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Por que Gloria Maria não pode ajudar Daniela Falcão?

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hkhkh Testemunha ruim

 

 

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Gloria Maria aparece nos jornais dizendo que não houve racismo naquela festa promovida por Daniela Falcão, diretora da Vogue Brasil.

Vamos lembrar os fatos:

Donata Meirelles, ex-diretora de estilo da revista Vogue Brasil, chamou a sociedade paulista para seu aniversário no hotel Unique. O ponto alto do party foi o momento em que a anfitriã sentou numa espécie de trono ladeada por mulheres negras vestidas de mucamas. As fotos repercutiram mal, parecia saudade da escravatura, da casa grande, e houve pessoas que a acusaram de racismo.

No final do bate-boca, ela se demitiu do cargo. O baile de carnaval da revista foi transferido para mais tarde.

Além de adiado, o baile trocou de atração: no lugar de Ivete Sangalo cantou Jorge Ben Jor. A assessoria do evento disse à Folha de São Paulo que a mudança se deu por questão de agenda de Ivete.

A outra providência está descrita acima – ouvir depoimentos como o de Glória Maria para desfazer a imagem ruim de racismo. Não deu certo. Glória Maria não pode ajudar Daniela Falcão, nem Donata Meirelles, porque não é mais negra: embranqueceu sob os spotlights da Globo. Vai a festas no consulado-geral da França, compra na Tiffany, na Barra da Tijuca, toma chá na pérgula do Copa. Pertence ao 1%.

Quem entende esse embranquecimento é o gerente do banco. Um milhão na conta, cartão de crédito diamond. viagem na executiva? Ela é branquíssima. Pelé voltou ao Brasil quase de olhos azuis em 1958. Tinha ganho a Copa do Mundo e o coração de suecas, que corriam atrás dele com grande apetite.

Nelson Rodrigues viu o craque Didi fazer um lançamento de 40 metros e definiu aquele negro alto, pescoço longo, sempre de cabeça erguida. -É um príncipe etíope de escola de samba. Príncipe. A folha seca e a camisa da seleção colocaram Didi na nobiliarquia brasileira.

Mario Filho, irmão de Nelson, escreveu o livro definitivo sobre o assunto, “O Negro no Futebol Brasileiro”, da Civilização Brasileira, que virou série da HBO, sob a direção de Gustavo Acioli.

Vários capítulos são dedicados ao Fluminense, time de Nelson e Mario, e da classe alta, o que mais resistiu à contratação de negros. A diretoria tricolor só mudou de ideia após derrotas seguidas para o Vasco, onde brilhava o trio Lelé, Isaias e Jair da Rosa Pinto.

Os pretos foram chegando às Laranjeiras, e terminou a era do vexame. Um dia apareceu um ponta esquerda trazido do Madureira chamado Robson. Ficou amigo do jornalista, com quem trocava  uma ideia sobre futebol e a vida. Uma vez, colocou a mão no ombro dele e refletiu:

-Sabe, seu Mario, no tempo em que eu era preto tinha muitas dificuldades…

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Posted on 26th março 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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SZE – Uma ideia para melhorar Curitiba

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Está no BemParaná: “Levantamento divulgado pela Paraná Pesquisas aponta empate técnico entre quatro candidatos na disputa pela prefeitura de Curitiba: o atual prefeito Rafael Greca (PMN, na época, agora no DEM), o deputado federal e ex-prefeito Gustavo Fruet (PDT), o deputado federal e secretário da Justiça, Trabalho e Família, Ney Leprevost (PSD) e o deputado estadual Fernando Francischini (PSL).”

 

O que significa isso? Nada.  (*)

 

Uma pesquisa de intenção de voto a um ano e meio da eleição não quer dizer nada. Ajudou o Fernando Francischini a ficar um pouco mais conhecido? Verdade, mas também contribuiu para colar o nome dele ao do Bolsonaro, o Presidente que caiu 15 pontos no Ibope em apenas 10 semanas. É um desastre pior que o do Collor em 1990 – só que o Collor havia sequestrado a poupança da gente.

