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Um furo no teto do Bar Paris

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gghhhh De estilo incerto e sacada de fanada elegancia, o Bar Paris hoje é mais uma loja de móveis de segunda mão na Riachuelo.

 

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Já foi Rua da Carioca da Cruz. Foi também Rua Lisboa, talvez porque boa parte dos comerciantes que se instalaram ali eram portugueses. Mas em 1871 tornou-se Rua Riachuelo, para homenagear a batalha que a armada imperial venceu na guerra contra o Paraguai.

A rua teve dois restaurantes famosos: o Onha, que servia a melhor feijoada de Curitiba aos sábados e às quartas-feiras no almoço e no jantar. Só quem não pretendia dormir antes das três tinha coragem de enfrentar a feijoada noturna. O Onha virou ponto de boêmios, que deixavam a mesa para fazer a digestão caminhando pela cidade, ou em um salão de sinuca, ou dançando na Caverna Curitibana, ali ao lado. O outro restaurante, o Paris, era para depois do cabaré. Servia às bailarinas pratos fundos de canja de peito de frango e aos acompanhantes um afamado filé mignon.

O Onha era da paz, o Paris, da discórdia. A partir de meia-noite começava a ferver. Culpa do alcool, pó ou anfetamina consumida horas antes. Alguns confrontos se resolviam no grito, mas de vez em quando pintava um cara violento. “Esfaqueado no Bar Paris” era título que frequentou mais de uma vez a capa da Tribuna ou do Diário Popular. Certos contendores preferiam quebrar uma garrafa de cerveja no canto da mesa e avançar com o que sobrou na cara do adversário. Tiros eram malvistos – uma temeridade porque o alvo estava sempre a menos de dez metros e é preciso ficar muito bêbado para errar nessa distância.

-Sacou tem que atirar no cara! – berrou indignado um delegado de polícia, tomando a arma da mão de um loirinho trêmulo. O rapaz – na verdade, quase um menino – puxou a arma, deu uma vacilada e atirou para cima. Foi preso, enquadrado no artigo 132 do Código Penal. “Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”.

Na delegacia de plantão levou uns petelecos do carcereiro. Não fechou o olho durante o resto da noite porque o enorme companheiro de cela avisou: “Se dormir eu te estupro!”. O cara odiava gente que saca mas não atira.

O furo da bala jamais foi consertado. Nem no teto do restaurante, nem na cabeça do loirinho.

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Posted on 12th julho 2021 in Sem categoria  •  No comments yet
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SOBRE A RÁDIO DA BOCA MALDITA E A “CONSPIRAÇÃO DOS NOTÓRIOS”

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Está na rede nova edição do Jornal Laboratório Marco Zero, da Uninter. A matéria de capa, assinada pela aluna Patrícia Lourenço, é sobre uma rádio comunitária na Boca Maldita, no centro de Curitiba, que recebeu licença do Ministério da Comunicação, mas nunca foi ao ar. Um horror.

A matéria dá a entender que a rádio não funcionou porque “oito notórios senhores” calaram um espaço democrático, impediram que a comunidade do centro da cidade tivesse voz.

Não sou notório mas me achei entre os oito citados. Assusta a gravidade da conspiração denunciada pela estudante. “A  Rádio da Boca, além de não ter voz, silenciou todas as possibilidades do centro da cidade ter uma rádio comunitária ativa tocada por outras instituições. “

Daqui do Juvevê, bairro que tem sua voz no valoroso Jornal do Juvevê (e que não impede a existência de outras vozes), tento me solidarizar com a indignação da futura colega mas não consigo. A história do “espaço democrático calado” não é real.

*

Um parêntese para contar a saga de Julio Eduardo Gineste, um ex cocheiro de Paris, que em 1878 ganhou a concessão da linha de diligências entre Curitiba e Ponta Grossa. Cada diligência levava seis pessoas. O tempo de viagem era de três dias, mas ele ganhava seu dinheiro.

