{"id":10203,"date":"2021-03-27T00:15:30","date_gmt":"2021-03-27T00:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10203"},"modified":"2021-03-27T07:25:10","modified_gmt":"2021-03-27T07:25:10","slug":"o-confessionario-pequena-memoria-da-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adherbal.com\/?p=10203","title":{"rendered":"O confession\u00e1rio (pequena mem\u00f3ria da escola)"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/confession\u00e1rio.jpg\" rel=\"lightbox[10203]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10204\" src=\"https:\/\/www.adherbal.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/confession\u00e1rio.jpg\" alt=\"gghghghg\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Perd\u00e3o e penit\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram sempre iguais as manh\u00e3s de domingo. Acordava \u00e0s 7, escovava bem os dentes para n\u00e3o ficar com mau h\u00e1lito; lavava a cara com muito cuidado, o que inclu\u00eda uma incurs\u00e3o atr\u00e1s e dentro da orelha, penteava o cabelo e corria para a missa na capela do Santa Maria.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 era depois. A barriga ronca de fome, mas receber o Corpo de Cristo exige jejum e alma leve. Na missa gostava das par\u00e1bolas, mas o serm\u00e3o era aborrecido e a consagra\u00e7\u00e3o um mist\u00e9rio meio antropof\u00e1gico. O padre levantava a h\u00f3stia e dizia: \u201c<em>Acc\u00edpete et mand\u00facate ex hoc omnes: Hoc est enim corpus meum<\/em>\u201d. No Missal vinha a tradu\u00e7\u00e3o: \u201cTomai e comei todos dele, porque isto \u00e9 meu corpo\u201d.<\/p>\n<p>Com voz de baixo profundo, confirmava: ia nos dar (para engolir, n\u00e3o mastigue) o Corpo de Cristo. Tr\u00eas anos e cento e tantas missas depois, a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o causava muito impacto. Mas no in\u00edcio era arrasadora. Praticamente todos os alunos do Santa, em particular a turma da 4\u00aa s\u00e9rie (hoje 9\u00aa) tinham consci\u00eancia da pr\u00f3pria indignidade. A salva\u00e7\u00e3o era improv\u00e1vel para almas t\u00e3o corrompidas pelos pecados da mentira, da inveja, da pregui\u00e7a, da lux\u00faria.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o era a condena\u00e7\u00e3o eterna, reservada aos grandes pecadores. Cada um tinha sua vis\u00e3o particular do Ju\u00edzo Final e acreditava que tudo se resolveria numa temporada de purgat\u00f3rio. S\u00f3 que a purga\u00e7\u00e3o ia aumentando de tamanho \u2013 um s\u00e9culo, dois s\u00e9culos&#8230;Culpa do pecado repetido, do pecador vil, do esp\u00edrito fraco, incapaz de conter baixos instintos. E porque era cada vez mais dif\u00edcil alcan\u00e7ar o tal arrependimento perfeito. Incompet\u00eancia do confessor, eu acho.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, formava-se a fila de pecadores na porta do confession\u00e1rio de treli\u00e7a. Chegava sua vez, voc\u00ea ajoelhava, via a cortina da janelinha se abrir e, l\u00e1 do escuro, ouvia a voz rouca:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea pecou?<\/p>\n<p>-Pequei, padre.<\/p>\n<p>-Que pecado?<\/p>\n<p>-Ah, desobedeci minha m\u00e3e, n\u00e3o respeitei meu av\u00f4, estudei pouco.<\/p>\n<p>A\u00ed a pergunta terr\u00edvel:<\/p>\n<p>-E o pecado da carne?<\/p>\n<p>-Sim, padre.<\/p>\n<p>-Quantas vezes?<\/p>\n<p>Hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-Umas tr\u00eas.<\/p>\n<p>A voz se tornava um sussurro ansioso \u2013 e voc\u00ea ouvia a parte terr\u00edvel da pergunta terr\u00edvel:<\/p>\n<p>-Sozinho ou com os outros?<\/p>\n<p>De exibido respondi:<\/p>\n<p>-Com as outras.<\/p>\n<p>Ganhei um ter\u00e7o inteiro para rezar e um conselho:<\/p>\n<p>-Pe\u00e7a perd\u00e3o \u00e0 Rainha do C\u00e9u. Reze com fervor para ter um arrependimento perfeito. E reze muito \u00e0 noite para vencer essa tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da missa havia suco, caf\u00e9 com leite, p\u00e3o e manteiga para os comungantes. E futebol no p\u00e1tio.