{"id":10276,"date":"2021-04-28T04:33:17","date_gmt":"2021-04-28T04:33:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10276"},"modified":"2021-04-30T15:55:00","modified_gmt":"2021-04-30T15:55:00","slug":"o-professor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10276","title":{"rendered":"O PROFESSOR,    ou, como a ideologia concurseira pode tornar a sociedade mais desigual"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/quadro-negro-velho.jpg\" rel=\"lightbox[10276]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10277\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/quadro-negro-velho.jpg\" alt=\"mnmnmn\" width=\"612\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/quadro-negro-velho.jpg 612w, https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/quadro-negro-velho-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 612px) 100vw, 612px\" \/><\/a><\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo o dia o mesmo caminho. Vinha pela avenida Jo\u00e3o Pessoa, \u201ca Menor Avenida do Mundo\u201d, virava na travessa Oliveira Belo, famosa pelo Alvorada. Era o caf\u00e9 onde os pol\u00edticos, ju\u00edzes, profissionais liberais confraternizavam e aparentemente decidiam o que ia acontecer na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o. Conhecia alguns: o professor Bento Munhoz da Rocha, os m\u00e9dicos Aramis e Aristides Athayde, Lauro Portugal Tavares, M\u00e1ximo Pinheiro Lima, os advogados Laertes Munhoz, Salvador de Maio, este \u00faltimo campe\u00e3o do Tribunal do Juri, onde argumentava com o C\u00f3digo Penal em uma das m\u00e3os e um livro de Malatesta na outra.<\/p>\n<p>-Chi \u00e8 povero \u00e8 schiavo! \u2013 bradava com voz rouca, para iniciar uma arrasadora catilin\u00e1ria contra a viol\u00eancia da pol\u00edcia e a incompet\u00eancia do delegado que errou no inqu\u00e9rito. E do promotor que n\u00e3o percebeu as incongru\u00eancias e produziu uma den\u00fancia teratol\u00f3gica \u2013 teratol\u00f3gica, senhores jurados! (s\u00f3 havia homens no j\u00fari) \u2013 que nenhum juiz deveria aceitar.<\/p>\n<p>Meu pai me viu chegando e chamou. Cumprimentei respeitoso cada um daqueles senhores. Sabia que aquele era o recreio dos poderosos. Daqui a pouco voltariam para seus concili\u00e1bulos, como escrevia o jornalista Roberto Barroso, diretor do Di\u00e1rio da Tarde, que acabara de passar pelo grupo. Ap\u00f3s as maquina\u00e7\u00f5es (outra palavra do editorial do Di\u00e1rio da Tarde) um seria ministro, outro governador, outro deputado federal.<\/p>\n<p>Finda a apresenta\u00e7\u00e3o, entrei no edif\u00edcio Pal\u00e1cio Avenida. Havia uma banca de jornais e revistas do lado esquerdo, \u00e0 direita a mesa do zelador, adiante o elevador e a escada para a sobreloja. Na sala de p\u00e9 direito baixo, cheiro antigo de cigarro e poeira de giz, estava o professor Joaquim, terno marrom, camisa branca, gravata com prendedor de ouro, dedos amarelos de tanto fumar.<\/p>\n<p>O mestre tinha uns 50 anos, era negro como Leonidas da Silva e craque como ele. N\u00e3o havia mat\u00e9ria que n\u00e3o fosse capaz de enfiar na cabe\u00e7a do aluno. Tinha fama. Era uma esp\u00e9cie de santo Expedito, aquele das causas perdidas. Eu e ele, ou melhor, vamos ser justos, ele e eu inici\u00e1vamos a aventura de aprender em tr\u00eas meses toda a mat\u00e9ria do concurso para a Escola Preparat\u00f3ria de Cadetes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora \u00e9 preciso voltar um pouco para eu explicar porque lia todo o dia o editorial do Di\u00e1rio da Tarde. Estava viciado em novas palavras. Pelo mesmo motivo, sabia um monte de palavras e express\u00f5es usadas por E\u00e7a de Queiroz, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Balzac: era o efeito raio-X. Explico: todo in\u00edcio de ano, os alunos do Santa eram obrigados a produzir um atestado de sa\u00fade. Meu exame m\u00e9dico deu errado. O raio-X mostrava uma altera\u00e7\u00e3o card\u00edaca. O cora\u00e7\u00e3o dilatado, enorme, pronto para explodir.<\/p>\n<p>-Descanso absoluto \u2013 determinou o doutor Benedito Amorim, meu padrinho, parteiro, tudo que um cl\u00ednico bom devia ser naquela metade de s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Nem futebol. Nem ir at\u00e9 o Belford Duarte ver o treino do Coxa.