Dezoito anos depois, em 1896, chegou a Ponta Grossa o primeiro trem de passageiros e o tempo de viagem caiu para três horas.

Tchau, diligências. O negócio do Julio Eduardo Gineste virou pó.

*

Acho que isso ocorreu com a Sociedade Civil Boca Maldita. A ideia da rádio surgiu no tempo da ditadura, provavelmente no governo Figueiredo. Vieram as Diretas Já, veio Tancredo, veio Sarney, veio a Constituição Cidadã, veio Collor. O pedido só foi atendido quando Lula era presidente.

Aí, inebriada de tanta democracia, Curitiba era só felicidade, do Bar do Leleco ao Ile de France. Nenhuma voz silenciada, nem a dos bêbados do Bar Bebedouro, nem a dos pornógrafos do teatro da meia-noite, nem a dos chatos que invadiam a Livraria do Chaim nas manhãs de sábado. Rádio prá quê?

Havia uma overdose de comunicação.

Curitiba hospedava, em 2003, doze estações de rádio, cada qual com seu nicho de público. Transmitiam em FM, ondas curtas e médias, e tinham seus sites. Havia ainda rádios em São José dos Pinhais, Colombo, Araucária e Campo Largo, que falavam para a capital.

O interesse do público estava também no UOL, Universo Online, no ar desde 1996, com serviços de bate papo, edição diária da Folha de São Paulo, notícias do New York Times, Notícias Populares, revista Isto É. Mais O Estado de S. Paulo, Veja, Globo, a Rede Bandeirantes.

E nas as redes internacionais. O serviço de internet da BBC nasceu em 1994. A tragédia da princesa Diana, seu amor impossível pelo Dodi, a morte chocante foi acompanhada por 2,5 bilhões, entre eles muitos curitibanos que madrugaram no computador, pulando da BBC para o Daily Mail, para o Times, para o Le Monde.

Naquele momento, ganhar uma concessão de rádio era uma furada tão grande quando operar uma linha de diligências para Ponta Grossa na véspera do trem de passageiros.

*

P.S. – Um pleito aos futuros jornalistas: estudem sociologia. Saibam que não há comunidade, nem identidade, muito menos fraternidade em regiões absolutamente heterogêneas, como o centro de grandes cidades. Descubram que o curitibano vai à Boca para destilar rancores, desejar a mulher do próximo, achar um adversário político ou esportivo. Daí o nome Boca Maldita. Aqui está combinado: ninguém fala bem de ninguém.

Mas o café é bom.

 

Posted on 9th julho 2021 in Sem categoria  •  No comments yet
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Voltamos ao normal

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dfdfff Uma bela pedalada

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O que é normal?

Não sei. Mas consigo definir o contrário do normal.

Vivemos um tempo aberrante, bizarro, estranho?

Aparentemente não. As pessoas saem às compras, pedalam no parque, compartilham baseados, beijam na boca, curtem o pôr do sol.

Observo tudo isso em 50 minutos de caminhada cautelosa pelo Bosque do Papa, com uma rápida passada nos fundos do MON.

O mundo é testemunha de que dezenas de milhares de pessoas foram para as praças e avenidas de 157 grandes cidades pedir impeachment do cara. Mesmo com chuva e frio.

Quando vi o pessoal de Florianópolis com faixas e bandeiras, apesar da chuvarada de 140 milímetros, do frio e do vento leste. terminei de me convencer.

Pronto. Normalizou.

É natural que isso aconteça. A turma cansou de esperar o anúncio oficial do fim da pandemia, a informação de que 75% dos brasileiros estão vacinados com duas doses e que hospitais vazios aguardam clientes para procedimentos eletivos.

O dermatologia chama porque agora tem tempo para tirar aquele cisto sebáceo.

A personal trainer avisa que voltou a dar aula presencial.

O lider da turma da feijoada quer saber se você está disponível no sábado que vem.

É, gente, a normalidade voltou.

