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Quem ganhou com o incêndio

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ghjhjhjh Primeira página da Ultima Hora, agosto de 1963

 

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                                                       A opinião é livre, mas os fatos são sagrados.

                                                                              (Motto do jornal The Guardian)

 

Eis a primeira lei do jornalismo: você pode achar o que quiser, mas primeiro informe o leitor sobre o que aconteceu. De maneira rápida, direta e, se possível, em bom português.

Nem sempre isso acontece. Um exemplo foi o grande incêndio florestal do Paraná em 1963. O fogo começou em agosto, quando lavradores fizeram as tradicionais queimadas preparando o campo para a próxima safra.

Naquele ano havia a combinação de muito frio e longa estiagem. Na lavoura seca, o forte vento transformou a queimada em fogo descontrolado que se propagou pelo interior.

Uma tragédia: famílias perderam lavouras, casas e parentes. O número de mortos varia segundo a fonte – de 89 a 250 pessoas. Dos 163 municípios, 128 sofreram com o fogo. Dos 1,3 milhão de pés de café, 693 mil teriam sido atingidos e a safra prevista de 16 milhões de sacas ficou em 4 milhões. Ao todo, uns dois milhões de hectares queimados.

O governo federal transferiu imediatamente ao governo do Paraná um bilhão de cruzeiros ou um milhão de dólares, (quase US$9 milhões de hoje). Era o início do auxílio que beneficiou sobretudo quem tinha ligação com o governo federal, através da Carteira de Crédito Agrícola do Banco do Brasil.

O auxílio veio de toda parte. Bombeiros de vários estados. Equipes médicas do Brasil e do exterior, do U.S. Peace Corps, da Cruz Vermelha Internacional, voluntários da Argentina e de outros países. Caixas de antibiótico, plasma sanguíneo, bandagens chegavam em aviões cargueiros.

E jornalistas.

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Em cada cidade, o povo tinha histórias para contar. Gente que perdeu a casa, a lavoura, o parente próximo, vítimas do fogo que avançava a 30 quilômetros por hora. À procura desses personagens e de imagens chocantes, chegaram equipes da Associated Press, UPI, France Press, free lances a serviço da BBC, NBC, CBS. Emissoras de rádio logo formaram uma Cadeia da Solidariedade, com comando em São Paulo. Equipes de reportagem de jornais e revistas do Brasil competiam pelas melhores narrativas, as imagens chocantes, os número mais sensacionais.

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Com o tempo entra em ação o filtro da história. Aos poucos aparece o fato escondido atrás da manchete. Só para conferir um dos número mais citados: será que o prejuízo foi mesmo de 12 milhões de sacas de café?

Provavelmente não. Os professores Letícia Aparecida Paixão e Angelo Aparecido Priori, da Universidade Estadual de Maringá, publicaram um artigo intitulada “As transformações sócioambientais da paisagem rural a partir de um desastre ambiental (Paraná, 1963)”

Os autores tentam “compreender o real significado do evento e a forma como ele está inserido em um contexto mais amplo, marcado pela erradicação dos cafezais na região norte e pelo desflorestamento da região central do estado.”

Os incêndios de 1963 queimaram um total de 2 milhões de hectares no Paraná, sendo 20.000 de plantações, 500.000 de florestas primárias e 1.480.000 de campo, matas secundárias e capoeiras.

Seriam então 20 mil hectares de cafezais envelhecidos (algumas lavouras com 18 anos ou mais), que passava por um processo de erradicação liberando espaço para outras culturas, sobretudo para a pastagem, e a região central do estado, onde estavam localizados os remanescentes de floresta nativa e o reflorestamento de pinus e eucalípto implantado pela Indústria Klabin.

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Ninguém sabe o tamanho do auxílio financeiro federal, mas é certo que ninguém reclamou. O presidente João Goulart correu para ajudar. Além do obvio interesse em recuperar a economia paranaense, queria fortalecer os laços com o governador Nei Braga, um dos políticos que melhor transitava pelos quarteis naquele período turbulento da vida republicana.

Os números do “Paraná em Flagelo” não apareceram na mensagem do governador à Assembleia Legislativa, em janeiro de 1964. Talvez porque o levantamento dos prejuizos não estivesse concluído. Talvez porque as conclusões fossem inconsistentes. Talvez para não decepcionar o leitor que consumira avidamente as reportagens sobre a tragédia.

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Posted on 9th fevereiro 2021 in Sem categoria  •  No comments yet

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