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O ENGENHEIRO ACHAVA QUE AQUI SERIA UMA ESTRUTURAL

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A rua está feia. (Foto Tribuna PR)

 

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I

 

Nasci na rua Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, que na década de 40 era breve, estreita, encantadora. As casas e sobrados ostentavam o estilo difuso dos mestres-de-obra poloneses e italianos. Calçadas estreitas, rua de macadame com pedras mal colocadas. Bem diferentes do petit pavê da Avenida João Pessoa, o centro chic, que ficava apenas 300 metros mais para o sul.

Ainda ninguém havia sonhado em prolongar minha rua rumo ao oeste. Curtinha, ela começava na Voluntários da Pátria e desembocava com razoável dignidade na Praça Tiradentes, depois de passar pelo Colégio Estadual do Paraná.

Sobrados de janelas altas e bangalôs avarandados abrigavam famílias de classe média, quase todas muito católicas, que jejuavam, confessavam e iam à Missa do Galo. A democracia religiosa era atestada pelo templo adventista, revestido de granito cinza, que cantava glória a Jesus nas noites de sábado. E também pela sinagoga, cinquenta metros adiante, ao lado da praça Santos Dumont.

A sinagoga abrigava, na parte de baixo, o Pedrão e o Ivo, filhos do zelador.  No jogo de gude ele deixava escapar notícias sobre misteriosos ritos em hebraico, que se desenvolviam na nave sombria. Perguntei ao doutor Maranhão, advogado muito culto sobre aquele mistério. Ele riu: os judeus rezavam pelo Torá, que era o Velho Testamento dos católicos.

Aprendi então a primeira lei do jornalismo: só é notícia se for confirmada por duas fontes.

 

II

 

No porão do templo adventista não morava ninguém, mas ao lado, no Juizado de Menores, viviam o Divanil e o Nelsinho, negros, integrantes da Escola de Samba Colorado, que ensaiava para o Carnaval no estádio do Ferroviário. Divanil no surdo, Nelsinho um ás do tamborim.

No centro de tudo estava o poeirento campinho do Cruz Machado Futebol Clube, onde hoje fica o mal falado Edifício São Paulo. Ali gastei muito sapato em memoráveis jornadas esportivas. Vitórias e derrotas. Uma vez perdemos com desonra para uns polacos enormes da Saldanha Marinho. Além de deixar o campo no maior deboche, os ganhadores ainda levaram nossa bola Goá número 5. Isso não podia ficar assim. Numa folha de caderno escolar escrevi a notícia sobre o evento esportivo. A matéria foi entregue, por uma janelinha de madeira, ao funcionário que cuidava da oficina do Diário da Tarde, na rua Doutor Muricy, ao lado da pastelaria do chinês Ton Jon.

No dia seguinte meu pai chegou com o Diário da Tarde, que comprava diariamente para ler o artigo do jornalista Roberto Barroso. Estava lá, na íntegra, a nota de uma coluna no pé da página de esporte: “Cruz Machado FC goleia Saldanha por 5 a 2. Dois gols da vitória foram do ponta esquerda Aderbal.”

Aí fiquei conhecendo a segunda lei: o papel aceita tudo.

 

III

 

Falo da Cruz Machado como se ela tivesse alguma importância para o desenho urbano ou para a história da cidade. Não tinha. Importante era a Ermelino de Leão, quase na esquina de minha casa. Ela começava na avenida João Pessoa e chegava, mil metros depois, ao Alto do São Francisco, o Palácio do Governo.

Na Ermelino tinha tudo. Numa ponta, a Cinelândia. Os luminosos cinemas Opera, Avenida e Palácio e os menos gloriosos Odeon e Broadway. Nos dias de muita chuva o Rio Ivo subia até dois metros. Caixeiros das lojas corriam para colocar as mercadorias no seco. Mas a inundação fazia terríveis estragos.

No dia seguinte, com a volta do sol, colchões, edredons, cobertores e móveis eram postos para secar na calçada – mudas testemunhas da incúria das autoridades, como dizia num suelto nosso Diário da Tarde.

A água não chegava à nossa rua, mas era inquietante constatar que isso acontecia por uma diferença de um metro. A gente era fronteiriço. Vivíamos a um passo do desastre meteorológico.

Diferente era a situação de quem morava acima, na Augusto Stelffeld, como meu padrinho, o conceituado médico Benedito de Faria Amorim. O doutor Amorim era um nome mágico na cidade. Do centro, dos bairros, do Portão distante ou das colônias chegavam pacientes a seu consultório. Além de curar o corpo, oferecia remédios para o espírito, certezas que sua poderosa fé católica conseguia transmitir.