Apesar dos números assombrosos de vítimas do vírus e do Jair, apesar dos hospitais lotados, decidiu-se que voltamos à normalidade.

Todo mundo foi às compras no Dia dos Namorados. Quase todos passaram para tomar uma no Largo da Ordem.

Mas, e os números?

Os números – como disse uma vez o Parreira  – os números são apenas um detalhe.

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hhmmn Rua 15 na véspera do Dia dos Namorados.

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Posted on 20th junho 2021 in Sem categoria  •  No comments yet
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Jaime Lerner e os planeadores

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nnmnmn Foto de José Kalkbrenner.

 

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I

 

Antes, anos 1920, a Nova Curitiba com as paralelas leste-oeste Visconde de Guarapuava, Sete de Setembro, Silva Jardim, Iguaçu, Getulio Vargas. Prefeito Moreira Garcez.

Em 1941, o Plano Agache. Noticia nacional, porque monsieur Agache era famoso por seus planos anteriores, em São Paulo e Rio. Um dos desafios do urbanista era acabar com os engarrafamentos na praça Tiradentes. Imagino uma manchete de jornal: Vamos acabar com o engarrafamento, diz M. Agache! Pas de embouteillage! Assim, com ponto de exclamação.

1953. Centenário do Paraná. O Estado é rico. O governador Bento Munhoz da Rocha inicia as obras do Centro Cívico, projeto de arquitetos paranaenses. Começa a construção do Teatro Guaira. Da Biblioteca Pública do Paraná. O traço do modernismo chega com a Exposição Internacional do Café.

1954. A execução do Plano Diretor é interrompida. O prefeito Ney Braga encaminha mensagem à Câmara Municipal revelando que não há dinheiro para as desapropriações. Como consolo, inaugura a Rodoviária da João Negrão e o Mercado Municipal.

 

II

 

Vestígios do Plano Agache. O Centro Cívico, as galerias na Rua 15, entre Doutor Muricy e Barão do Rio Branco, a avenida Nossa Senhora da Luz, na parte leste da cidade.

Década de 1960. O Plano Diretor. Papel fundamental de Ivo Arzua, prefeito eleito em 1966. Reuniu a inteligentzia, promoveu debates. Os interlocutores eram a elite da cidade e professores da Faculdade de Arquitetura da UFPR, recém-criada. Novos professores chegavam de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Mudou muita coisa na cidade, começando pela construção civil. Projetos do Vilanova Artigas. A inauguração do Edifício Canadá, na Comendador Araujo. Licitação do Santa Mônica Clube de Campo, vitória de Forte Neto&Gandolfi. É a entrada da arquitetura brutalista, de Le Corbusier, em Curitiba. José Maria Gandolfi, falecido dia 19, e seu irmão Roberto eram alunos de Paulo Mendes da Rocha, que morreu no último dia 23, na Faculdade de Arquitetura da Mackensie.  Dias de luto: entre 19 e 29 a arquitetura brasileira perde três nomes fundamentais.

 

III

 

  1. Haroldo Leon Peres é nomeado governador.

Famoso diálogo entre Médici com Ney Braga, Aciolly Filho e outros políticos paranaenses.

MEDICI – Nosso escolhido é o deputado Haroldo Sanford.

ACIOLLY – Esse deputado é do Ceará, general. Não seria o Haroldo Leon Peres?

Meses depois, Peres é acusado de chantagear o empresário Cecilio do Rego Almeida, que apresenta uma gravação da conversa, feita na praia de Copacabana. Está na revista Veja, que sumiu das bancas. Denúncias de corrupção se multiplicam. Chega ao Aeroporto Afonso Pena um coronel da Presidência da República para resolver o problema. Na madrugada, o governador desaparece de Curitiba levando apenas uma mala, que alguns garantiam estar pesada de tantas notas de dólar. Deixa a carta de renúncia, de uma linha.

O prefeito Jaime Lerner, nomeado por Peres, precisa seguir administrando a cidade, mas não tem mais o apoio ao Palácio Iguaçu. Reúne o grupo de arquitetos, urbanistas e advogados para avaliar o que fazer. A decisão é colocar imediatamente em prática o Plano Diretor.