 

Se eu fosse candidato, esquecia a pesquisa. Ia para o bairro conversar, tomar café em copo de vidro, falar sobre ideias para melhorar Curitiba. Como a criação das SuperZonas Escolares, as SZE. É um projeto desenvolvido com êxito em 13 bairros de Londres, estimulado pelo National Institute for Health Research(NIHR).

Para descobrir como funciona, pegue mapa e compasso e trace um círculo com um quilômetro de raio em torno da escola. Pronto, você desenhou uma SZE. Falta construí-la.

Um quilômetro é a distância que a gente consegue percorrer em 10 minutos. E um dia, quando a calçada for boa, será possível estabelecer rotas seguras e estimular os alunos a seguirem a pé, de patinete ou de bicicleta para a aula.  

 

Para o projeto de SZE dar certo é preciso participação de alunos, professores, pais de alunos, ex-alunos, líderes religiosos, moradores e donos de empresas.

A ideia é debatida sem pressa em reuniões semanais. O grupo, com auxílio de um moderador, discute o plano, emenda, altera, suprime o que quiser. O objetivo é chegar ao modelo de SZE que sirva para todos. Escrevem tudo e tornam-se donos do projeto, que inclui ações como

  • Reduzir o tráfego em torno das escolas para diminuir a poluição do ar
  • Restringir a publicidade de alimentos não-saudáveis
  • Criar ou melhorar as rotas para pedestres rumo à escola e
  • Redesenhar os espaços públicos para aumentar a segurança
  • Instalar bebedouros públicos e encorajar o consumo de água em vez de refrigerante
  • Melhorar o acesso e a utilização de espaços verdes
  • Criar hortas comunitárias.

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(*) “Há uma cultura do lixo por ai. Jogamos lixo sobre o público o tempo todo. Depois vem o pesquisador de opinião pública e pergunta ao eleitor: -Está sentido algum cheiro?” Bob Woodward.

 

 

 

Posted on 25th março 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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No passado, os “crimes de honra” despertavam violenta emoção no leitor, vendiam jornal e lotavam o Tribunal do Juri. No momento triste que o país vive, apedrejamento de adúltera serve para aumentar a audiência da TV do bispo

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gghghg O artigo 240 do Código Penal  foi revogado pela Lei nº 11.106, de 28.03.05.

 

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Anos atrás, o cara matava a mulher e o advogado explicava para o Tribunal do Juri que a infiel fora liquidada “em legítima defesa da honra” e também porque o marido estava “embriagado por violenta emoção”. Frequentemente obtinha a absolvição do réu.  

O artigo 240 do CP foi revogado, mas o feminicídio aumentou. Um deles ocorreu há poucos dias na novela “Jesus” da TV Record. A adultera Judite confessou a infidelidade ao marido Caifás mas não conseguiu perdão. Foi levada para ser apedrejada pelo povo. 

 

Em uma única semana de agosto do ano passado, foram registrados em São Paulo pelo menos cinco casos de mulheres assassinadas por seus companheiros ou ex-companheiros. Dado citado pela revista Exame, que reflete a realidade do Brasil, país com a quinta maior taxa de feminicídio do mundo.

Só perde para alguns países do Oriente Médio e para a Itália.

Há pouco (li agora no Guardian) um juiz de Bolonha decidiu que “uma tempestade emocional” ocasionada pela “infeliz experiência de vida” motivou um certo Michele Castaldo, 57, a assassinar Olga Matei, 46, após um mês de relacionamento tempestuoso. E reduziu a sentença de prisão de 30 para 16 anos.

Em Genova, na semana passada, uma juíza, Silvia Carpanini, deixou pela metade a sentença dada a Javier Gamboa, por esfaquear e matar sua mulher Angela Reyes. A doutora Carpanini disse que simpatizava com o “desapontamento” e a “humilhação” que Gamboa sentiu quando sua mulher deixou de cumprir a promessa de abandonar o amante.

O advogado de Reyes, Giuseppe Maria Gallo, acusou a juíza de ressuscitar o crime de honra em sua sentença.

