{"id":10313,"date":"2021-05-20T06:00:39","date_gmt":"2021-05-20T06:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10313"},"modified":"2021-05-20T06:24:26","modified_gmt":"2021-05-20T06:24:26","slug":"a-queda-e-a-queda-da-rua-cruz-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10313","title":{"rendered":"A QUEDA E A QUEDA DA RUA CRUZ MACHADO"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_10314\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-PLACA.jpg\" rel=\"lightbox[10313]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10314\" class=\"size-full wp-image-10314\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-PLACA.jpg\" alt=\"dfdfdf\" width=\"337\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-PLACA.jpg 337w, https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RUA-CRUZ-MACHADO-PLACA-300x150.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10314\" class=\"wp-caption-text\">.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cO sofrimento, se excessivo e demorado, deixa-nos insens\u00edveis \u00e0 dor\u201d. <strong>Shakespeare<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tarde findou, a noite chegou e o Engenheiro l\u00e1. Ele e seu ajudante. Esticaram mais uma vez a trena na esquina da Volunt\u00e1rios, onde terminava a Cruz Machado, ent\u00e3o uma agrad\u00e1vel ruazinha residencial de cinco quadras, uma pracinha no meio. Mediram e remediram a largura da via e da cal\u00e7ada. Depois sumiram. Mais tarde, um pi\u00e1 contou que n\u00e3o tinham sumido coisa nenhuma. De trena e tel\u00eametro, reapareceram na Visconde de N\u00e1car, a paralela do outro lado da quadra. Novas anota\u00e7\u00f5es no papel quadriculado preso \u00e0 prancheta.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Andrade, conhecida como L\u00edngua de Ouro, ouviu falar dos homens e informou Mal\u00e3o, o gigol\u00f4 que h\u00e1 oito anos zelava pelos seus neg\u00f3cios sexuais.<\/p>\n<p>-\u00c9 por causa da avenida que v\u00e3o abrir aqui. Vai ligar o lado de l\u00e1 com a Pra\u00e7a Tiradentes.<\/p>\n<p>Animou-se.<\/p>\n<p>-Bom pra n\u00f3s, \u00e9 coisa de mais de um milh\u00e3o.<\/p>\n<p>A fonte de C\u00e9lia era fidedigna: o Engenheiro em pessoa. Decorreu a incontin\u00eancia verbal do abuso de generoso vinho argentino que aqueceu um surub\u00e3o na Casa da Ot\u00edlia. O Engenheiro n\u00e3o era dado a galinhagens, mas teve que ir \u00e0 zona em miss\u00e3o oficial, ou quase; representava a comiss\u00e3o organizadora do Congresso Brasileiro de Obras P\u00fablicas. A pedido do Diretor, e sob o patroc\u00ednio de generoso empreiteiro, encarregou-se de ciceronear um grupo de congressistas \u00a0interessados em correr o trecho. Coincidiu que C\u00e9lia estava l\u00e1 como chefe das mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Toda l\u00edngua e ouvidos, escutou o Engenheiro se gabar da nova obra na cidade. \u201c\u00c9 estrutural\u201d, explicou a dois colegas que aguardavam a hora de afogar o ganso. \u201cVamos reduzir em dez minutos a rota leste-oeste\u201d. O colega disse \u201cfant\u00e1stico\u201d e C\u00e9lia anotou mentalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uns seis meses depois chegou o primeiro convite para uma reuni\u00e3o na Prefeitura. Os vizinhos ouviram, um a um, que suas casas estavam desapropriadas para dar passagem \u00e0 avenida. Vou chamar o advogado. Pode chamar. Desapropria\u00e7\u00e3o por interesse p\u00fablico. Est\u00e1 na lei.<\/p>\n<p>Brigaram, brigaram e acabaram fazendo acerto para n\u00e3o sair sem nada no bolso. Hist\u00f3rias de desapropria\u00e7\u00f5es eram s\u00f3 desgra\u00e7a. S\u00e9culos \u00e0 espera do justo pagamento que nunca viria, alguns morando em casa de parentes.<\/p>\n<p>Houve um racha. Metade desejava escrever abaixo-assinado, ir \u00e0 Assembl\u00e9ia de luto, visitar o governador. Reclamariam \u2013 talvez pela primeira vez \u2013 contra a tirania do autom\u00f3vel; em nome dele destru\u00edam uma rua residencial, habitada por m\u00e9dicos, ju\u00edzes, comerciantes. Rua pequena e feliz, aqui judeus oravam em paz na sinagoga e senhores de sucesso traziam os filhos para visitar o pr\u00e9dio em que haviam estudado, o afamado Col\u00e9gio Estadual do Paran\u00e1. A outra metade queria a avenida com luzes e lojas. Orgia de brilho e luxo.