logo
Governo e política, crime e segurança, arte, escola, dinheiro e principalmente gente da cidade sem portas
post

A Curitiba de Mr. Peachum

.

gghghg Mudaram para cá.

.

Nunca houve tanto mendigo em Curitiba. Cada um com sua técnica e local de pedir esmola. Um não invade a área do outro. É uma organização.

E nunca houve tanta crise. Li que o Brasil caminha para ter só duas classes – os ricos e os miseráveis. Isso é ruim. Brecht dizia que os ricos criam a miséria mas não aguentam ver os miseráveis.

Você e eu somos ricos, eis a insuportável verdade. Temos mais do que o suficiente para comer. Alguns podem até alimentar um ou dois rottweilers. Mas não suportamos ver um homem desmaiando de fome, principalmente quando ele desmaia em frente de casa.

Todo curitibano lê a Bíblia e, se não lê, é informado pelos pastores da TV das promessas e maldições ali contidas. Quando vê um pobre, reflete assustado: “É dando que receberei”.

Não dá porque crê, mas porque o mendigo é competente. Usa a palavras certa, apela para o medo, nojo ou horror. Ganha o seu.

As ruas estão horríveis. A cidade virou cenário de uma colossal “Opera dos Três Vintens”, aquela obra prima de Bertold Brecht e Kurt Weil sobre a miséria de Londres na metade do século 19.

A capital inglesa era feia, suja e povoada de mendigos. Eles trabalhavam disciplinadamente sob as ordens de Mr. Peachum, “O Rei dos Mendigos”. Graças ao treinamento, à divisão dos pontos e ao kit com bengalas, óculos de cego, bandagens ensanguentadas, os lucros eram cada vez maiores.

Mr. Peachum ensinava a arte de despertar compaixão. Inventou o kit-mendigo, que era entregue mediante participação de 50% nos resultados. “O importante – insistia – é despertar o ser caridoso que vive dentro de cada homem e de cada mulher”.

Mr. Peachum renasceu em Curitiba. Com um kit-mendigo melhor. Li algumas instruções de seu Guia do Pedinte:

Receita médica. Mostre ao futuro doador a receita. Explique que é urgente porque seu pai tem câncer. Surgiu um medicamento que pode parar o tumor. Falta dinheiro para ir à farmácia. Por caridade, vai ajudar?

Não quero dinheiro. Explique que não quer dinheiro, mostre o calo na mão (há um fazedor de calos no kit) e diga “Sou trabalhador!” Seu velho Uno Mille está parado a três quadras. Acabou o álcool. “Pode me emprestar três ou quatro litros?” Não é por mim, é pela esposa e pelo nenê que chora.

Tem comida? Variação do não-quero-dinheiro. Funciona melhor se a seu lado estiver sua mulher grávida. (Há um kit gravidez no pacote). Vocês não comem desde manhã. Pode ser que alguém more perto e convide vocês para ir até lá pegar um prato de comida. Nesse caso, assalte o doador. Nunca mais vai levar alguém para casa.

Sou cego. Precisa treinamento. O kit tem vídeo do Al Pacino fazendo um cego em “Perfume de Mulher” e até um cão guia. Dá bom resultado em sinaleiro com movimento. Alguns moleques vão jogar dinheiro fake em seu chapéu. Se o ponto for bom, vale contratar um ajudante de cego. Você economiza o cachorro.

Não é assalto, pessoal, tenho HIV! Você enfia a carona na porta do ônibus e sorri para todos. Me ajudem, sou portador do vírus HIV mas, calma!, estou medicado, não vou contaminar ninguém.

Guardador de carro. Mr. Peachum agora quer que cobrem adiantado. “Paguei um pastel para uma mulher com fome e fiquei devendo dez. Conheço um cara que virou ladrão por uma mixaria”.

Posted on 10th setembro 2017 in Sem categoria  •  No comments yet

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *