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Um furo no teto do Bar Paris

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gghhhh De estilo incerto e sacada de fanada elegancia, o Bar Paris hoje é mais uma loja de móveis de segunda mão na Riachuelo.

 

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Já foi Rua da Carioca da Cruz. Foi também Rua Lisboa, talvez porque boa parte dos comerciantes que se instalaram ali eram portugueses. Mas em 1871 tornou-se Rua Riachuelo, para homenagear a batalha que a armada imperial venceu na guerra contra o Paraguai.

A rua teve dois restaurantes famosos: o Onha, que servia a melhor feijoada de Curitiba aos sábados e às quartas-feiras no almoço e no jantar. Só quem não pretendia dormir antes das três tinha coragem de enfrentar a feijoada noturna. O Onha virou ponto de boêmios, que deixavam a mesa para fazer a digestão caminhando pela cidade, ou em um salão de sinuca, ou dançando na Caverna Curitibana, ali ao lado. O outro restaurante, o Paris, era para depois do cabaré. Servia às bailarinas pratos fundos de canja de peito de frango e aos acompanhantes um afamado filé mignon.

O Onha era da paz, o Paris, da discórdia. A partir de meia-noite começava a ferver. Culpa do alcool, pó ou anfetamina consumida horas antes. Alguns confrontos se resolviam no grito, mas de vez em quando pintava um cara violento. “Esfaqueado no Bar Paris” era título que frequentou mais de uma vez a capa da Tribuna ou do Diário Popular. Certos contendores preferiam quebrar uma garrafa de cerveja no canto da mesa e avançar com o que sobrou na cara do adversário. Tiros eram malvistos – uma temeridade porque o alvo estava sempre a menos de dez metros e é preciso ficar muito bêbado para errar nessa distância.

-Sacou tem que atirar no cara! – berrou indignado um delegado de polícia, tomando a arma da mão de um loirinho trêmulo. O rapaz – na verdade, quase um menino – puxou a arma, deu uma vacilada e atirou para cima. Foi preso, enquadrado no artigo 132 do Código Penal. “Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”.

Na delegacia de plantão levou uns petelecos do carcereiro. Não fechou o olho durante o resto da noite porque o enorme companheiro de cela avisou: “Se dormir eu te estupro!”. O cara odiava gente que saca mas não atira.

O furo da bala jamais foi consertado. Nem no teto do restaurante, nem na cabeça do loirinho.

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Posted on 12th julho 2021 in Sem categoria  •  No comments yet

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