<\/p>\n<p>C\u00e9lia na moita. Mal\u00e3o estava comprando uma casa para transformar em loja bacana quando o alongamento viesse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A divis\u00e3o aumentou. Alguns receberam a visita de corretores imobili\u00e1rios que ofereciam at\u00e9 50% a mais por suas casas. Dividendos do progresso. Espertos, decidiram que venderiam mas n\u00e3o agora. Mandava a ast\u00facia aguardar o espet\u00e1culo da chegada das m\u00e1quinas e nova valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Quando as m\u00e1quinas chegaram os corretores n\u00e3o reapareceram. Apareceram uns caras p\u00e1lidos, de bigodinho e sapato bico fino. Queriam alugar.<\/p>\n<p>Para encurtar a hist\u00f3ria, quem vendeu, vendeu barato porque a rua degenerou com o vai e vem de prostitutas, vendedores de droga e ladr\u00f5ezinhos que arrancavam o cord\u00e3o de ouro e saiam correndo.<\/p>\n<p>Quem alugou conseguiu um dinheirinho melhor. Mas teve de ag\u00fcentar perguntas da fam\u00edlia e dos amigos porque os inquilinos agora eram donos de tunguetes, bares de m\u00e1 frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m imaginava que ia tudo virar zona. As casas de fam\u00edlia foram depressa substitu\u00eddas pelo Bar da Rosa, o La Ronde, o restaurante Fumacinha, o Sop\u00e3o das Putas, e por um clube de jogo onde, certa noite, um prefeito do Norte do Paran\u00e1 perdeu no pif-paf a arrecada\u00e7\u00e3o municipal de seis meses. Malandros armaram o golpe das tr\u00eas pontas em cima dele, que saiu prometendo suicidar-se. Abriu a janela do Braz Hotel, tomou aquele ar frio na cara e mudou de ideia. Candidatou-se. Agora \u00e9 deputado estadual e vice-lider da maioria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cabe aqui uma considera\u00e7\u00e3o sobre a falta de limites para a decad\u00eancia urbana.<\/p>\n<p>Um s\u00e1bio ensinou que as cidades melhoram quando ficam como est\u00e3o. H\u00e1 rua que nasce para ser estreita, com cal\u00e7ada de pedras centen\u00e1rias. Alargada e asfaltada, a Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, s\u00f3 piorou. Parecia ter chegado ao ponto mais baixo de sua hist\u00f3ria como a rua das vadias, dos cafiolos e dos ot\u00e1rios. Desceu ainda mais aos infernos quando afundou no mar de crack e de tiros na madrugada. Agora s\u00e3o mortos que se arrastam pela cal\u00e7ada no eterno del\u00edrio ambulat\u00f3rio de que falava S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, no s\u00e9culo V, em homilia para defender a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>No crack ningu\u00e9m quer saber de jogo de baralho, nem de sexo, muito menos de conversa de botequim. S\u00f3 de dinheiro para a pr\u00f3xima pedra. Quer mesmo. Precisa. Sofre a urg\u00eancia. Cuide-se para n\u00e3o passar perto dele.<\/p>\n<p>E surpreenda-se. Em seu movimento de mar\u00e9s, a vida urbana desenvolveu a capacidade de contrariar os pessimistas e inventar a ascens\u00e3o depois da queda.<\/p>\n<p>O Engenheiro \u2013 n\u00e3o aquele da orgia na Ot\u00edlia, outro \u2013 anda por ai de novo. Numa planilha a equipe anota o fluxo dos ve\u00edculos e em outra o movimento de pedestres. Planeja um plano urban\u00edstico para devolver a sa\u00fade ao Centro. Vai fomentar um polo de servi\u00e7os, galerias de arte, co-working, startups, hot\u00e9is boutique, solu\u00e7\u00f5es para uma rua sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De qualquer forma, cuidado com esse Engenheiro. Lembre do que dizia o velho Machado. Sua voz \u00e9 a voz de Jac\u00f3 mas suas m\u00e3os s\u00e3o as m\u00e3os de Esa\u00fa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>P.S. \u2013 Est\u00e1 no Velho Testamento a hist\u00f3ria da rivalidade entre irm\u00e3os g\u00eameos em torno do direito \u00e0 sucess\u00e3o no cl\u00e3. Segundo os costumes seria Esa\u00fa o herdeiro, pois nasceu antes do irm\u00e3o. No entanto, Jac\u00f3, instigado pela m\u00e3e, engana o pai cego \u00e0 beira da morte e obt\u00e9m a b\u00ean\u00e7\u00e3o que o confirma no lugar privilegiado.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. &nbsp; &nbsp; &nbsp; . &nbsp; &nbsp; \u201cO sofrimento, se excessivo e demorado, deixa-nos insens\u00edveis \u00e0 dor\u201d. Shakespeare &nbsp; &nbsp; I &nbsp; A tarde findou, a noite chegou e o Engenheiro l\u00e1. Ele e seu ajudante. 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