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O PROFESSOR, ou, como a ideologia concurseira pode tornar a sociedade mais desigual

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I

 

Todo o dia o mesmo caminho. Vinha pela avenida João Pessoa, “a Menor Avenida do Mundo”, virava na travessa Oliveira Belo, famosa pelo Alvorada. Era o café onde os políticos, juízes, profissionais liberais confraternizavam e aparentemente decidiam o que ia acontecer na próxima eleição. Conhecia alguns: o professor Bento Munhoz da Rocha, os médicos Aramis e Aristides Athayde, Lauro Portugal Tavares, Máximo Pinheiro Lima, os advogados Laertes Munhoz, Salvador de Maio, este último campeão do Tribunal do Juri, onde argumentava com o Código Penal em uma das mãos e um livro de Malatesta na outra.

-Chi è povero è schiavo! – bradava com voz rouca, para iniciar uma arrasadora catilinária contra a violência da polícia e a incompetência do delegado que errou no inquérito. E do promotor que não percebeu as incongruências e produziu uma denúncia teratológica – teratológica, senhores jurados! (só havia homens no júri) – que nenhum juiz deveria aceitar.

Meu pai me viu chegando e chamou. Cumprimentei respeitoso cada um daqueles senhores. Sabia que aquele era o recreio dos poderosos. Daqui a pouco voltariam para seus conciliábulos, como escrevia o jornalista Roberto Barroso, diretor do Diário da Tarde, que acabara de passar pelo grupo. Após as maquinações (outra palavra do editorial do Diário da Tarde) um seria ministro, outro governador, outro deputado federal.

Finda a apresentação, entrei no edifício Palácio Avenida. Havia uma banca de jornais e revistas do lado esquerdo, à direita a mesa do zelador, adiante o elevador e a escada para a sobreloja. Na sala de pé direito baixo, cheiro antigo de cigarro e poeira de giz, estava o professor Joaquim, terno marrom, camisa branca, gravata com prendedor de ouro, dedos amarelos de tanto fumar.

O mestre tinha uns 50 anos, era negro como Leonidas da Silva e craque como ele. Não havia matéria que não fosse capaz de enfiar na cabeça do aluno. Tinha fama. Era uma espécie de santo Expedito, aquele das causas perdidas. Eu e ele, ou melhor, vamos ser justos, ele e eu iniciávamos a aventura de aprender em três meses toda a matéria do concurso para a Escola Preparatória de Cadetes.

 

II

 

Agora é preciso voltar um pouco para eu explicar porque lia todo o dia o editorial do Diário da Tarde. Estava viciado em novas palavras. Pelo mesmo motivo, sabia um monte de palavras e expressões usadas por Eça de Queiroz, Érico Veríssimo, Balzac: era o efeito raio-X. Explico: todo início de ano, os alunos do Santa eram obrigados a produzir um atestado de saúde. Meu exame médico deu errado. O raio-X mostrava uma alteração cardíaca. O coração dilatado, enorme, pronto para explodir.

-Descanso absoluto – determinou o doutor Benedito Amorim, meu padrinho, parteiro, tudo que um clínico bom devia ser naquela metade de século.

Nem futebol. Nem ir até o Belford Duarte ver o treino do Coxa.

-Repouso, o remédio é repouso, talvez o coração volte ao normal.

Começou um ano de sofrimento. Chegava da aula, almoçava, fazia a lição de casa – e agora? Nada. Descanse.

Peguei um gibi do Mandrake, em l5 minutos estava lido. O Super Homem, o Fantasma, Dick Tracy, tudo leitura rápida. Tinha Helena, do Machado, muito chato. Os da coleção Terramarear, todos lidos. Então minha prima Iole, professora e maior leitora da família, me emprestou O Primo Basílio. O mundo de Eça era diferente: gente de mau caráter, adúlteros em suas alcovas de seda (alcova! boa palavra), prima Luisa visitando a Escocia “com seus lagos taciturnos” (lagos taciturnos!), louca para abandonar a vida burguesa. Descobri o que é burguês na Enciclopédia. É gente como Basílio, que em apenas dois anos de Brasil “conseguiu reconstituir sua fortuna com um honrado trabalho”.

Honrado trabalho. Trabalho honrado. Tem palavras que já nascem casadas. Uma não larga da outra e as duas servem para enfeitar uma mentira. Chave de ouro. Lenda viva. Trocar farpas. Pele aveludada. (Como a de Luisa). Pensamentos lascivos (como os de Basílio). E mais: água cristalina, marido exemplar.

Então passei o ano lendo de tudo, inclusive os editoriais irados do Diário da Tarde. Descobri palavras que não estão casadas com outras. Nonada, (Guimarães Rosa). Éramos quadro, nós e nossas melancolias, (Machado de Assis). Esses caras escreviam bem. Em outros livros vi que mesmo os bons escritores às vezes vinham com palavras casadinhas. Ninguém é perfeito.

Em compensação, até em autor maldito, como aquele João de Minas, que fez livrinhos de literatura erótica, há coisa boa. Um dos personagens dele “tinha barbas duras como espinhos, e tempestuosas, abundantíssimas”. Outro “era o coronel de todas as moças e senhoras fáceis, dessas que acham até piano na rua”. Adiante aparece uma moça “que possuía um coração de arminho”.