Posted on 19th março 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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AO DEUS KOM UNIC ASSÃO

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Eis-me prostrado a vossos peses

que sendo tantos todo plural é pouco.

Deglutindo gratamente vossas fezes

vai-se tornando são quem era louco.

 

Nos versos acima o poeta Carlos Drummond de Andrade desanca a imprensa da segunda metade do século passado. Se fosse hoje possivelmentee estaria falando mal do WhatsApp, inventado em 2009, que ajudou a botar o povo na rua em 2013, inflamou a ira contra o PT, incendiou o Congresso Nacional no impeachment da Dilma e na greve dos camioneiros. E finalmente turbinou essa eleição do Jair.

Desancaria também o Facebook, que entregou arquivos e informações de usuários para a Cambridge Analytica. E o Google, que vende relatórios sobre interesses dos usuários.

O poeta Drummond escreveu para jornais. Sentado na redação ao lado de repórteres e editores, aprendeu muito sobre o negócio da mídia. Inventou esse cara, o Kom Unic Assão, para advertir que, assim como o papel aceita tudo, a cabeça do leitor pode ser infectada por todo tipo de merda – das maledicências bobinhas às mentiras mais cabeludas.

Intoxicados de fakes, americanos elegeram Donald Trump e agora assistem à construção de mais um Muro, tão inútil quanto aquele que separava as Alemanhas, mas infinitamente mais caro.

Outros deram a vitória ao Leave no Brexit. Neste momento, a Inglaterra arrependida sofre a humilhação de pedir pinico em Bruxelas.

Aqui, a eleição deu poder a um improvável ajuntamento de especuladores do mercado financeiro, neopentecostais anti aborto e pró cura gay, políticos do baixo clero e militares, a maioria de pijama. E à inacreditável Família Bolsoprano.

Essa coligação maligna quer agora acabar com a Previdência Social. Será que o deus Kom vai ajudá-la?

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Está difícil convencer o povo que toda a desgraceira nacional – os 12 milhões de desempregados, os 30 milhões de trabalhadores informais, milhões da famintos – é resultado da corrupção pé-de-chinelo de políticos que cobram “rachadinha” dos assessores. Eles, só eles, deixam o Brasil pobre, com essa dívida que não para de crescer?

Claro que não. Há cada vez mais gente concordando que os responsáveis são outros. O poeta Drummond havia previsto a mudança.  “Kom tornará são quem era louco”.

Sabemos que não dá para enganar todos o tempo todo, embora o Itaú continue dizendo que é “um banco feito para você” quando é feito para os Setubal e os grandes acionistas.

A informação vence a enganação e deixa o povo esperto. O conjunto de palhaçadas a que assistimos de dezembro para cá rompeu a barragem e agora parece inevitável o refluxo das fake news. É bíblico, “A verdade vos inundará como a lama inundou Brumadinho.”. Mas aqui há uma diferença essencial: todas eles merecem ser afogados.

Afogadas em praça pública com transmissão mundial pelo YouTube e Facebook.

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Até o piolho do craqueiro da Boca Maldita sabe as causas da miséria nacional: a evasão fiscal de megacorporações, a dívida pública não auditada, o dinheiro levado para Miami e dali para os paraísos fiscais do Caribe e do Canal da Mancha. Essa sonegação de luxo é produzida diariamente, ano após ano, no ambiente manhattiano de grandes escritórios de planejamento tributário. E só vai diminuir (acabar, jamais!) quando o povo souber de tudo.

São e esperto, o povo imporá fiscalização forte e tributação progressiva da grana do 1% mais rico. Deselegerá quem elegeu errado, impichará quem mereça ser impichado, exigirá informações de quem sempre o desinformou e mandará um ultimato a Brasília: “Lula livre –  ou prendam todos os outros!”

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A epidemia nacional de obesidade – e os bandidos da história

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gghghg Um bom exemplo. No rótulo americano o vendedor é obrigado a colocar a exata quantidade de açucar, de sal e de colesterol.

 

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Estudo nacional realizado na Inglaterra demonstrou a relação direta entre o consumo de açúcar e o surgimento do diabetes do tipo 2 em crianças.

