{"id":10612,"date":"2022-04-07T06:44:05","date_gmt":"2022-04-07T06:44:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10612"},"modified":"2022-04-08T01:00:21","modified_gmt":"2022-04-08T01:00:21","slug":"o-dia-em-que-nao-quis-conhecer-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10612","title":{"rendered":"O dia em que n\u00e3o quis fazer uma visita e trocar ideias com Lygia Fagundes Telles"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_10613\" style=\"width: 194px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/as-meninas.jpg\" rel=\"lightbox[10612]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10613\" class=\"size-full wp-image-10613\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/as-meninas.jpg\" alt=\"ghghg\" width=\"184\" height=\"273\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10613\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cada capa de Eug\u00eanio Hirscht \u00e9 uma obra prima. Nesta parece que ele caprichou ainda mais.<\/em><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Avalio a repercuss\u00e3o da morte de Lygia Fagundes Telles com certo desapontamento. Esperava muita como\u00e7\u00e3o. Cada brasileiro com curso secund\u00e1rio completo tem obriga\u00e7\u00e3o de chorar essa perda. Morreu uma mestra da literatura, a autora traduzida em quinze l\u00ednguas que todo ano est\u00e1 no Enem, a escritora que combinou o feminino com o pol\u00edtico naquele momento de medo nacional e n\u00e3o teve medo \u2013 mergulhou com for\u00e7a nas personagens que inspiravam um mundo novo, onde as mulheres s\u00e3o capazes de tudo em todas as \u00e1reas. At\u00e9 de vencer uma ditadura.<\/p>\n<p>O romance \u201cAs Meninas\u201d, de 1973, tinha algum tipo de parentesco com \u201cO Grupo\u201d, de Mary McCarthy, publicado dez anos antes, e vinte e quatro meses na lista de mais vendidos do New York Times, pela tem\u00e1tica e principalmente pelo frescor, a intelig\u00eancia, a valentia do texto. \u00a0Ignorei que Lygia n\u00e3o enfrentou a ferocidade dos cr\u00edticos como aconteceu com \u201cO Grupo\u201d. Norman Mailer disse que aquilo n\u00e3o passava de &#8220;um romance trivial escrito por uma mocinha&#8221;, impregnado de um \u201cperfume comunal, mistura de Ma Griffe com gel contraceptivo\u201d. Aqui no Brasil, longe de Mailer mas perto do DOI-CODI, Lygia foi corajosa bastante para incluir cr\u00edticas pesadas \u00e0 ditadura no auge do AI-5. A descri\u00e7\u00e3o crua, minuciosa, da sess\u00e3o de tortura num subterr\u00e2neo da repress\u00e3o vale por cem editoriais.<\/p>\n<p>Descobri novos jeitos de escrever em \u201cAs Meninas\u201d, que encontrei j\u00e1 na terceira edi\u00e7\u00e3o da Jos\u00e9 Ol\u00edmpio Editora, com capa de Eug\u00eanio Hirsch (nascido em 1923, como Lygia). Em folhas de papel-lauda, copiei trechos para sentir as pausas e a melodia da narrativa. Era um dos editores do suplemento de domingo do Estado do Paran\u00e1. Na capa do caderno publiquei uma resenha meio impressionista sobre aquele livro rom\u00e2ntico e subversivo, aquele portugu\u00eas cheio de inven\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias (achei) de James Joyce e Jack Kerouak. A p\u00e1gina do Estado ficou atraente e mereceu uma carta da autora; em sua caligrafia bonita elogiou minha acuidade liter\u00e1ria. Acuidade, heim? \u201cVoc\u00ea levantou quest\u00f5es importantes sobre a literatura atual e o meu trabalho\u201d, escreveu Lygia agradecida e convidando para uma conversa. \u201cEspero poder trocar ideias com voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Trocar ideias? Imagine. Eu n\u00e3o tinha uma \u00fanica e an\u00eamica ideia para oferecer \u00e0 dona de tanta criatividade. Nem era capaz de qualquer observa\u00e7\u00e3o inteligente sobre o psiquismo das personagens, o desenvolvimento da trama, muito menos sobre a <em>mensagem<\/em>, uma coisa que estava na moda e devia ser descoberta e analisada nas entranhas da obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>A carta de Lygia est\u00e1 perdida entre as camadas geol\u00f3gicas dos guardados. Uma primeira mexida nos papeis n\u00e3o teve sucesso. Transcrev\u00ea-la agora seria importante primeiro para mostrar aos amigos que n\u00e3o estou escrevendo \u00e0 toa; estou lamentando a perda da oportunidade de conversar com uma not\u00e1vel escritora, minha correspondente, que talvez viesse a ser uma amiga, colega, confreira, irm\u00e3 em admira\u00e7\u00f5es. Pois concordamos que \u201cAs Meninas\u201d \u00e9 o melhor romance de Lygia Fagundes Telles, n\u00e3o porque seja literariamente superior aos outros, ou o mais traduzido, ou aquele que fez sucesso no cinema, mas porque foi escrito nos anos de chumbo \u2013 \u201cum testemunho desse nosso tempo e dessa nossa sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Um dia, anos depois, visitava minha amiga Lygia Fran\u00e7a Pereira, casada com Modesto Carone, cr\u00edtico liter\u00e1rio e tradutor de Kafka. Contei sobre a incurs\u00e3o pela cr\u00edtica (o texto era na verdade uma resenha) e sobre a carta-convite. Modesto era amigo da escritora e do marido Paulo Emilio Salles Gomes. \u201cVamos l\u00e1\u201d, prop\u00f4s. Entrei em p\u00e2nico. N\u00e3o posso, tenho que voltar correndo para Curitiba \u2013 era desculpa para n\u00e3o contar que tinha medo de n\u00e3o estar \u00e0 altura da conversa, de ser chamado a opinar sobre o fluxo de consci\u00eancia e o mon\u00f3logo interior, ficar boboca, cristalizado, provincianamente encolhido num canto da sala da maior escritora do Brasil.<\/p>\n<p>Caridosamente n\u00e3o insistiram no convite. E eu fiquei sem trocar ideias com Lygia, portanto sem descobrir o que ela e Paulo Em\u00edlio conversaram enquanto escreviam a quatro m\u00e3os o premiado roteiro cinematogr\u00e1fico de \u201cCapitu\u201d, de Machado de Assis. Sem poder perguntar se ela leu Monteiro Lobato para gostar tanto de analisar insetos como a Em\u00edlia na \u201cReforma de Natureza\u201d. Ou como decidiu que \u201cO mal est\u00e1 no pr\u00f3prio g\u00eanero humano, ningu\u00e9m presta?\u201d<\/p>\n<p>E dizer que concordo cem por cento com ela quando diz: \u201c\u00c0s vezes a gente melhora. Mas passa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; . &nbsp; Avalio a repercuss\u00e3o da morte de Lygia Fagundes Telles com certo desapontamento. Esperava muita como\u00e7\u00e3o. Cada brasileiro com curso secund\u00e1rio completo tem obriga\u00e7\u00e3o de chorar essa perda. 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