{"id":10316,"date":"2021-05-20T06:12:11","date_gmt":"2021-05-20T06:12:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10316"},"modified":"2021-05-20T06:18:45","modified_gmt":"2021-05-20T06:18:45","slug":"nasci-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10316","title":{"rendered":"O ENGENHEIRO ACHAVA QUE AQUI SERIA UMA ESTRUTURAL"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-DECADENTE.jpg\" rel=\"lightbox[10316]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10318\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-DECADENTE.jpg\" alt=\"jjjkjkj\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>A rua est\u00e1 feia. (Foto Tribuna PR)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nasci na rua Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, que na d\u00e9cada de 40 era breve, estreita, encantadora. As casas e sobrados ostentavam o estilo difuso dos mestres-de-obra poloneses e italianos. Cal\u00e7adas estreitas, rua de macadame com pedras mal colocadas. Bem diferentes do petit pav\u00ea da Avenida Jo\u00e3o Pessoa, o centro chic, que ficava apenas 300 metros mais para o sul.<\/p>\n<p>Ainda ningu\u00e9m havia sonhado em prolongar minha rua rumo ao oeste. Curtinha, ela come\u00e7ava na Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria e desembocava com razo\u00e1vel dignidade na Pra\u00e7a Tiradentes, depois de passar pelo Col\u00e9gio Estadual do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Sobrados de janelas altas e bangal\u00f4s avarandados abrigavam fam\u00edlias de classe m\u00e9dia, quase todas muito cat\u00f3licas, que jejuavam, confessavam e iam \u00e0 Missa do Galo. A democracia religiosa era atestada pelo templo adventista, revestido de granito cinza, que cantava gl\u00f3ria a Jesus nas noites de s\u00e1bado. E tamb\u00e9m pela sinagoga, cinquenta metros adiante, ao lado da pra\u00e7a Santos Dumont.<\/p>\n<p>A sinagoga abrigava, na parte de baixo, o Pedr\u00e3o e o Ivo, filhos do zelador. \u00a0No jogo de gude ele deixava escapar not\u00edcias sobre misteriosos ritos em hebraico, que se desenvolviam na nave sombria. Perguntei ao doutor Maranh\u00e3o, advogado muito culto sobre aquele mist\u00e9rio. Ele riu: os judeus rezavam pelo Tor\u00e1, que era o Velho Testamento dos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Aprendi ent\u00e3o a primeira lei do jornalismo: s\u00f3 \u00e9 not\u00edcia se for confirmada por duas fontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No por\u00e3o do templo adventista n\u00e3o morava ningu\u00e9m, mas ao lado, no Juizado de Menores, viviam o Divanil e o Nelsinho, negros, integrantes da Escola de Samba Colorado, que ensaiava para o Carnaval no est\u00e1dio do Ferrovi\u00e1rio. Divanil no surdo, Nelsinho um \u00e1s do tamborim.<\/p>\n<p>No centro de tudo estava o poeirento campinho do Cruz Machado Futebol Clube, onde hoje fica o mal falado Edif\u00edcio S\u00e3o Paulo. Ali gastei muito sapato em memor\u00e1veis jornadas esportivas. Vit\u00f3rias e derrotas. Uma vez perdemos com desonra para uns polacos enormes da Saldanha Marinho. Al\u00e9m de deixar o campo no maior deboche, os ganhadores ainda levaram nossa bola Go\u00e1 n\u00famero 5. Isso n\u00e3o podia ficar assim. Numa folha de caderno escolar escrevi a not\u00edcia sobre o evento esportivo. A mat\u00e9ria foi entregue, por uma janelinha de madeira, ao funcion\u00e1rio que cuidava da oficina do Di\u00e1rio da Tarde, na rua Doutor Muricy, ao lado da pastelaria do chin\u00eas Ton Jon.