Se os rótulos dos alimentos industrializados fossem claros haveria menos diabetes no mundo, sobre isso os médicos são unânimes. Bastava esse cuidado: escrever a exata quantidade de açúcar, sal e colesterol que o potinho de iogurte contem.

Alguns defendem mais clareza ainda – que advertências sejam enfatizadas, como no cigarro.

Um conselho ao fabricante: faça um rótulo bem claro ou estará sujeito ao pagamento de indenização por danos morais.

A justiça brasileira está punindo os rótulos mal feitos. Entre muitas outras decisões está o acórdão da 1a. Turma Recursal Cível, do TJ-RGS, publicada no Diário da Justiça gaúcho do dia 06/08/2018. Informação insuficiente ou enganosa justifica pedido de indenização.

Nos supermercados dos EUA a situação é melhor, porque as associações do consumidor são mais fortes. Olhe esse rótulo, informando que um copo de 228 gramas contem 30 mg de colesterol (gorduras animais), 470 mg de sódio (sal) e 5 gramas de açúçar.

Há na internet petições dirigidas à Anvisa exigindo mais informação sobre o que estamos comendo e oferecendo às crianças. O Brasil enfrenta uma epidemia de obesidade. Os fabricantes que enchem de açúcar refrigerantes, sorvetes e iogurtes são os bandidos da história.

 

Posted on 12th fevereiro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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Guerras burras

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Great nations do not fight endless wars. Grandes nações não se metem em guerras intermináveis. A frase é do presidente Donald Trump, ontem, no Congresso dos EUA, no discurso sobre o estado da União – provavelmente o melhor achado dele e de seus ghostwriters no longo (80 minutos) trololó anual.

 

Trump estava explicando a retirada das tropas americanas da Siria após 19 anos, milhares de mortes e sete trilhões de dólares gastos sem resultado. Toda guerra é burra, mas as guerras sem fim são particularmente estúpidas.

Atestam da incompetência de quem decide.

Ou evidenciam a esperteza do malandro no poder, porque toda guerra dá lucro e guerras intermináveis dão lucros intermináveis.

Aqui uma pausa para contar que, dando continuidade à nossa guerra às drogas, a Polícia Rodoviária Federal prendeu, dia 23  de janeiro, em Alto Paraiso, noroeste do Paraná, um caminhão transportando 24,5 toneladas de maconha, a maior apreensão da história. Um recorde. Nunca antes neste país foi apreendida tanta maconha junta!

E para assegurar que o recorde – como todos os recordes – será batido em breve.

Essa guerra vem da longe, talvez um século de apreensões de droga, prisões de traficantes, ampliação de penitenciárias – hoje há mais de 700 mil encarcerados – e consolidação do Brasil como um dos países que mais investem na guerra às drogas. Batemos recorde atrás de recorde, em quantidade apreendida, traficantes presos, prisões construídas.

Criminalizar a maconha é uma obsessão nacional. Obsessão esperta. O senador que discursa  contra a cannabis é o mesmo que faz lobby para que o fumo e o álcool sigam liberados. E para que a polícia receba armamentos cada vez mais sofisticados e tenha direito de matar bandido ou gente parecida com bandido.

Too bad. Grandes nações não se metem em guerras sem fim.

Posted on 6th fevereiro 2019 in Sem categoria  •  No comments yet
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Um craque em evasão fiscal

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hhhkhkh O supersonegador

 

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Carlos Ghosn é o executivo brasileiro de maior destaque no mundo.

O cara conseguiu unir Renault, Nissan e Mitsubishi em gigantesco conglomerado que disputa a liderança mundial da indústria automobilística com a Volkswagen. Mas aparentemente é um criminoso – e sua história, bem investigada, poderá responder uma das perguntas mais angustiantes de nosso tempo: como é possível enganar uma empresa desse porte (e o governo) durante tantos anos?