<\/p>\n<p>Era mais um jogo do GESM \u2013 Gr\u00eamio Esportivo Santa Maria \u2013 contra um advers\u00e1rio sem nome. O Visitante. Sete contra sete no campo sem grama. O Servi\u00e7o de Alto-Falantes Santa Maria transmitia a partida na voz de Colmar Rocha Braga ou Dide Bettega, trabalhos t\u00e9cnicos de Osny Bermudes. O p\u00fablico torcia na arquibancada de tr\u00eas degraus no lado norte do campo.<\/p>\n<p>Geralmente eram partidas f\u00e1ceis, goleadas hist\u00f3ricas: GESM 9, Visitante 2. A exce\u00e7\u00e3o eram os jogos contra o Col\u00e9gio Igua\u00e7u, equipe formada por craques do futebol juvenil. Muitos eram ex-alunos expelidos do Santa por baixo aproveitamento escolar. Traziam broncas e m\u00e1goas de antigos professores e ex-colegas. \u00a0Davam o troco, humilhavam; exibiam dribles diferentes, habilidades adquiridas no juvenil do Coritiba ou do Atl\u00e9tico. Mais de uma vez o amistoso das manh\u00e3s de domingo terminou em pancadaria.<\/p>\n<p>A briga come\u00e7ou ao meio-dia na pra\u00e7a Santos Andrade e eu era parte dela. Acontece que o \u00eamulo de maio zombou da minha nota e reagi:<\/p>\n<p>-Me espera l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Ele tinha hora para chegar em casa.<\/p>\n<p>-Hoje n\u00e3o. Domingo.<\/p>\n<p>Durante o resto da semana a turma elaborou uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo dos duelistas. N\u00e3o vale morder, n\u00e3o pode atirar pedra, n\u00e3o traga o rel\u00f3gio. O c\u00f3digo s\u00f3 n\u00e3o dizia quantos rounds a briga ia durar. O ch\u00e3o era de pedregulho e logo de in\u00edcio ralei o joelho e a cara rolando de um lado para outro. Em volta de n\u00f3s um bando de garotos torcia e gritava instru\u00e7\u00f5es. Eles n\u00e3o torciam nem por mim nem pelo \u00eamulo \u2013 torciam pela a briga.<\/p>\n<p>Uma eternidade depois apareceu um senhor e mandou parar. Obedecemos aliviados por n\u00e3o ter que ralar mais nada. Cheguei em casa com a roupa de domingo rasgada e uma marca no rosto que durou uma semana. Felizmente o outro tamb\u00e9m estava marcado.<\/p>\n<p>Agora, um minuto para contar o que \u00e9 \u00eamulo. Trata-se do m\u00e9todo para estimular a competitividade dos alunos. Funcionava assim: todo fim de m\u00eas, o irm\u00e3o titular entregava a cada um a caderneta escolar com as notas e a classifica\u00e7\u00e3o. Tinha um menino muito alto que usava \u00f3culos e tirava dez em todas as mat\u00e9rias, principalmente matem\u00e1tica, portugu\u00eas e ci\u00eancias. Era o Primeiro. Assim, com letra mai\u00fascula. Ganhava medalhas no fim do ano, muitas medalhas, uma para cada mat\u00e9ria em que brilhava.<\/p>\n<p>Depois vinham o segundo, o terceiro, o quarto, j\u00e1 com min\u00fascula. O irm\u00e3o titular ent\u00e3o determinava os \u00eamulos do m\u00eas seguinte. O Primeiro ia competir com o segundo, o terceiro com o quarto, o quinto com o sexto e assim por diante. Vamos ver quem passa do outro. No m\u00eas seguinte, quem vencesse seria louvado e o derrotado mereceria um coment\u00e1rio complacente, a menos que ca\u00edsse mais de uma posi\u00e7\u00e3o no ranking da sala. A Federa\u00e7\u00e3o de Boxe n\u00e3o faria melhor.<\/p>\n<p>Os maristas abandonaram h\u00e1 bastante tempo essa alavanca pedag\u00f3gica. Algu\u00e9m descobriu que \u00eamulo significa advers\u00e1rio, rival, contendor e talvez inimigo. Agora a ideia \u00e9 ensinar atrav\u00e9s da colabora\u00e7\u00e3o. Aprender junto com os outros \u00e9 melhor do que aprender com o inimigo. Meu \u00eamulo ficou durante anos atravessado na garganta. E era um \u00f3timo sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. 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