{"id":10239,"date":"2021-04-19T18:40:15","date_gmt":"2021-04-19T18:40:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10239"},"modified":"2021-04-23T22:58:39","modified_gmt":"2021-04-23T22:58:39","slug":"index","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10239","title":{"rendered":"Index, ou, porque n\u00e3o dev\u00edamos ler A Hist\u00f3ria do Mundo para Crian\u00e7as, do Monteiro Lobato, um cara que negava o criacionismo"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_10242\" style=\"width: 190px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Indez.jpg\" rel=\"lightbox[10239]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10242\" class=\"size-full wp-image-10242\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Indez.jpg\" alt=\"nnmnmnmn\" width=\"180\" height=\"281\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10242\" class=\"wp-caption-text\">.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>I<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>No canto superior esquerdo da primeira p\u00e1gina do Missal estava escrito Nihil Obstat e, do lado, Imprima-se, assinado pelo vig\u00e1rio-geral.<\/strong><\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>-O que \u00e9 Nihil Obstat?<\/strong><\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>-Nada a obstar. Quer dizer que n\u00e3o est\u00e1 no Index da Igreja.<\/strong><\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>-Index?<\/strong><\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\">O irm\u00e3o Anselmo foi ao quadro negro e escreveu:<\/span><\/h1>\n<h1><span style=\"color: #3366ff;\"><em>Index Librorum Prohibitorum.<\/em><\/span><\/h1>\n<h1><em>\u00a0<\/em><\/h1>\n<h1>-\u00c9 a lista de livros proibidos pela igreja<em>.<\/em><\/h1>\n<h1>-Ningu\u00e9m pode ler?<\/h1>\n<h1>-Ningu\u00e9m.<\/h1>\n<h1>-Se ningu\u00e9m leu como \u00e9 que algu\u00e9m proibiu?<\/h1>\n<h1>Uma provoca\u00e7\u00e3o. Expulsar da aula era a consequ\u00eancia necess\u00e1ria de qualquer provoca\u00e7\u00e3o. Mas veja o menino que perguntava: era um dos filhos do inspetor federal de ensino, o fiscal da escola.<\/h1>\n<h1>O professor titular hesitou um segundo. Um guri de cabelo ruivo entrou na conversa.<\/h1>\n<h1>-\u00c9 verdade que Monteiro Lobato est\u00e1 proibido?<\/h1>\n<h1>O irm\u00e3o virou para ele.<\/h1>\n<h1>-Est\u00e1.<\/h1>\n<h1>N\u00e3o contou o motivo: Lobato defendia a doutrina evolucionista, aquela do Big Bang, contra o criacionismo, a ideia de que o mundo foi feito em seis dias e no s\u00e9timo Ele descansou.<\/h1>\n<h1>-O que \u00e9 que a Em\u00edlia fez?<\/h1>\n<h1>-Fora!<\/h1>\n<h1>O ruivinho n\u00e3o era filho de ningu\u00e9m conhecido.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>II<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Os livros do Index eram muito bons. Encontrei alguns na feira informal do Cine Broadway. O maior pulgueiro da cidade ficava no in\u00edcio da Rua 15 e exibia faroestes, filmes de Tarzan, de terror e seriados de Durango Kid, da Columbia, com Charles Starrett. As sess\u00f5es come\u00e7avam \u00e0s duas e iam at\u00e9 \u00e0s sete horas. Dois filmes e dois seriados para encher o domingo e fornecer assunto de conversa nos dias seguintes.