 

Ghosn ganhou, só da Nissan, cerca de 10 bilhões de yens (333 milhões de reais) nos últimos cinco anos. E sonegou quase metade. Tinha uma vida de rei. A Nissan, segundo o Guardian, pagou “valores imensos” por casas luxuosas que o executivo utilizava no Rio de Janeiro. Beirute. Paris e Amsterdam.

A evasão fiscal é o crime mais popular no mundo, cerca de oito vezes maior do que a corrupção. O principal estímulo para ela é a taxação elevada. No Japão, onde o imposto é progressivo, quem recebe mais de 40 milhões de yens por ano paga 45% de IR federal. Há também IR municipal de 6%.

Por que as sofisticadas ferramentas de governança corporativa fracassaram em detectar a evasão fiscal? O que faziam os fiscais do governo, que não descobriram nada? Ghosn caiu por causa de um informante (whistleblower) que comunicou as irregularidades.

Incompetência e leniência estão entre as causas prováveis da corrupção endêmica que afeta as grandes corporações, da Nissan à Petrobrás, mas que também atinge o mercado da esquina, onde o gerente desonesto pode fazer sociedade com o contador e quebrar a firma.

Por fim, a pergunta que não quer calar: por que sabemos tão pouco sobre a evasão fiscal no Brasil?

 

Posted on 20th novembro 2018 in Sem categoria  •  No comments yet
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Emoções fortes no 6º Distrito (*)

Naquela segunda-feira de frio e garoa fina, Doc Franco, 32 anos, delegado do 6º Distrito, tinha motivos para se sentir infeliz. Além do doloroso fora da namorada, a bronca da vizinha – megera estridente inconformada com o som de seu sax (a tentativa de replicar Paul Desmmond em Blue Rondo a la Turk foi até meia noite mesmo?). E, para complicar, o próprio fracasso como encanador. Agora, enquanto não chegava o profissional, era obrigado a fechar o registro geral da água.

Dormiu mal e cedinho o chefe ao telefone.

-Bom dia, chefe.

-Mau dia, Franco. Teve fuga no Ahu. Oito bandidos cheios de pó e anfetamina andam por ai. Dois latrocidas.

-Armados?

-Facão e estoque, mas daqui a pouco arranjam revolver. Mobilize a equipe.

Fez um café que como sempre não deu certo e entrou no Mustang 69. Preto, joia descolada num picareta que lhe devia um favor. Inseriu um Bud Powell no toca-fitas do carrão e acelerou até o Cajuru.  Lá ninguém sabia da fuga em massa, da cidade em polvorosa, das famílias com medo. Com o escrivão em licença-prêmio, dois agentes jogavam damas, o mais barrigudo acabava de fazer uma rainha.

-Bom-dia, colegas, chama o super pra mim?

-Saiu para ver uma ocorrência, doutor.

Não acreditou. O superintendente inútil devia estar se enchendo de chá de gengibre com mel para curar a ressaca. Não disse nada e seguiu para a sala de espera, onde quatro cabeças se voltaram para ele. O soldado que os conduzia explicou.

-Agressão entre cunhados, doutor, com lesões corporais.

-Todo mundo na minha sala.

Havia duas cadeiras em frente ã mesa do doutor. Nelas sentaram o agressor e o agredido, este com olho roxo e grande calombo na testa. As duas testemunhas em pé.

-Ele me deu uma cabeçada, doutor. À traição – iniciou o de cabelo loiro escorrido, que se chamava Pedro e falava com forte sotaque da Barreirinha. Sabe como, né? Caroça, corente, briga de ripa, essas coisas.

-É verdade?

-Ele me agrediu primeiro, defendeu-se o negão com cara de babalorixá. –Não tenho de aguentar xingamento em minha casa.

-Xingou ele?

-Só disse a verdade. Esse vagabundo me roubou.

-Verdade? Você roubou ele?

-Ia devolver.

-Devolver o que?

-A bacia.

Franco fez ar contrariado..

-Deixa eu entender. Vocês vieram parar aqui por causa de uma bacia. É de ouro?

-É da minha mãe.

O babalorixá aproveitou a deixa.

-Mixaria de bacia, doutor. Estava furada, a sogra pediu para eu consertar. Então teve o problema…

-Cala a boca!

