. Logo, no intervalo de cinco minutos, Luciano, Leandro Alves e Marquinhos marcaram para o Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFica, Joel! Fica, Joel!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ficha T\u00e9cnica<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Paran\u00e1 6 x 1 Coritiba<\/strong><br>06\/04\/2002<br>Copa Sul-Minas<br>Vila Capanema<br><br><strong>Paran\u00e1:&nbsp;<\/strong>Neneca; Fabinho, Xand\u00e3o e Ageu; Lu\u00eds Paulo (Marcelo Santos), Leandro Alves, Marquinhos (Junior), C\u00e9sar Romero e Na\u00edlton; Adriano Chuva (Valdir) e Luciano. T\u00e9cnico: Paulo Bonamigo.<br><br><strong>Coritiba:<\/strong>&nbsp;Wellerson; Tiago, Allan e M\u00e1rcio Costa; Reginaldo Ara\u00fajo, Reginaldo Nascimento, S\u00e9rgio Manoel, Evair (Lima) e Bad\u00e9; Li\u00e9dson e Da Silva. T\u00e9cnico: Joel Santana<br><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A torcida volta a p\u00e9 para o centro. Camisas do Paran\u00e1 e do Coritiba misturam-se na Rua Jo\u00e3o Negr\u00e3o. Um tempo bom, em que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de decidir na porrada qualquer jogo de futebol. Nem mesmo em caso de goleada, uma vez que os advers\u00e1rios respeitosamente comentam trivialidades futebol\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O s\u00e1bado negro demora para passar. Na manh\u00e3 do domingo, a diretoria se reune e demite Joel Santana. Tinha comandado o time em 16 partidas com 6 vit\u00f3rias, 2 empates e 8 derrotas. Paulo Bonamigo, t\u00e9cnico do Paran\u00e1, aceita sem piscar o convite para substituir Joel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Corta para 19 de dezembro do ano anterior. Est\u00e1 chegando ao aeroporto Afonso Pena Joel Natalino Santana. \u201cEu e o Coritiba estamos no maior amor\u201d, disse ao rep\u00f3rter Caio Castro Lima, da Gazeta do Povo. \u201c\u00c9 o in\u00edcio de um amor eterno\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia do amor eterno entre um clube e seu t\u00e9cnico \u00e9 no m\u00ednimo discut\u00edvel. Joel chegava para ser o 121\u00ba treinador na hist\u00f3ria do Coxa, um clube de 82 anos. Um t\u00e9cnico a cada oito meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Domingos Moura, secret\u00e1rio do Conselho Administrativo, que foi receber Joel no aeroporto, explica \u00e0 imprensa que ele, o Papai Joel, \u00e9 assim mesmo: amigo de todos, elogios em todas as dire\u00e7\u00f5es, at\u00e9 para o Atl\u00e9tico, que completou uma \u00f3tima campanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Natalino est\u00e1 no registro de nascimento porque ele vai completar 53 anos no dia 25. Nasceu no dia de Natal, como o ator Humphey Bogart, aquele de Casablanca. Como o craque Jairzinho, o furac\u00e3o da Copa do M\u00e9xico, dois anos mais velho. E como sir Isaac Newton, aquele que ensinou: \u201cPara cada a\u00e7\u00e3o h\u00e1 sempre uma rea\u00e7\u00e3o igual e em sentido contr\u00e1rio\u201d. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro do gramado fez hist\u00f3ria. Crac\u00e3o do Vasco da Gama, Joel Santana comandava a defesa pensando na terceira Lei de Newton um pouco simplificada: bateu, levou. E algumas vezes nem bateu, mas levou assim mesmo para n\u00e3o se meter a entrar na \u00e1rea do Gigante da Colina. Vai armar no meio campo, malandrinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joel era o dono da \u00e1rea desde o in\u00edcio da carreira no Olaria. Muito pobre, n\u00e3o arranjou dinheiro para comprar chuteiras e foi fazer a peneira descal\u00e7o. Tinha 1m85, muita impuls\u00e3o. Passou, entrou no time e chamou aten\u00e7\u00e3o dos grandes clubes. Em 1969 estava no Vasco junto com Miguel, tamb\u00e9m de Olaria. Inquietante dupla de zaga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante quatro anos foi o dono da \u00e1rea do Vasco da Gama, culminando a carreira de jogador em um inesquec\u00edvel Vasco 2 X Santos 1 em que marcou Pel\u00e9. A Rei fez um gol, e s\u00f3. \u201cFui muito bem marcado\u201d. Em 1974 o Vasco da Gama, azar\u00e3o entre os quatro finalistas \u2013 os outros eram Cruzeiro, Santos e Internacional \u2013 conquistou seu primeiro t\u00edtulo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa \u00e9poca de boemia, Joel se cuidava. Pensava no futuro. Enquanto jogava pelo Vasco passou no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde obteve diploma em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. Depois do Vasco foi jogar no Am\u00e9rica de Natal. Os companheiros diziam que ele era um t\u00e9cnico dentro do campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aposentou-se e iniciou uma carreira vitoriosa nos Emiratos \u00c1rabes Unidos. Tricampeonato pelo Al Wasl (1982, 1983 e 1985), campe\u00e3o saudita pelo Al-Hital (1987-1990). Na d\u00e9cada de 90, um feito hist\u00f3rico: Joel Santana conseguiu ser campe\u00e3o carioca por tr\u00eas grandes clubes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Vasco, conquistou o bicampeonato carioca (1992 e 1993) e a Copa Ouro da CONMEBOL (1993). No Fluminense foi campe\u00e3o de 1995, com o famoso gol de barriga de Renato Gaucho no Fla-Flu decisivo. No Flamengo, faturou o Campeonato de 1996. Invicto. No Botafogo, campe\u00e3o carioca de 1997. Em 2000, de novo no Vasco, campe\u00e3o brasileiro e vencedor da Copa Mercosul, em virada hist\u00f3rica