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Gostei mais do livro

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gghghg Carol Duarte interpreta Eurídice Gusmão

 

 

Sobre “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, nas livrarias em edição da Companhia das Letras e nas telas graças à Amazon, repito o chavão: gostei mais do livro.

A narrativa de Martha Batalha perde parte do encanto no filme de Karim Aïnouz (que escreveu a adaptação para a tela com Inez Bortagaray e Murilo Hauser). O filme traz cenas que não estão no livro, exclui outras que me pareceram indispensáveis e acrescenta pelo menos 20 anos à história para poder incluir Fernanda Montenegro no elenco. Alonga a vida de Eurídice (Carol Duarte), encurta a de Guida (Julia Stockler).

 

Mas, parece que todo mundo gosta mais do livro. Eis o porquê: ao ler o livro eu crio cenas em minha mente. E as cenas são insuperáveis porque são minhas. Aí aparece o diretor e sacrifica minhas cenas, acrescenta outras que não saíram da minha cabeça e ainda inventa um puxadinho da história para abrigar uma atriz famosa, cujo nome aumentará as chances dele, diretor, ganhar prêmios.

No livro alegramo-nos com os feitos de Eurídice como exímia banqueteira ou como talentosa costureira ou como escritora e participante de passeatas no período pós-1964. Carol Duarte, Fernanda Montenegro e Julia Stockler numa passeata contra o obscurantismo de Brasília. Quer coisa mais adequada ao momento que o Brasil vive? Na adaptação para a tela tudo sumiu.

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O blog da Barnes & Noble oferece mais razões para filmes desapontarem os que leram o livro.

A adaptação, diz o blog, é inferior à expectativa, não só do leitor, mas do próprio autor. Stephen King criticou a versão cinematográfica de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick (1980). King ficou descontente com o fraco grita-e-corre de Shelly Duvall e a rapidez com que o personagem de Jack Nicholson passa do estado normal, equilibradíssimo, para a insanidade. No livro, a transmudação de Jack Torrence é muito mais gradual e dramática.

 

“Não imaginei que ele fosse assim”. Imaginei-o mais jovem (ou mais maduro), mais jeitoso, mais carismático. Tome 500 leitores (e principalmente leitoras) que gostaram de “50 Tons de Cinza” e você terá 500 ideias de como é o jovem bilionário Christian Grey e como rolam as cenas de sedução. O desapontamento é geral.

 

Tudo isso é ainda mais verdadeiro em filmes que lidam com utopias, como “1984” e “Fazenda Modelo”. A imaginação do leitor trabalha intensamente para dar rosto aos personagens. E nenhum se parece com os do cinema.

 

Outro problema vem da característica de cada meio. O cinema lida com imagens, o livro com descrições e diálogos. Se você colocar diálogo demais no filme, vira teatro filmado. Se não colocar faltarão informações para o espectador  se envolver na história.

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Há desafios insuperáveis no livro “A Vida Invisível de Eurídice Galvão”. Um deles é transportar para a tela a personagem Zélia, a fofoqueira. Segundo a autora, Zélia é “uma mulher de muitas frustrações. A maior delas é não ser o Espírito Santo, para tudo ver e tudo saber”. E a descrição prossegue: “Zélia estava na verdade mais para Lobo Mau do que para Espírito Santo, porque tinha olhos grandes para ver melhor, ouvidos grandes para ouvir melhor e uma boca muito grande, que distribuía entre os vizinhos as principais notícias do bairro”.

Zelia é filha do repórter Alvaro Staffa, testemunha da Gripe Espanhola de 1918. Alvaro “viu homens agonizando em vômitos de sangue e crianças conversando com mães que já estavam mortas. Doentes em delírio, expulsos de suas casas. Profetas de longas barbas anunciando o fim do mundo. Ouviu os gritos de antas da morte que vinham de janelas fechadas e contou as centenas de corpos nas ruas, em vão. Quando terminava a conta outro defunto aparecia, ou a carroça da prefeitura chegava para rebocar os corpos…”

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Na impossibilidade de materializar na tela os personagens e fatos do romance, o melhor é ficar com o encantamento e o fino humor do texto de Martha Batalha, que parece descender do Monteiro Lobato dos livros infantis. E creditar a Karim Aïnouz o mérito de colocar um bom filme sobre as brasileiras do pós-guerra na lista do Oscar.

 

 

 

 

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Posted on 8th janeiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet

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