 

IV

 

O restaurante Peking ficava no começo da João Gualberto, onde ergueu-se um prédio desajeitado. No andar de cima havia uma grande mesa redonda, de uns doze lugares. Jaime e auxiliares almoçavam juntos quase sempre. Nireu Teixeira, Dario Lopes dos Santos, Franchete Rischbieter, Dulcia Auriquio, Rafael Deli, Groff, Ludomir Ficinski,  Eduardo Rocha Virmmond.

E planeavam, como dizia o Sergio Mercer, autor em parceria com Ernani Buchman, de famoso chachachá do IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) com o refrão: “Planea, planea, planea/ só planea”. É verdade. Nos arquivos do instituto você vislumbra o futuro de Curitiba – inclusive o futuro que foi planejado e não se realizará, como é o caso do Plano Preliminar do Metrô, concluído em 1969. Trabalho de Rafael Dely, Domingos Bongestabs, Augusto Fayet e Oswaldo Navarro.

Voltamos ao Plano Diretor de Curitiba. Ele não está pronto. Falta definir muita coisa. Melhor, a oposição terá menos para criticar, responde Jaime, não o urbanista, o marqueteiro, cuja competência paradoxalmente ia aumentar com o fim da ditadura e a derrota na eleição municipal de 1985.  Uma eleição é ganha nas últimas 24 horas, ele descobriu da maneira mais dolorosa possível – perdendo por poucos votos.

 

V

 

O resto é história. Em certa madrugada a Rua 15 foi fechada aos veículos e ocupada por máquina e operários. Após o fim de semana, amanheceu Rua das Flores, só para pedestres. Um anúncio da Prefeitura dizia: “A cidade é do homem, não da máquina”.

Era uma reapropriação do velho centro pelo curitibano que andava a pé, de alpargata ou tênis, talvez um sapato Samello, sem pressa de ir embora porque a conversa estava boa. O mundo começou a olhar de um jeito diferente para Curitiba. Como essa cidade consegue se reinventar de maneira tão brilhante?

A operação não agradou aos lojistas, que tinham medo de perder clientes. A moda era estacionar o Ford Thunderbolt ou Buick Electra em frente da loja, entrar para escolher um sapato ou gravata e depois atravessar a rua para conversar no Senadinho. No fim de semana, o cortejo de carros fluía lentamente pela principal rua da cidade. A elite gostava. E uma parte da elite estava no Tribunal de Justiça, pronta para julgar os mandados de segurança dos comerciantes.

Ninguém falava em batalha de narrativas. Ainda não era moda. Mas houve uma batalha de narrativas entre os que contavam a história da Curitiba do automóvel e os que anunciavam o advento da bela Curitiba dos pedestres.

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O ENGENHEIRO ACHAVA QUE AQUI SERIA UMA ESTRUTURAL

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A rua está feia. (Foto Tribuna PR)

 

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I

 

Nasci na rua Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, que na década de 40 era breve, estreita, encantadora. As casas e sobrados ostentavam o estilo difuso dos mestres-de-obra poloneses e italianos. Calçadas estreitas, rua de macadame com pedras mal colocadas. Bem diferentes do petit pavê da Avenida João Pessoa, o centro chic, que ficava apenas 300 metros mais para o sul.

Ainda ninguém havia sonhado em prolongar minha rua rumo ao oeste. Curtinha, ela começava na Voluntários da Pátria e desembocava com razoável dignidade na Praça Tiradentes, depois de passar pelo Colégio Estadual do Paraná.

Sobrados de janelas altas e bangalôs avarandados abrigavam famílias de classe média, quase todas muito católicas, que jejuavam, confessavam e iam à Missa do Galo. A democracia religiosa era atestada pelo templo adventista, revestido de granito cinza, que cantava glória a Jesus nas noites de sábado. E também pela sinagoga, cinquenta metros adiante, ao lado da praça Santos Dumont.