A casa do doutor Amorim, que visitava com minha mãe, cheirava a sachê de magnólia – ou àquilo que eu imaginava ser o cheiro de magnólia. Esta flor entrou no meu repertório botânico graças ao Gebran Sabbag, que morava na rua Inácio Lustosa, onde a Prefeitura plantou magnólias de ponta a ponta.

 

IV

 

Subíamos minha mãe e eu dois lances de escada de pedra e estávamos no caramanchão. As buganvilias floriam em setembro, vermelhas, amarelas, brancas e cor de rosa. Mais um lance e entrávamos pela porta de madeira escura com janelinha de cristal bisotê.

Os tacos do chão eram de madeiras nobres, claras e escuras, aplicados em rosetas. Mais cristal chanfrado nos vidros da porta de correr que separava a sala de estar da sala de música. A memória não quer acreditar que o piano fosse um simples Essenfelder, desses feitos no Juvevê.

Pela Augusto Stelffeld passava a divisa entre os dois estamentos sociais. Logo adiante estava o Palácio São Francisco, onde meu pai era ajudante de ordens do interventor Manoel Ribas.

A Ermelino de Leão, do Palácio São Francisco com seus tapetes persas e quadros de Andersen e Michaud ao baixio das casas pálidas com frente para a inundação – essa Ermelino de Leão é a grande metáfora social de Curitiba.

 

V

 

Outras metáforas seriam encontradas depois no Colégio Santa Maria e no Colégio Militar. Mas nenhuma teve a força da primeira, nem a graça das que encontraria quando começava no jornalismo e ao mesmo tempo estudava na Faculdade de Direito de Curitiba. As duas carreiras são confluentes.

Jornalistas e advogados têm um particular interesse em catástrofes, desvios de conduta e assassinatos em geral. Aprendem cedo que aumentam as vendas

Esse ensinamento estava fresco na minha cabeça dez anos mais tarde, quando chegou à redação da Ultima Hora curitibana um andarilho baiano. Pedia ajuda para fazer uma cruz bem grande. Pretendia levá-la nas costas até Santa Catarina, igual ao personagem Zé do Burro do filme Pagador de Promessas, que acabava de conquistar a Palma de Ouro em Cannes.

Nosso Zé do Burro queria entrar com a cruz na catedral de Florianópolis. Vocês ajudam? Não. Alguém sugeriu que transferisse a promessa para a Igreja do Rocio, em Paranaguá. Assim, sem sair do Paraná, teria a cobertura diária do jornal de maior circulação do Estado.

Zé do Burro concordou e tornou-se, da noite para o dia, personagem de todos os jornais – porque um jornal imitava o outro e todos sonhavam imitar o Jornal do Brasil – e também pelas rádios e pelas duas televisões que funcionavam em Curitiba na década de 60.

Quando chegou a Paranaguá com sua cruz esperava-se que houvesse, como no filme, um confronto entre ele e a autoridade religiosa. Proibido de subir as escadarias para depositar sua cruz aos pés da santa, seu martírio ganharia o noticiário nacional, até internacional.

Ocorre que o bispo de Paranaguá era um sábio. Em vez do confronto, decidiu ignorar a chegada do peregrino. A escadaria ficou livre e as portas da igreja abertas.

A história teria acabado aí se o repórter que cobria o assunto não tivesse cometido um erro, pressionado pelo estreito deadline do jornal e pela própria ansiedade. Enviou uma reportagem de véspera, com relato do confronto que não houve, do sofrimento que não existiu.

Os jornalistas chamam a isso de barriga. No caso, uma abençoada barriga, fecho de ouro de uma seqüência de reportagens que retratavam a realidade social, o sincretismo religioso, a multiculturalidade, a profunda humanidade da população do litoral paranaense – aí incluídas as moças do Mosquitinho, maior casa de mulheres da região, que largaram as atividades profissionais para se ajoelhar na estrada e pedir uma benção.

As vendas aumentaram tanto que Zé do Burro foi embora e as bancas continuaram pedindo mais jornais.

 

VI

 

O editor paulista recompensou os responsáveis pela barriga com um elogio e um ensinamento do Willian Randolph Hearst, magnata da imprensa americana. “Não tenham medo de cometer erros. O leitor pode gostar deles”.

 

Agora voltamos à Rua Cruz Machado.

Posted on 20th maio 2021 in Sem categoria  •  No comments yet

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