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O GRANDE FEDOR

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ESGOTO

Cano de esgoto no Belém

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Curitiba cheira mal.

No calorão, sem chuva, com severa estiagem, Curitiba fede. O mau cheiro se espalha pelas proximidades dos rios Passauna, Barigui, Belém, Atuba e de seus afluentes como o Bacacheri e o Juvevê.

Culpa dos moradores, da Prefeitura, de quem? Ficou famoso o encontro do prefeito Rafael Greca com duas senhoras, durante a primeira administração dele. Elas reclamaram indignadas do mau cheiro do rio e Rafael respondeu: “Rio não caga, minhas senhoras. Quem cagam são vocês que despejam o esgoto no rio!”

Era assunto sério, virou humor curitibano.

Mas verdade seja dita. Nossos riozinhos, reduzidos a canais de escoamento de esgotos, não contaminam a água de beber. A Sanepar trata bem da água vendida ao consumidor final. Um gosto de cloro mais forte é a prova do cuidado em matar as bactérias patogênicas, pseudomonas fluorescens, serratia marcescens, proteus, (que ocorrem na matéria orgânica em putrefação) os bacillus subtiüs e os vários coccus, como a escherichia, o aerobacter e o terrível streptococcus faecalis

Nossos velhos conhecidos do exame de fezes.

A pergunta que deve ser feita é outra: Se a empresa de saneamento é competente, capaz de nos livrar de todos esses bichos de nome assustador, por que o rio cheira mal?

Melhor resposta: porque é difusa a responsabilidade pela despoluição da água. Há um cipoal de leis municipais, estaduais e federais. Todo mundo é responsável; logo ninguém é responsável.

Outro motivo: a Sanepar é uma poderosa companhia de economia mista de capital aberto, vende ações no mercado. Acompanhe o valor da ação preferencial SAPR4. Em 12 meses ele caiu de 14,84 para 10,26, pela cotação de ontem, dia 16 de fevereiro. Isso é mau. Acionista quer dividendo, quanto mais melhor. Ele não mora aqui e muitos nem são brasileiros. Nem são gente, apenas fundos de pensões do Canadá ou dos Estados Unidos. Os experts da Bolsa aconselham: “Compre, o Brasil está barato.”

E agora? Vai  contentar o acionista ou satisfazer o consumidor? Ah, entre les deux mon coeur balance.

 

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the great stink

 

Charge publicada em jornal londrino. A  morte remava no Tamisa.

 

Em 1858 Londres era a maior cidade do mundo, mas seus 2,5 milhões de habitantes não tinham um sistema de tratamento dos esgotos. Nos anos 1840, houve algumas tentativas de sanear as 200 mil fossas, que frequentemente transbordavam. O conteúdo, retirado manualmente, era transportado para o campo e vendido como fertilizante. Um processo complicado, que não melhorou muito com a solução encontrada por Edwin Chadwick, em 1842, quando os efluentes passaram a ser lançados na rede de escoamento de águas pluviais que terminava no Rio Tamisa e afluentes. A água bebida pelos londrinos era contaminada por fezes.

As consequências desse processo ficaram evidentes no verão de 1858, quando um calor sem precedentes cozinhou no rio um caldo de fedor tão intenso que interrompeu quase toda atividade humana. No dia 16 de junho, a temperatura de Londres alcançou inéditos 35 graus centígrados à sombra, levou um advogado que trabalhava no Riverside Temple Bar a escrever: “O fedor é doentio e nauseante ao extremo…estou sendo assassinado aos poucos.”

Era o Grande Fedor (The Great Stink). Veio depois de três graves epidemias de cólera, na primeira metade do século 19, que mataram dezenas de milhares de londrinos.

O ar estava péssimo no Parlamento, construído na margem do rio. Muitos de seus membros fugiram para o campo. Os servidores menos afortunados afastavam-se do plenário com lenços protegendo os narizes.

Benjamin Disraeli, então com 53 anos, presidente da Câmara dos Comuns e chanceler do Tesouro, conseguiu a aprovação da Thames Purification Bill, uma lei que reunia todas a atividades de saneamento, em todos os níveis da administração pública, sob uma única jurisdição. É o contrário – é bom repetir  – do que acontece no Brasil, onde normas de saneamento ambiental  são produzidas pelos governos federal, estadual e municipal e muitas vezes há conflito entre elas.

Vamos reformar a Constituição para resolver isso? Com esse Congresso não.

 

 

SERVIÇO

 

One Hot Summer:

Dickens, Darwin, Disraeli

And the Great Stink of 1858

Autora: Rosematy Ashton

Yale University Press, 338 páginas.

 

 

Posted on 17th fevereiro 2018 in Sem categoria  •  No comments yet

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