<\/p>\n<p>-Repouso, o rem\u00e9dio \u00e9 repouso, talvez o cora\u00e7\u00e3o volte ao normal.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou um ano de sofrimento. Chegava da aula, almo\u00e7ava, fazia a li\u00e7\u00e3o de casa \u2013 e agora? Nada. Descanse.<\/p>\n<p>Peguei um gibi do Mandrake, em l5 minutos estava lido. O Super Homem, o Fantasma, Dick Tracy, tudo leitura r\u00e1pida. Tinha Helena, do Machado, muito chato. Os da cole\u00e7\u00e3o Terramarear, todos lidos. Ent\u00e3o minha prima Iole, professora e maior leitora da fam\u00edlia, me emprestou O Primo Bas\u00edlio. O mundo de E\u00e7a era diferente: gente de mau car\u00e1ter, ad\u00falteros em suas alcovas de seda (alcova! boa palavra), prima Luisa visitando a Escocia \u201ccom seus lagos taciturnos\u201d (lagos taciturnos!), louca para abandonar a vida burguesa. Descobri o que \u00e9 burgu\u00eas na Enciclop\u00e9dia. \u00c9 gente como Bas\u00edlio, que em apenas dois anos de Brasil \u201cconseguiu reconstituir sua fortuna com um honrado trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Honrado trabalho. Trabalho honrado. Tem palavras que j\u00e1 nascem casadas. Uma n\u00e3o larga da outra e as duas servem para enfeitar uma mentira. Chave de ouro. Lenda viva. Trocar farpas. Pele aveludada. (Como a de Luisa). Pensamentos lascivos (como os de Bas\u00edlio). E mais: \u00e1gua cristalina, marido exemplar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o passei o ano lendo de tudo, inclusive os editoriais irados do Di\u00e1rio da Tarde. Descobri palavras que n\u00e3o est\u00e3o casadas com outras. Nonada, (Guimar\u00e3es Rosa). \u00c9ramos quadro, n\u00f3s e nossas melancolias, (Machado de Assis). Esses caras escreviam bem. Em outros livros vi que mesmo os bons escritores \u00e0s vezes vinham com palavras casadinhas. Ningu\u00e9m \u00e9 perfeito.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 em autor maldito, como aquele Jo\u00e3o de Minas, que fez livrinhos de literatura er\u00f3tica, h\u00e1 coisa boa. Um dos personagens dele \u201ctinha barbas duras como espinhos, e tempestuosas, abundant\u00edssimas\u201d. Outro \u201cera o coronel de todas as mo\u00e7as e senhoras f\u00e1ceis, dessas que acham at\u00e9 piano na rua\u201d. Adiante aparece uma mo\u00e7a \u201cque possu\u00eda um cora\u00e7\u00e3o de arminho\u201d.<\/p>\n<p>De tudo ficou a advert\u00eancia do personagem de Graciliano Ramos: ele \u201cadmirava as palavras compridas e dif\u00edceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em v\u00e3o, mas sabia que elas eram in\u00fateis e talvez perigosas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dito isso, agora sim, posso sentar \u00e0 mesa retangular da sala de aula do professor Joaquim. O quadro negro era mesmo negro, n\u00e3o branco ou verde ou digital como os modernos. Nele o professor escrevia f\u00f3rmulas e mais f\u00f3rmulas, que eu copiava at\u00e9 o dedo fazer calo.<\/p>\n<p>-N\u00e3o tem livro texto?<\/p>\n<p>-N\u00e3o. Nem apostila. Vamos escrever.<\/p>\n<p>Ele ditava problemas enormes, com n\u00famero infinito de inc\u00f3gnitas, que eu jamais vira. Eu escrevia, entusiasmado com a mem\u00f3ria, a flu\u00eancia, a eleg\u00e2ncia do mestre. Imensas defini\u00e7\u00f5es de biologia, geografia, geometria eram escritas com velocidade cada vez maior. Os professores militares gostam de geometria, que \u00e9 a base da topografia e da cartografia, do estudo das batalhas de Napole\u00e3o e Julio Cesar. Escreva e desenhe.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea vai ver que tudo se resume ao Teorema de Tales.<\/p>\n<p>Num plano, a interse\u00e7\u00e3o de retas paralelas, por retas transversais, forma segmentos proporcionais, disse o Tales, um grego nascido em Mileto, que hoje \u00e9 um peda\u00e7o da Turquia. Era comerciante, viajava muito para o lado do Egito, e aprendeu com os eg\u00edpcios a arte do c\u00e1lculo matem\u00e1tico.<\/p>\n<p>-Um turco, um bra\u00e7o fixo \u2013 sugeri.<\/p>\n<p>-N\u00e3o, ele era grego e era um g\u00eanio da humanidade. O primeiro fil\u00f3sofo do mundo. Anote ai.<\/p>\n<p>Peguei o caderno pensando que vinha um problema daqueles compridos.