de 4 a 3 em cima do Palmeiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ganhou um novo apelido: Rei do Rio. O Coritiba n\u00e3o estava contratando qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive um amigo chamado, vamos dizer, Nat\u00e1lio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tinha casado tr\u00eas vezes, estava solteiro de novo. As tias diziam: \u201cO Tat\u00e1, n\u00e3o tem sorte no casamento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o que o Tat\u00e1 fosse pobre. Tinha um belo emprego e administrava bem o que herdara da tia rica e sem filhos. N\u00e3o era burro, n\u00e3o tinha mau h\u00e1lito. Sabia dan\u00e7ar, andava de moto, ia aos bares da moda, saia com garotas bonitas, casava e n\u00e3o dava certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma terapeuta mandou Tat\u00e1 focar em si mesmo. Sugeriu v\u00e1rios livros, palestras, grupos de conversa. Apareceu a Armadilha da Desconfian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, mas eu n\u00e3o sou desconfiado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pense. A Armadilha da Desconfian\u00e7a j\u00e1 pegou muitos amigos seus &#8211; \u00e9 uma ferida emocional. Voc\u00ea acredita que outros v\u00e3o lhe causar dor, trai\u00e7\u00e3o ou abuso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca desconfiei delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pense de novo. Isso come\u00e7a na inf\u00e2ncia por abuso, voc\u00ea ver os pais brigarem. A\u00ed o cara fica hiper vigilante, vive testando o parceiro, sem querer sabota o relacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entendi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tat\u00e1 n\u00e3o casou de novo.&nbsp; Mas pegou a terapeuta e teve uma bela rela\u00e7\u00e3o amorosa com ela. Longa e equilibrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tat\u00e1 n\u00e3o era muito coxa, nem gostava muito de futebol. Estava mais para games e cinema de arte. Entra na hist\u00f3ria para explicar a psicologia da torcida. Sua persona resumia a massa alviverde em 2000, tra\u00edda por t\u00e9cnicos que assinavam por uma fortuna e bastava ganhar tr\u00eas em seguida para correrem atr\u00e1s de convite de clubes do Rio, de S\u00e3o Paulo, de Minas ou do Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joel Santana chegou e come\u00e7ou uma s\u00e9rie invicta. Cinco jogos. Ent\u00e3o perdeu a primeira. E a segunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na social, um conselheiro desconfiou do motivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">-T\u00e1 querendo ser mandado embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro concordou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">-Conversou ontem com o empres\u00e1rio. Acho que mandou sinalizar que vai estar livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a Armadilha da Desconfian\u00e7a. Pegou forte entre diretores, conselheiros e torcedores do Coritiba por causa do Ivo Wortmann. Todos se lembravam da cachorrada (o termo ouvi na arquibancada) de Wortmann no ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00e9cnico ga\u00facho chegou ao Coritiba com 40 anos e pouca experi\u00eancia em times da primeira divis\u00e3o. Tinha a seu favor um t\u00edtulo mundial obtido com a sele\u00e7\u00e3o sub-16 da Ar\u00e1bia Saudita, que venceu a Esc\u00f3cia na final. E, em desfavor, as den\u00fancias jamais comprovadas de que aquele time estava cheio de gatos. Jogadores barbudos, com corpo de 20 anos passavam-se por garotos de 16, gra\u00e7as a certid\u00f5es de idade fornecidas pelo estado \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas fez um excelente trabalho no Coritiba. Levou a equipe \u00e0s semifinais da Copa do Brasil, implantou um esquema 3-5-2 elogiado pela cr\u00edtica esportiva e disputava o Brasileiro, quando recebeu uma proposta do Cruzeiro. Nem piscou: foi embora sem dizer adeus, deixou a diretoria do Coxa abandonada. A torcida n\u00e3o teve d\u00favida: traidor, rasgou o contrato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Cruzeiro, as coisas n\u00e3o correram bem e, no final de 2001, eis o Ivo Wortmann de novo no Coxa. Finda a temporada, discutia com a diretoria modifica\u00e7\u00f5es do elenco para o ano seguinte quando chegou um convite do Internacional. N\u00e3o teve d\u00favida, mandou-se para Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dupla trai\u00e7\u00e3o instalou na alma dos coxas a Armadilha da Desconfian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As derrotas que o Joel Santana estava sofrendo eram o gatilho (pergunte ao Google terapeuta o que \u00e9 gatilho) para novo surto de desconfian\u00e7a. Come\u00e7ou na diretoria, espalhou-se pela social, contaminou a arquibancada, a Curva do Amendoim e o bar do esquenta, na Rua Am\u00e2ncio Moro. Adeus, Joel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joel foi para o Vit\u00f3ria, onde ganhou o Campeonato Baiano de 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>P.S. &#8211; Do livro COXA &#8211; Desde que a Bola \u00e9 Bola, em constru\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faltam 9 minutos para acabar o jogo da Copa Sul-Minas em Vila Capanema. Luciano entra na \u00e1rea e faz mais um gol, o sexto do Paran\u00e1 contra apenas um do Coritiba. 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