França sentiu que estava na hora de assumir seu papel de majorengo. Com voz de baixo profundo perguntou:

-Você tem medo de eletricidade, negão?

-Tenho.

-Tenho sim senhor! – corrigiu Franco com um berro.

-Sim senhor.

-Portanto não quer levar um choque elétrico nesse rabo preto.

-Não senhor.

-Então me diga que vai devolver a porra da bacia.

-Vou devolver a porra de bacia, doutor.

-E pede desculpa.

-Desculpa, doutor.

-Não pra mim. Pede desculpa pro cunhado.

Hesitação. França subiu mais um tom.

-PEDE DESCULPA, CACETE!

-Desculpa, cunhado.

-Que beleza! Agora em inglês, porque Curitiba é a terra de todas as línguas. Diga: ai ame sórri.

-Ai ame sórri.

-Agora em francês. Diga jê suí desolê.

-Jê suí desolê.

-Agora em polaco. Diga – virou para a vítima – como é que se diz sinto muito em polaco, polaco?

-Tak mi przykro.

-Ouviu? Diga táqui mi pisicró pro teu cunhado e amigo.

– Táqui mi pisicró.

-Muito bom. Só falta um beijo no olho dele, pra curar o machucado mais depressa.

O babalorixá vacilou um pouco, então delicadamente beijou o olho do cunhado.

-Agora você, polaco.

– Eu o quê, doutor?

-Tua vez de beijar ele. Diga que aceita a desculpa.

O polaco perguntou cauteloso

-Pode ser na testa?

-Beija onde quiser. Depois sumam.

Quando eles sumiram, os tiras abandonaram o tabuleiro de damas. O mais velho perguntou cheio de respeito:

-O doutor trabalha com gerador de manivela?

-É meu instrumento de investigação preferido, com dois motores de seis volts.

Os dois se olharam. Ele tá nos gozando?

-Vou dar mais uma informação aos colegas. Não gosto de me jactar, mas na Furtos e Roubos meu nome de guerra era Doutor Volts. Só de ouvir que o Doutor Volts ia descer para o interrogatório a malandragem começava a dar o serviço.

Fez uma pausinha e autorizou.

-Podem espalhar.

Saiu. Antes de dar a partida no carrão, trocou a fita de Bud Power pelo tema de Dirty Harry, bom para acelerar pela BR-116 até o Atuba, por onde os fugitivos da Prisão Provisória deviam passar daqui a pouco.

Elementar, grande Lalo Schifrin!

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(*) – Publicado antes na coluna “Coisas e Gente”, da velha Ultima Hora de Curitiba

 

Posted on 2nd novembro 2018 in Sem categoria  •  No comments yet
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O carrapicho e o majorengo

Todos os delegados eram majorengos. Todos os repórteres éramos carrapichos.

Todos os majorengos eram doutores. Até os que só possuiam título de graduação.

Então, eu, carrapicho, subi os 31 degraus da boate Marrocos, pouco depois da meia noite, e avistei o majorengo em sua mesa de pista. Para ser preciso: em sua mesa cativa de pista. Num segundo atravessei o salão.

-Tudo bem, doutor Miguel?

-Olá, pegue um uísque, respondeu o doutor sem interromper a conversa com a deslumbrante Lacksmi, stripper argentina recém chegada à casa, que bebia champanhe Veuve Clicquot.

Sentei e não quis uísque, mesmo sendo um legítimo scotch rótulo preto. Pedi uma coca com uma fatia de limão e fiquei esperando a vez de falar. A casa estava lotada porque era estréia do balé portenho. Oficialmente oferecia lugar para 200 pessoas mas, em noites assim, tolerava-se superlotação em nome do faturamento.

E também em nome da solidariedade humana. Não era justo deixar bons amigos na garoa fria daquelas noites de junho, jogando conversa fora com o velho Cachimbo, que cumpria ordem – só entra se alguém sair. O mandamento não valia para políticos, tiras, carrapichos e amigos do Paulo Wendt, o grande Paulo, o Rei da Noite que trazia astros e estrelas internacionais para a Marrocos, teatro Guaira e clubes sociais.