A sinagoga abrigava, na parte de baixo, o Pedrão e o Ivo, filhos do zelador.  No jogo de gude ele deixava escapar notícias sobre misteriosos ritos em hebraico, que se desenvolviam na nave sombria. Perguntei ao doutor Maranhão, advogado muito culto sobre aquele mistério. Ele riu: os judeus rezavam pelo Torá, que era o Velho Testamento dos católicos.

Aprendi então a primeira lei do jornalismo: só é notícia se for confirmada por duas fontes.

 

II

 

No porão do templo adventista não morava ninguém, mas ao lado, no Juizado de Menores, viviam o Divanil e o Nelsinho, negros, integrantes da Escola de Samba Colorado, que ensaiava para o Carnaval no estádio do Ferroviário. Divanil no surdo, Nelsinho um ás do tamborim.

No centro de tudo estava o poeirento campinho do Cruz Machado Futebol Clube, onde hoje fica o mal falado Edifício São Paulo. Ali gastei muito sapato em memoráveis jornadas esportivas. Vitórias e derrotas. Uma vez perdemos com desonra para uns polacos enormes da Saldanha Marinho. Além de deixar o campo no maior deboche, os ganhadores ainda levaram nossa bola Goá número 5. Isso não podia ficar assim. Numa folha de caderno escolar escrevi a notícia sobre o evento esportivo. A matéria foi entregue, por uma janelinha de madeira, ao funcionário que cuidava da oficina do Diário da Tarde, na rua Doutor Muricy, ao lado da pastelaria do chinês Ton Jon.

No dia seguinte meu pai chegou com o Diário da Tarde, que comprava diariamente para ler o artigo do jornalista Roberto Barroso. Estava lá, na íntegra, a nota de uma coluna no pé da página de esporte: “Cruz Machado FC goleia Saldanha por 5 a 2. Dois gols da vitória foram do ponta esquerda Aderbal.”

Aí fiquei conhecendo a segunda lei: o papel aceita tudo.

 

III

 

Falo da Cruz Machado como se ela tivesse alguma importância para o desenho urbano ou para a história da cidade. Não tinha. Importante era a Ermelino de Leão, quase na esquina de minha casa. Ela começava na avenida João Pessoa e chegava, mil metros depois, ao Alto do São Francisco, o Palácio do Governo.

Na Ermelino tinha tudo. Numa ponta, a Cinelândia. Os luminosos cinemas Opera, Avenida e Palácio e os menos gloriosos Odeon e Broadway. Nos dias de muita chuva o Rio Ivo subia até dois metros. Caixeiros das lojas corriam para colocar as mercadorias no seco. Mas a inundação fazia terríveis estragos.

No dia seguinte, com a volta do sol, colchões, edredons, cobertores e móveis eram postos para secar na calçada – mudas testemunhas da incúria das autoridades, como dizia num suelto nosso Diário da Tarde.

A água não chegava à nossa rua, mas era inquietante constatar que isso acontecia por uma diferença de um metro. A gente era fronteiriço. Vivíamos a um passo do desastre meteorológico.

Diferente era a situação de quem morava acima, na Augusto Stelffeld, como meu padrinho, o conceituado médico Benedito de Faria Amorim. O doutor Amorim era um nome mágico na cidade. Do centro, dos bairros, do Portão distante ou das colônias chegavam pacientes a seu consultório. Além de curar o corpo, oferecia remédios para o espírito, certezas que sua poderosa fé católica conseguia transmitir.

A casa do doutor Amorim, que visitava com minha mãe, cheirava a sachê de magnólia – ou àquilo que eu imaginava ser o cheiro de magnólia. Esta flor entrou no meu repertório botânico graças ao Gebran Sabbag, que morava na rua Inácio Lustosa, onde a Prefeitura plantou magnólias de ponta a ponta.