<\/h1>\n<h1>Na entrada os guris trocavam gibis, figurinhas e os \u201ccatecismos\u201d de Carlos Z\u00e9firo, pseud\u00f4nimo do funcion\u00e1rio p\u00fablico carioca Alcides Aguiar Caminha, que publicou mais de 500 hist\u00f3rias em quadrinhos er\u00f3ticas entre 1950 e 1970. Precursoras do PornHub, eram vendidas discretamente em outro canto do hall e em bancas de jornal.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>III<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Um dia um guri me apareceu com Cocaina, de Pitigrilli. N\u00e3o deixe tua m\u00e3e ver. \u00c9 um livro de sacanagem.<\/h1>\n<h1>N\u00e3o era.<\/h1>\n<h1>Pitigrilli sabia escrever. O romance tem estrutura. O enredo bem resolvido \u00e9 elegante, inteligente e perverso. O italiano era um c\u00ednico com senso de humor: \u201cSe eu comi um frango inteiro e voc\u00ea n\u00e3o comeu nada, o relat\u00f3rio do governo vai dizer que cada um de n\u00f3s comeu meio frango\u201d.<\/h1>\n<h1>Prestei aten\u00e7\u00e3o no Pitigrilli, no sabor amargo das hist\u00f3rias, onde o sexo era triste. Ou tr\u00e1gico. Seus livros estavam no Index. Al\u00e9m de escritor libertino, me explicaram, ele era judeu.<\/h1>\n<h1>N\u00e3o gostei do Marques de Sade, 120 Dias de Sodoma, um livrinho velho, cheio de \u00e1caros e mal traduzido.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>IV<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Dei uma olhada na Hist\u00f3ria de \u00d3. N\u00e3o sabia que estava diante de um \u00edcone da literatura er\u00f3tica do s\u00e9culo 20, inspirador de 50 Tons de Cinza e outros livros do g\u00eanero <em>mommy porn.<\/em><\/h1>\n<h1>Em Hist\u00f3ria de \u00d3, uma fot\u00f3grafa de sucesso chamada \u201c\u00d3\u201d arranja um amante pervertido: Ren\u00ea.\u00a0 Por amor, aceita participar de orgias sexuais ilimitadas, submete-se aos desejos dele, que incluem pr\u00e1ticas sadomasoquistas.<\/h1>\n<h1>A autora usava o pseud\u00f4nimo de Pauline R\u00e9age. Tratava-se de Dominique Aury, destacada intelectual francesa de 47 anos na \u00e9poca do lan\u00e7amento do livro. T\u00edmida, de eleg\u00e2ncia discreta, tradutora e editora, era a \u00fanica mulher com assento no comit\u00ea de <em>publishers <\/em>da Gallimard ao lado de, entre outros, Albert Camus. O romance vendeu feito \u00e1gua, mas ela continuou em seu casulo. S\u00f3 bem mais tarde, aos 86 anos, Dominique Aury admitiu a autoria do romance.<\/h1>\n<h1>Ganhadora da Legion d&#8217;Honneur, foi apresentada ao General de Gaulle, que a homenageou:<\/h1>\n<h1>-J\u00e1 a conhe\u00e7o. \u00c9 a famosa autora de A Hist\u00f3ria de \u00d3.<\/h1>\n<h1><\/h1>\n<h1><\/h1>\n<h1>V<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Minha turminha lia com entusiasmo Escravas do Amor e outros folhetins de Suzana Flag.<\/h1>\n<h1>Descobri depois que Suzana era o \u201ceu po\u00e9tico feminino\u201d de Nelson Rodrigues. Al\u00e9m de muito sexo em hot\u00e9is de encontros no Leblon e na Barra da Tijuca, o folhetim er\u00f3tico \u00e9 feito de exageros e absurdos: ataque de on\u00e7a, velho judeu que mora num castelo e tem cicatriz no rosto, punhal com ponta envenenada (como no Hamlet), hipnotismo, troca de beb\u00eas, passagens secretas, her\u00f3i rico que se faz passar por pobre. O estilo hiperb\u00f3lico, escandaloso, foi aperfei\u00e7oado em Vestido de Noiva e Beijo no Asfalto.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>VI<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Ler escondido sobre incestos, adult\u00e9rios, pervers\u00f5es despertava um certo temor de Deus. E levantava quest\u00f5es pr\u00e1ticas: qual o tamanho da puni\u00e7\u00e3o?