<\/p>\n<p>No dia seguinte meu pai chegou com o Di\u00e1rio da Tarde, que comprava diariamente para ler o artigo do jornalista Roberto Barroso. Estava l\u00e1, na \u00edntegra, a nota de uma coluna no p\u00e9 da p\u00e1gina de esporte: \u201cCruz Machado FC goleia Saldanha por 5 a 2. Dois gols da vit\u00f3ria foram do ponta esquerda Aderbal.\u201d<\/p>\n<p>A\u00ed fiquei conhecendo a segunda lei: o papel aceita tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falo da Cruz Machado como se ela tivesse alguma import\u00e2ncia para o desenho urbano ou para a hist\u00f3ria da cidade. N\u00e3o tinha. Importante era a Ermelino de Le\u00e3o, quase na esquina de minha casa. Ela come\u00e7ava na avenida Jo\u00e3o Pessoa e chegava, mil metros depois, ao Alto do S\u00e3o Francisco, o Pal\u00e1cio do Governo.<\/p>\n<p>Na Ermelino tinha tudo. Numa ponta, a Cinel\u00e2ndia. Os luminosos cinemas Opera, Avenida e Pal\u00e1cio e os menos gloriosos Odeon e Broadway. Nos dias de muita chuva o Rio Ivo subia at\u00e9 dois metros. Caixeiros das lojas corriam para colocar as mercadorias no seco. Mas a inunda\u00e7\u00e3o fazia terr\u00edveis estragos.<\/p>\n<p>No dia seguinte, com a volta do sol, colch\u00f5es, edredons, cobertores e m\u00f3veis eram postos para secar na cal\u00e7ada &#8211; mudas testemunhas da inc\u00faria das autoridades, como dizia num suelto nosso Di\u00e1rio da Tarde.<\/p>\n<p>A \u00e1gua n\u00e3o chegava \u00e0 nossa rua, mas era inquietante constatar que isso acontecia por uma diferen\u00e7a de um metro. A gente era fronteiri\u00e7o. Viv\u00edamos a um passo do desastre meteorol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Diferente era a situa\u00e7\u00e3o de quem morava acima, na Augusto Stelffeld, como meu padrinho, o conceituado m\u00e9dico Benedito de Faria Amorim. O doutor Amorim era um nome m\u00e1gico na cidade. Do centro, dos bairros, do Port\u00e3o distante ou das col\u00f4nias chegavam pacientes a seu consult\u00f3rio. Al\u00e9m de curar o corpo, oferecia rem\u00e9dios para o esp\u00edrito, certezas que sua poderosa f\u00e9 cat\u00f3lica conseguia transmitir.<\/p>\n<p>A casa do doutor Amorim, que visitava com minha m\u00e3e, cheirava a sach\u00ea de magn\u00f3lia \u2013 ou \u00e0quilo que eu imaginava ser o cheiro de magn\u00f3lia. Esta flor entrou no meu repert\u00f3rio bot\u00e2nico gra\u00e7as ao Gebran Sabbag, que morava na rua In\u00e1cio Lustosa, onde a Prefeitura plantou magn\u00f3lias de ponta a ponta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sub\u00edamos minha m\u00e3e e eu dois lances de escada de pedra e est\u00e1vamos no caramanch\u00e3o. As buganvilias floriam em setembro, vermelhas, amarelas, brancas e cor de rosa. Mais um lance e entr\u00e1vamos pela porta de madeira escura com janelinha de cristal bisot\u00ea.<\/p>\n<p>Os tacos do ch\u00e3o eram de madeiras nobres, claras e escuras, aplicados em rosetas. Mais cristal chanfrado nos vidros da porta de correr que separava a sala de estar da sala de m\u00fasica. A mem\u00f3ria n\u00e3o quer acreditar que o piano fosse um simples Essenfelder, desses feitos no Juvev\u00ea.<\/p>\n<p>Pela Augusto Stelffeld passava a divisa entre os dois estamentos sociais. Logo adiante estava o Pal\u00e1cio S\u00e3o Francisco, onde meu pai era ajudante de ordens do interventor Manoel Ribas.<\/p>\n<p>A Ermelino de Le\u00e3o, do Pal\u00e1cio S\u00e3o Francisco com seus tapetes persas e quadros de Andersen e Michaud ao baixio das casas p\u00e1lidas com frente para a inunda\u00e7\u00e3o &#8211; essa Ermelino de Le\u00e3o \u00e9 a grande met\u00e1fora social de Curitiba.