<\/p>\n<p>-O homem rico nem sempre \u00e9 s\u00e1bio, mas o homem s\u00e1bio \u00e9 sempre rico.<\/p>\n<p>Era bacana esse Tales de Mileto. E breve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O concurso foi numa sala da 5\u00aa. Regi\u00e3o Militar, na rua Carlos Cavalcanti, para trinta candidatos. Tamb\u00e9m houve concurso em Santa Catarina e para os dois estados o Ex\u00e9rcito oferecia seis vagas. Ent\u00e3o, 6 em 60. Um em dez. Levei as quest\u00f5es ao professor e vimos que tinha ido bem. Quando veio o resultado, e eu era um dos seis, senti a autoestima l\u00e1 no alto. Fa\u00e7o parte do d\u00e9cimo superior, do grupo dos melhores.<\/p>\n<p>Grupo dos melhores?<\/p>\n<p>Foi o meu primeiro contato com a ideologia concurseira. A express\u00e3o, desconhecida nos anos 1950, serve de base para o papo da meritocracia, uma grande engrupi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos l\u00e1: para que serve um concurso? Para decidir quem, pelo seu m\u00e9rito, merece mandar nos outros. Veja o juiz na cidade do interior. \u00c9 o homem mais importante do munic\u00edpio junto com o latifundi\u00e1rio e o dono da f\u00e1brica que d\u00e1 empregos. Um juiz \u00e9 mais do que o prefeito, porque ele pode tirar o prefeito do cargo, at\u00e9 mandar prend\u00ea-lo, e o prefeito n\u00e3o pode tir\u00e1-lo da magistratura.<\/p>\n<p>Um juiz tem um emprego para toda a vida. \u00c9 a vitaliciedade. N\u00e3o pode ser removido para outra cidade. E seu sal\u00e1rio \u00e9 irredut\u00edvel. Uau!<\/p>\n<p>O mesmo vale para um promotor p\u00fablico, um auditor do imposto de renda, um diplomata, um general. N\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 porque o pai tem dinheiro, nem porque foram eleitos pelo povo. Apenas porque tiveram um professor Joaquim, que era um invenc\u00edvel treinador de concurseiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano passado, Daniel Markovits publicou. pela Penguin Press, \u201cMeritocracy Trap\u201d A Armadilha da Meritocracia. Ele argumenta que, em vez de contribuir para a mobilidade social, o conceito de meritocracia \u00e9 o principal obst\u00e1culo para a igualdade de oportunidades nos Estados Unidos e em boa parte do mundo de hoje. O sistema meritocr\u00e1tico, diz ele, \u00e9 um engodo.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 baseado na longa experi\u00eancia pessoal do autor como professor da Yale Law School. Ele v\u00ea os EUA como um exemplo extremo de um fen\u00f4meno global. Evid\u00eancias colhidas em entrevistas e pesquisa acad\u00eamica mostram que a estrutura familiar e o sistema educacional conspiram a favor das elites, garantindo sua lideran\u00e7a em capital humano.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil entender o argumento de Markovits. Ter uma educa\u00e7\u00e3o de elite \u00e9 mais importante do que herdar terras ou ativos financeiros porque resulta em ganhos maiores. Os filhos da elite ter\u00e3o pr\u00e9-escola de primeira linha, bons col\u00e9gios particulares para o ensino fundamental e m\u00e9dio, universidade de ponta, mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado, talvez no exterior. Tudo isso somado representa um sal\u00e1rio de seis d\u00edgitos.<\/p>\n<p>Em d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Com essa supercapacita\u00e7\u00e3o, \u00e9 normal ser convidado para assumir a dire\u00e7\u00e3o de um grande banco, a presid\u00eancia de uma multinacional ou o Minist\u00e9rio da Fazenda, pela ordem de import\u00e2ncia. E continuar a fazer parte, talvez para sempre, da classe dominante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em janeiro, chegou o comunicado oficial. Gostei de ler o resultado e foi \u00f3timo ver meu nome no Di\u00e1rio da Tarde. Eu e mais cinco \u00e9ramos os tais. Senti um ar respeitoso no cabo da 5\u00aa. RM que me entregou o of\u00edcio de apresenta\u00e7\u00e3o e a passagem de trem para Porto Alegre.<\/p>\n<p>O banho de humildade viria depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. . . I &nbsp; Todo o dia o mesmo caminho. Vinha pela avenida Jo\u00e3o Pessoa, \u201ca Menor Avenida do Mundo\u201d, virava na travessa Oliveira Belo, famosa pelo Alvorada. 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