O garção chegou com a coca e um pratinho de amendoim quando Lacksmi foi para o camarim e o doutor se virou:

-Então, qual é a manchete?

-Vai dar problema no Diario do Paraná, doutor. Um gráfico furou a grave e vão rodar o jornal.

O doutor tinha sido delegado da DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social.

-E vocês?

-Não vai ter distribuição. Os piquetes fecharam as saídas dos caminhões.

-Eles têm direito de distribuir jornal.

-Nós temos direito de fazer greve. Tá na Constituição. O Diario Popular e a Ultima Hora entenderam e não vão circular. A Gazeta dispensou todo mundo. A encrenca é no Diário.

-Se eu fosse vocês deixava o jornal sair. O Secretário de Segurança levou uma prensa dos proprietários. Tá balançando.

-E o doutor?

A bateria do maestro Genesio Ramalho deu um rufo, os pistões iniciaram “O Homem do Braço de Ouro”. O majorengo pediu mais gelo no uísque e falou baixinho.

-O doutor vai assistir ao show.

Peguei minha coca e fui para o fundo do salão, onde estavam os repórteres Ali Chaim, Cem Gramas e mais dois que eu não lembrava o nome. Batemos palmas para o balé e mais ainda para Laksmi, cujo strip tease era puro balé. A luz mudava, um spotlight jogava luz sobre a artista. Sax, clarineta e flauta tocavam o trecho do balé Bela Adormecida intitulado Variações do Pássaro Azul. O plateia veio abaixo, um gigolozinho de terno preto e cabelo abotoado gritou:”Sucesso!” Terminei a coca e voltei para a frente do Diario do Paraná sem boas notícias.

Nada a fazer. Ainda bem que chegou o lanche – café com leite e sanduiches – feito na casa do Nelson Comel. Alguém comparou aquela frugalidade com os filés em bandejas de prata que garçons do Ile de France traziam para os fura-greve. Tomara que tenham indigestão.

Os jornais impressos em fardos de cinquenta – “Greve fracassa!” era o titulo da primeira página – foram colocados no caminhão da distribuição.

Amanheceu. Havia dois piquetes, um de cada lado da rua. O caminhão começou a sair.

-Senta todo mundo!

Os grevistas sentaram, o caminhão parou. A greve ia vencer, quando chegou o Corpo de Bombeiros. Um tenente desceu do caminhão vermelho e veio falar com o piquete. Vão embora, temos ordem de desbloquear a rua. Ordem de quem? Do governo.

Do orelhão da esquina avisei os deputados Luiz Alberto Dalcanalle e Leon Naves Barcelos. O secretário de Segurança também foi informado e disse já vou ai. Os vizinhos começaram a descer para ver no que dava aquilo. Já eram 6 e meia e nada se resolvia. Então o tenente se irritou.

-Saiam ou passo por cima!

-Ninguém sai.

O tenente deu ordem de avançar, o sargento na boleia não avançou. Transtornado, o tenente disse saia daí e assumiu o caminhão. Botou uma primeira e veio vindo. Os deputados gritaram: “É assassinato!” Um morador correu e sentou na rua ao lado dos grevistas. O tenente continuou avançando. A tragédia era inevitável.

Então, do nada, surgiu o doutor Miguel. Paletó aberto, 38 na cintura, subiu no degrau do caminhão e ordenou: “Pare, tenente, ou te prendo agora!”

O tenente parou. Parecia aliviado com a ordem. Os deputados – agora havia outros – deram parabéns ao militar porque não se mata irmão trabalhador, o Secretário de Segurança apareceu e defendeu o entendimento. Por um buraco no muro dos fundos, os fura-greve começaram a transportar jornais. Uns 200 chegaram às bancas, onde foram empilhados ao lado do jornal “A Greve”, impresso na máquina do Diário Popular. O proprietário Abdo Aref Kudri emprestou a chave da gráfica ao comando da greve.

 

Posted on 29th outubro 2018 in Sem categoria  •  No comments yet