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Index, ou, porque não devíamos ler A História do Mundo para Crianças, do Monteiro Lobato, um cara que negava o criacionismo

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I

 

No canto superior esquerdo da primeira página do Missal estava escrito Nihil Obstat e, do lado, Imprima-se, assinado pelo vigário-geral.

-O que é Nihil Obstat?

-Nada a obstar. Quer dizer que não está no Index da Igreja.

-Index?

O irmão Anselmo foi ao quadro negro e escreveu:

Index Librorum Prohibitorum.

 

-É a lista de livros proibidos pela igreja.

-Ninguém pode ler?

-Ninguém.

-Se ninguém leu como é que alguém proibiu?

Uma provocação. Expulsar da aula era a consequência necessária de qualquer provocação. Mas veja o menino que perguntava: era um dos filhos do inspetor federal de ensino, o fiscal da escola.

O professor titular hesitou um segundo. Um guri de cabelo ruivo entrou na conversa.

-É verdade que Monteiro Lobato está proibido?

O irmão virou para ele.

-Está.

Não contou o motivo: Lobato defendia a doutrina evolucionista, aquela do Big Bang, contra o criacionismo, a ideia de que o mundo foi feito em seis dias e no sétimo Ele descansou.

-O que é que a Emília fez?

-Fora!

O ruivinho não era filho de ninguém conhecido.

 

II

 

Os livros do Index eram muito bons. Encontrei alguns na feira informal do Cine Broadway. O maior pulgueiro da cidade ficava no início da Rua 15 e exibia faroestes, filmes de Tarzan, de terror e seriados de Durango Kid, da Columbia, com Charles Starrett. As sessões começavam às duas e iam até às sete horas. Dois filmes e dois seriados para encher o domingo e fornecer assunto de conversa nos dias seguintes.

Na entrada os guris trocavam gibis, figurinhas e os “catecismos” de Carlos Zéfiro, pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que publicou mais de 500 histórias em quadrinhos eróticas entre 1950 e 1970. Precursoras do PornHub, eram vendidas discretamente em outro canto do hall e em bancas de jornal.

 

III

 

Um dia um guri me apareceu com Cocaina, de Pitigrilli. Não deixe tua mãe ver. É um livro de sacanagem.

Não era.

Pitigrilli sabia escrever. O romance tem estrutura. O enredo bem resolvido é elegante, inteligente e perverso. O italiano era um cínico com senso de humor: “Se eu comi um frango inteiro e você não comeu nada, o relatório do governo vai dizer que cada um de nós comeu meio frango”.

Prestei atenção no Pitigrilli, no sabor amargo das histórias, onde o sexo era triste. Ou trágico. Seus livros estavam no Index. Além de escritor libertino, me explicaram, ele era judeu.

Não gostei do Marques de Sade, 120 Dias de Sodoma, um livrinho velho, cheio de ácaros e mal traduzido.

 

IV

 

Dei uma olhada na História de Ó. Não sabia que estava diante de um ícone da literatura erótica do século 20, inspirador de 50 Tons de Cinza e outros livros do gênero mommy porn.

Em História de Ó, uma fotógrafa de sucesso chamada “Ó” arranja um amante pervertido: Renê.  Por amor, aceita participar de orgias sexuais ilimitadas, submete-se aos desejos dele, que incluem práticas sadomasoquistas.

A autora usava o pseudônimo de Pauline Réage. Tratava-se de Dominique Aury, destacada intelectual francesa de 47 anos na época do lançamento do livro. Tímida, de elegância discreta, tradutora e editora, era a única mulher com assento no comitê de publishers da Gallimard ao lado de, entre outros, Albert Camus. O romance vendeu feito água, mas ela continuou em seu casulo. Só bem mais tarde, aos 86 anos, Dominique Aury admitiu a autoria do romance.

Ganhadora da Legion d’Honneur, foi apresentada ao General de Gaulle, que a homenageou:

-Já a conheço. É a famosa autora de A História de Ó.

V

 

Minha turminha lia com entusiasmo Escravas do Amor e outros folhetins de Suzana Flag.

Descobri depois que Suzana era o “eu poético feminino” de Nelson Rodrigues. Além de muito sexo em hotéis de encontros no Leblon e na Barra da Tijuca, o folhetim erótico é feito de exageros e absurdos: ataque de onça, velho judeu que mora num castelo e tem cicatriz no rosto, punhal com ponta envenenada (como no Hamlet), hipnotismo, troca de bebês, passagens secretas, herói rico que se faz passar por pobre. O estilo hiperbólico, escandaloso, foi aperfeiçoado em Vestido de Noiva e Beijo no Asfalto.

 

VI

 

Ler escondido sobre incestos, adultérios, perversões despertava um certo temor de Deus. E levantava questões práticas: qual o tamanho da punição?
Cada página era um pecado mortal? Ou apenas pecado venial? Será que é medida em anos de Purgatório, aquele lugar que tem todos os desconfortos do Inferno, só que não é eterno? Há algum tipo de dosimetria? Ler 120 dias de Sodoma, convenhamos, merece pena maior do que saborear a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato.

Objetivamente: onde está descrito o pecado de ler Lobato?

 

VII

 

Surgiu a Coleção Terramarear, Tarzan, Kim, a Ilha do Tesouro. E as aventuras do piloto Biggles, escritas pelo piloto inglês William Earl Johns. O herói voava em seu monomotor para oeste, para leste, para todos os continentes e se metia com malaios, tuaregs, todo tipo de gente perigosa, em tramas sensacionais.

Vieram as histórias de Sherlock Holmes impressas em Portugal. Policiais em ação nos subterrâneos de Londres, o caminho iluminado com lanternas de carbureto. Perseguições em carruagens pela Fleet Street ou pela Strand, com eventuais mergulhos nas aguas do Tâmisa para resgatar a prova do crime.

Façanhas que seriam relatadas pelo repórter Clark Kent, aliás, o Super-Homem. Ou por Billy Batson, que se transformava em Capitão Marvel gritando Shazan!

Os dois eram repórteres, Billy numa estação de rádio, Clark Kent no Planeta Diário, de Metrópolis.

 

VIII

 

Minha prima Iole achou um erro num livro de James Hilton chamado Adeus Mr. Chips. Uma história edificante sobre um professor de latim que dá aulas em Londres durante a guerra e mesmo durante o pior bombardeio dos alemães continua falando aos alunos. Virou filme, foi indicado aos cinco principais prêmios do Oscar de 1940. Levou o de melhor ator para Robert Donat, mas o páreo foi duro aquele ano, onde se concorria com …E o vento levou.

Logo o livro chegou à Livraria Ghignone; era da Editora Globo, tradução do Érico Veríssimo. Lá estava o erro ou melhor o cochilo, que podia ser do autor, do tradutor, do revisor e até mesmo do impressor. Difícil apontar o culpado.

Na Revista Cigarra havia uma seção, Cochilos dos Outros, que dava livros de prêmio a quem achasse cochilos na história ou na tradução. Para não se expor minha prima fez a proposta – você escreve e assina, eu fico com o livro. Mandei e foi publicado. Um amigo do meu pai comentou: muito bom o que seu filho escreveu na Cigarra.

Uau! O feito repercutiu entre vizinhos e na família.

 

Seria a glória literária chegando?

Posted on 19th abril 2021 in Sem categoria  •  No comments yet

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