De tudo ficou a advertência do personagem de Graciliano Ramos: ele “admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.

 

III

 

Dito isso, agora sim, posso sentar à mesa retangular da sala de aula do professor Joaquim. O quadro negro era mesmo negro, não branco ou verde ou digital como os modernos. Nele o professor escrevia fórmulas e mais fórmulas, que eu copiava até o dedo fazer calo.

-Não tem livro texto?

-Não. Nem apostila. Vamos escrever.

Ele ditava problemas enormes, com número infinito de incógnitas, que eu jamais vira. Eu escrevia, entusiasmado com a memória, a fluência, a elegância do mestre. Imensas definições de biologia, geografia, geometria eram escritas com velocidade cada vez maior. Os professores militares gostam de geometria, que é a base da topografia e da cartografia, do estudo das batalhas de Napoleão e Julio Cesar. Escreva e desenhe.

-Você vai ver que tudo se resume ao Teorema de Tales.

Num plano, a interseção de retas paralelas, por retas transversais, forma segmentos proporcionais, disse o Tales, um grego nascido em Mileto, que hoje é um pedaço da Turquia. Era comerciante, viajava muito para o lado do Egito, e aprendeu com os egípcios a arte do cálculo matemático.

-Um turco, um braço fixo – sugeri.

-Não, ele era grego e era um gênio da humanidade. O primeiro filósofo do mundo. Anote ai.

Peguei o caderno pensando que vinha um problema daqueles compridos.

-O homem rico nem sempre é sábio, mas o homem sábio é sempre rico.

Era bacana esse Tales de Mileto. E breve.

 

IV

 

O concurso foi numa sala da 5ª. Região Militar, na rua Carlos Cavalcanti, para trinta candidatos. Também houve concurso em Santa Catarina e para os dois estados o Exército oferecia seis vagas. Então, 6 em 60. Um em dez. Levei as questões ao professor e vimos que tinha ido bem. Quando veio o resultado, e eu era um dos seis, senti a autoestima lá no alto. Faço parte do décimo superior, do grupo dos melhores.

Grupo dos melhores?

Foi o meu primeiro contato com a ideologia concurseira. A expressão, desconhecida nos anos 1950, serve de base para o papo da meritocracia, uma grande engrupição.

Vamos lá: para que serve um concurso? Para decidir quem, pelo seu mérito, merece mandar nos outros. Veja o juiz na cidade do interior. É o homem mais importante do município junto com o latifundiário e o dono da fábrica que dá empregos. Um juiz é mais do que o prefeito, porque ele pode tirar o prefeito do cargo, até mandar prendê-lo, e o prefeito não pode tirá-lo da magistratura.

Um juiz tem um emprego para toda a vida. É a vitaliciedade. Não pode ser removido para outra cidade. E seu salário é irredutível. Uau!

O mesmo vale para um promotor público, um auditor do imposto de renda, um diplomata, um general. Não estão lá porque o pai tem dinheiro, nem porque foram eleitos pelo povo. Apenas porque tiveram um professor Joaquim, que era um invencível treinador de concurseiros.

 

V

 

No ano passado, Daniel Markovits publicou. pela Penguin Press, “Meritocracy Trap” A Armadilha da Meritocracia. Ele argumenta que, em vez de contribuir para a mobilidade social, o conceito de meritocracia é o principal obstáculo para a igualdade de oportunidades nos Estados Unidos e em boa parte do mundo de hoje. O sistema meritocrático, diz ele, é um engodo.

O livro é baseado na longa experiência pessoal do autor como professor da Yale Law School. Ele vê os EUA como um exemplo extremo de um fenômeno global. Evidências colhidas em entrevistas e pesquisa acadêmica mostram que a estrutura familiar e o sistema educacional conspiram a favor das elites, garantindo sua liderança em capital humano.

É fácil entender o argumento de Markovits. Ter uma educação de elite é mais importante do que herdar terras ou ativos financeiros porque resulta em ganhos maiores. Os filhos da elite terão pré-escola de primeira linha, bons colégios particulares para o ensino fundamental e médio, universidade de ponta, mestrado, doutorado e pós-doutorado, talvez no exterior. Tudo isso somado representa um salário de seis dígitos.

Em dólar.

Com essa supercapacitação, é normal ser convidado para assumir a direção de um grande banco, a presidência de uma multinacional ou o Ministério da Fazenda, pela ordem de importância. E continuar a fazer parte, talvez para sempre, da classe dominante.

 

VI

 

Em janeiro, chegou o comunicado oficial. Gostei de ler o resultado e foi ótimo ver meu nome no Diário da Tarde. Eu e mais cinco éramos os tais. Senti um ar respeitoso no cabo da 5ª. RM que me entregou o ofício de apresentação e a passagem de trem para Porto Alegre.

O banho de humildade viria depois.

 

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Posted on 28th abril 2021 in Sem categoria  •  1 comment

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  1. Jairo

    15 de maio de 2021

    Excelente post.
    Considerando o que foi colocado, as cotas são justificadas como uma ferramenta para que outras pessoas integrem a elite e diminuir a desigualdade?

    Responder

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