<br \/>\nCada p\u00e1gina era um pecado mortal? Ou apenas pecado venial? Ser\u00e1 que \u00e9 medida em anos de Purgat\u00f3rio, aquele lugar que tem todos os desconfortos do Inferno, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 eterno? H\u00e1 algum tipo de dosimetria? Ler 120 dias de Sodoma, convenhamos, merece pena maior do que saborear a Hist\u00f3ria do Mundo para Crian\u00e7as, de Monteiro Lobato.<\/h1>\n<h1>Objetivamente: onde est\u00e1 descrito o pecado de ler Lobato?<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>VII<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Surgiu a Cole\u00e7\u00e3o Terramarear, Tarzan, Kim, a Ilha do Tesouro. E as aventuras do piloto Biggles, escritas pelo piloto ingl\u00eas William Earl Johns. O her\u00f3i voava em seu monomotor para oeste, para leste, para todos os continentes e se metia com malaios, tuaregs, todo tipo de gente perigosa, em tramas sensacionais.<\/h1>\n<h1>Vieram as hist\u00f3rias de Sherlock Holmes impressas em Portugal. Policiais em a\u00e7\u00e3o nos subterr\u00e2neos de Londres, o caminho iluminado com lanternas de carbureto. Persegui\u00e7\u00f5es em carruagens pela Fleet Street ou pela Strand, com eventuais mergulhos nas aguas do T\u00e2misa para resgatar a prova do crime.<\/h1>\n<h1>Fa\u00e7anhas que seriam relatadas pelo rep\u00f3rter Clark Kent, ali\u00e1s, o Super-Homem. Ou por Billy Batson, que se transformava em Capit\u00e3o Marvel gritando Shazan!<\/h1>\n<h1>Os dois eram rep\u00f3rteres, Billy numa esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio, Clark Kent no Planeta Di\u00e1rio, de Metr\u00f3polis.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>VIII<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>Minha prima Iole achou um erro num livro de James Hilton chamado Adeus Mr. Chips. Uma hist\u00f3ria edificante sobre um professor de latim que d\u00e1 aulas em Londres durante a guerra e mesmo durante o pior bombardeio dos alem\u00e3es continua falando aos alunos. Virou filme, foi indicado aos cinco principais pr\u00eamios do Oscar de 1940. Levou o de melhor ator para Robert Donat, mas o p\u00e1reo foi duro aquele ano, onde se concorria com &#8230;E o vento levou.<\/h1>\n<h1>Logo o livro chegou \u00e0 Livraria Ghignone; era da Editora Globo, tradu\u00e7\u00e3o do \u00c9rico Ver\u00edssimo. L\u00e1 estava o erro ou melhor o cochilo, que podia ser do autor, do tradutor, do revisor e at\u00e9 mesmo do impressor. Dif\u00edcil apontar o culpado.<\/h1>\n<h1>Na Revista Cigarra havia uma se\u00e7\u00e3o, Cochilos dos Outros, que dava livros de pr\u00eamio a quem achasse cochilos na hist\u00f3ria ou na tradu\u00e7\u00e3o. Para n\u00e3o se expor minha prima fez a proposta \u2013 voc\u00ea escreve e assina, eu fico com o livro. Mandei e foi publicado. Um amigo do meu pai comentou: muito bom o que seu filho escreveu na Cigarra.<\/h1>\n<h1>Uau! O feito repercutiu entre vizinhos e na fam\u00edlia.<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>Seria a gl\u00f3ria liter\u00e1ria chegando?<\/h1>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. &nbsp; &nbsp; . &nbsp; I &nbsp; No canto superior esquerdo da primeira p\u00e1gina do Missal estava escrito Nihil Obstat e, do lado, Imprima-se, assinado pelo vig\u00e1rio-geral. -O que \u00e9 Nihil Obstat? -Nada a obstar. 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