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A QUEDA E A QUEDA DA RUA CRUZ MACHADO

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“O sofrimento, se excessivo e demorado, deixa-nos insensíveis à dor”. Shakespeare

 

 

I

 

A tarde findou, a noite chegou e o Engenheiro lá. Ele e seu ajudante. Esticaram mais uma vez a trena na esquina da Voluntários, onde terminava a Cruz Machado, então uma agradável ruazinha residencial de cinco quadras, uma pracinha no meio. Mediram e remediram a largura da via e da calçada. Depois sumiram. Mais tarde, um piá contou que não tinham sumido coisa nenhuma. De trena e telêmetro, reapareceram na Visconde de Nácar, a paralela do outro lado da quadra. Novas anotações no papel quadriculado preso à prancheta.

Célia Andrade, conhecida como Língua de Ouro, ouviu falar dos homens e informou Malão, o gigolô que há oito anos zelava pelos seus negócios sexuais.

-É por causa da avenida que vão abrir aqui. Vai ligar o lado de lá com a Praça Tiradentes.

Animou-se.

-Bom pra nós, é coisa de mais de um milhão.

A fonte de Célia era fidedigna: o Engenheiro em pessoa. Decorreu a incontinência verbal do abuso de generoso vinho argentino que aqueceu um surubão na Casa da Otília. O Engenheiro não era dado a galinhagens, mas teve que ir à zona em missão oficial, ou quase; representava a comissão organizadora do Congresso Brasileiro de Obras Públicas. A pedido do Diretor, e sob o patrocínio de generoso empreiteiro, encarregou-se de ciceronear um grupo de congressistas  interessados em correr o trecho. Coincidiu que Célia estava lá como chefe das moças.

Toda língua e ouvidos, escutou o Engenheiro se gabar da nova obra na cidade. “É estrutural”, explicou a dois colegas que aguardavam a hora de afogar o ganso. “Vamos reduzir em dez minutos a rota leste-oeste”. O colega disse “fantástico” e Célia anotou mentalmente.

 

II

 

Uns seis meses depois chegou o primeiro convite para uma reunião na Prefeitura. Os vizinhos ouviram, um a um, que suas casas estavam desapropriadas para dar passagem à avenida. Vou chamar o advogado. Pode chamar. Desapropriação por interesse público. Está na lei.

Brigaram, brigaram e acabaram fazendo acerto para não sair sem nada no bolso. Histórias de desapropriações eram só desgraça. Séculos à espera do justo pagamento que nunca viria, alguns morando em casa de parentes.

Houve um racha. Metade desejava escrever abaixo-assinado, ir à Assembléia de luto, visitar o governador. Reclamariam – talvez pela primeira vez – contra a tirania do automóvel; em nome dele destruíam uma rua residencial, habitada por médicos, juízes, comerciantes. Rua pequena e feliz, aqui judeus oravam em paz na sinagoga e senhores de sucesso traziam os filhos para visitar o prédio em que haviam estudado, o afamado Colégio Estadual do Paraná. A outra metade queria a avenida com luzes e lojas. Orgia de brilho e luxo.

Célia na moita. Malão estava comprando uma casa para transformar em loja bacana quando o alongamento viesse.

 

III

 

A divisão aumentou. Alguns receberam a visita de corretores imobiliários que ofereciam até 50% a mais por suas casas. Dividendos do progresso. Espertos, decidiram que venderiam mas não agora. Mandava a astúcia aguardar o espetáculo da chegada das máquinas e nova valorização dos imóveis.

Quando as máquinas chegaram os corretores não reapareceram. Apareceram uns caras pálidos, de bigodinho e sapato bico fino. Queriam alugar.

Para encurtar a história, quem vendeu, vendeu barato porque a rua degenerou com o vai e vem de prostitutas, vendedores de droga e ladrõezinhos que arrancavam o cordão de ouro e saiam correndo.

Quem alugou conseguiu um dinheirinho melhor. Mas teve de agüentar perguntas da família e dos amigos porque os inquilinos agora eram donos de tunguetes, bares de má frequência.

Ninguém imaginava que ia tudo virar zona. As casas de família foram depressa substituídas pelo Bar da Rosa, o La Ronde, o restaurante Fumacinha, o Sopão das Putas, e por um clube de jogo onde, certa noite, um prefeito do Norte do Paraná perdeu no pif-paf a arrecadação municipal de seis meses. Malandros armaram o golpe das três pontas em cima dele, que saiu prometendo suicidar-se. Abriu a janela do Braz Hotel, tomou aquele ar frio na cara e mudou de ideia. Candidatou-se. Agora é deputado estadual e vice-lider da maioria.

 

IV

 

Cabe aqui uma consideração sobre a falta de limites para a decadência urbana.

Um sábio ensinou que as cidades melhoram quando ficam como estão. Há rua que nasce para ser estreita, com calçada de pedras centenárias. Alargada e asfaltada, a Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, só piorou. Parecia ter chegado ao ponto mais baixo de sua história como a rua das vadias, dos cafiolos e dos otários. Desceu ainda mais aos infernos quando afundou no mar de crack e de tiros na madrugada. Agora são mortos que se arrastam pela calçada no eterno delírio ambulatório de que falava São João Crisóstomo, no século V, em homilia para defender a família.

No crack ninguém quer saber de jogo de baralho, nem de sexo, muito menos de conversa de botequim. Só de dinheiro para a próxima pedra. Quer mesmo. Precisa. Sofre a urgência. Cuide-se para não passar perto dele.

E surpreenda-se. Em seu movimento de marés, a vida urbana desenvolveu a capacidade de contrariar os pessimistas e inventar a ascensão depois da queda.

O Engenheiro – não aquele da orgia na Otília, outro – anda por ai de novo. Numa planilha a equipe anota o fluxo dos veículos e em outra o movimento de pedestres. Planeja um plano urbanístico para devolver a saúde ao Centro. Vai fomentar um polo de serviços, galerias de arte, co-working, startups, hotéis boutique, soluções para uma rua sem solução.

De qualquer forma, cuidado com esse Engenheiro. Lembre do que dizia o velho Machado. Sua voz é a voz de Jacó mas suas mãos são as mãos de Esaú.

 

*

 

P.S. – Está no Velho Testamento a história da rivalidade entre irmãos gêmeos em torno do direito à sucessão no clã. Segundo os costumes seria Esaú o herdeiro, pois nasceu antes do irmão. No entanto, Jacó, instigado pela mãe, engana o pai cego à beira da morte e obtém a bênção que o confirma no lugar privilegiado. 

 

 

 

Posted on 20th maio 2021 in Sem categoria  •  1 comment

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  1. Marcelo D

    26 de maio de 2021

    Caro Adherbal,
    Por acaso numa dessas pesquisas no google por temas ligados a Curitiba, caí em seu blog.
    A pesquisa não lembro sobre o que foi, mas o seu blog ficou salvo em lugar de honra. Vira e mexe, venho aqui apreciar seu texto.
    Sua crônica é um prazer de ler.
    Talvez o contraste com o que se produz na imprensa hoje em dia destaque isso ainda mais… não sei.
    De qualquer forma, queria deixar isso registrado, você merece um elogio sincero.

    Responder

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