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outras met\u00e1foras seriam encontradas depois no Col\u00e9gio Santa Maria e no Col\u00e9gio Militar. Mas nenhuma teve a for\u00e7a da primeira, nem a gra\u00e7a das que encontraria quando come\u00e7ava no jornalismo e ao mesmo tempo estudava na Faculdade de Direito de Curitiba. As duas carreiras s\u00e3o confluentes.<\/p>\n<p>Jornalistas e advogados t\u00eam um particular interesse em cat\u00e1strofes, desvios de conduta e assassinatos em geral. Aprendem cedo que aumentam as vendas<\/p>\n<p>Esse ensinamento estava fresco na minha cabe\u00e7a dez anos mais tarde, quando chegou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o da Ultima Hora curitibana um andarilho baiano. Pedia ajuda para fazer uma cruz bem grande. Pretendia lev\u00e1-la nas costas at\u00e9 Santa Catarina, igual ao personagem Z\u00e9 do Burro do filme Pagador de Promessas, que acabava de conquistar a Palma de Ouro em Cannes.<\/p>\n<p>Nosso Z\u00e9 do Burro queria entrar com a cruz na catedral de Florian\u00f3polis. Voc\u00eas ajudam? N\u00e3o. Algu\u00e9m sugeriu que transferisse a promessa para a Igreja do Rocio, em Paranagu\u00e1. Assim, sem sair do Paran\u00e1, teria a cobertura di\u00e1ria do jornal de maior circula\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Z\u00e9 do Burro concordou e tornou-se, da noite para o dia, personagem de todos os jornais \u2013 porque um jornal imitava o outro e todos sonhavam imitar o Jornal do Brasil \u2013 e tamb\u00e9m pelas r\u00e1dios e pelas duas televis\u00f5es que funcionavam em Curitiba na d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p>Quando chegou a Paranagu\u00e1 com sua cruz esperava-se que houvesse, como no filme, um confronto entre ele e a autoridade religiosa. Proibido de subir as escadarias para depositar sua cruz aos p\u00e9s da santa, seu mart\u00edrio ganharia o notici\u00e1rio nacional, at\u00e9 internacional.<\/p>\n<p>Ocorre que o bispo de Paranagu\u00e1 era um s\u00e1bio. Em vez do confronto, decidiu ignorar a chegada do peregrino. A escadaria ficou livre e as portas da igreja abertas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria teria acabado a\u00ed se o rep\u00f3rter que cobria o assunto n\u00e3o tivesse cometido um erro, pressionado pelo estreito deadline do jornal e pela pr\u00f3pria ansiedade. Enviou uma reportagem de v\u00e9spera, com relato do confronto que n\u00e3o houve, do sofrimento que n\u00e3o existiu.<\/p>\n<p>Os jornalistas chamam a isso de barriga. No caso, uma aben\u00e7oada barriga, fecho de ouro de uma seq\u00fc\u00eancia de reportagens que retratavam a realidade social, o sincretismo religioso, a multiculturalidade, a profunda humanidade da popula\u00e7\u00e3o do litoral paranaense \u2013 a\u00ed inclu\u00eddas as mo\u00e7as do Mosquitinho, maior casa de mulheres da regi\u00e3o, que largaram as atividades profissionais para se ajoelhar na estrada e pedir uma ben\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As vendas aumentaram tanto que Z\u00e9 do Burro foi embora e as bancas continuaram pedindo mais jornais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O editor paulista recompensou os respons\u00e1veis pela barriga com um elogio e um ensinamento do Willian Randolph Hearst, magnata da imprensa americana. \u201cN\u00e3o tenham medo de cometer erros. O leitor pode gostar deles\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora voltamos \u00e0 Rua Cruz Machado.<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. A rua est\u00e1 feia. 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