 

IV

 

Subíamos minha mãe e eu dois lances de escada de pedra e estávamos no caramanchão. As buganvilias floriam em setembro, vermelhas, amarelas, brancas e cor de rosa. Mais um lance e entrávamos pela porta de madeira escura com janelinha de cristal bisotê.

Os tacos do chão eram de madeiras nobres, claras e escuras, aplicados em rosetas. Mais cristal chanfrado nos vidros da porta de correr que separava a sala de estar da sala de música. A memória não quer acreditar que o piano fosse um simples Essenfelder, desses feitos no Juvevê.

Pela Augusto Stelffeld passava a divisa entre os dois estamentos sociais. Logo adiante estava o Palácio São Francisco, onde meu pai era ajudante de ordens do interventor Manoel Ribas.

A Ermelino de Leão, do Palácio São Francisco com seus tapetes persas e quadros de Andersen e Michaud ao baixio das casas pálidas com frente para a inundação – essa Ermelino de Leão é a grande metáfora social de Curitiba.

 

V

 

Outras metáforas seriam encontradas depois no Colégio Santa Maria e no Colégio Militar. Mas nenhuma teve a força da primeira, nem a graça das que encontraria quando começava no jornalismo e ao mesmo tempo estudava na Faculdade de Direito de Curitiba. As duas carreiras são confluentes.

Jornalistas e advogados têm um particular interesse em catástrofes, desvios de conduta e assassinatos em geral. Aprendem cedo que aumentam as vendas

Esse ensinamento estava fresco na minha cabeça dez anos mais tarde, quando chegou à redação da Ultima Hora curitibana um andarilho baiano. Pedia ajuda para fazer uma cruz bem grande. Pretendia levá-la nas costas até Santa Catarina, igual ao personagem Zé do Burro do filme Pagador de Promessas, que acabava de conquistar a Palma de Ouro em Cannes.

Nosso Zé do Burro queria entrar com a cruz na catedral de Florianópolis. Vocês ajudam? Não. Alguém sugeriu que transferisse a promessa para a Igreja do Rocio, em Paranaguá. Assim, sem sair do Paraná, teria a cobertura diária do jornal de maior circulação do Estado.

Zé do Burro concordou e tornou-se, da noite para o dia, personagem de todos os jornais – porque um jornal imitava o outro e todos sonhavam imitar o Jornal do Brasil – e também pelas rádios e pelas duas televisões que funcionavam em Curitiba na década de 60.

Quando chegou a Paranaguá com sua cruz esperava-se que houvesse, como no filme, um confronto entre ele e a autoridade religiosa. Proibido de subir as escadarias para depositar sua cruz aos pés da santa, seu martírio ganharia o noticiário nacional, até internacional.

Ocorre que o bispo de Paranaguá era um sábio. Em vez do confronto, decidiu ignorar a chegada do peregrino. A escadaria ficou livre e as portas da igreja abertas.

A história teria acabado aí se o repórter que cobria o assunto não tivesse cometido um erro, pressionado pelo estreito deadline do jornal e pela própria ansiedade. Enviou uma reportagem de véspera, com relato do confronto que não houve, do sofrimento que não existiu.

Os jornalistas chamam a isso de barriga. No caso, uma abençoada barriga, fecho de ouro de uma seqüência de reportagens que retratavam a realidade social, o sincretismo religioso, a multiculturalidade, a profunda humanidade da população do litoral paranaense – aí incluídas as moças do Mosquitinho, maior casa de mulheres da região, que largaram as atividades profissionais para se ajoelhar na estrada e pedir uma benção.

As vendas aumentaram tanto que Zé do Burro foi embora e as bancas continuaram pedindo mais jornais.

 

VI

 

O editor paulista recompensou os responsáveis pela barriga com um elogio e um ensinamento do Willian Randolph Hearst, magnata da imprensa americana. “Não tenham medo de cometer erros. O leitor pode gostar deles”.

 

Agora voltamos à Rua Cruz Machado.

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A QUEDA E A QUEDA DA RUA CRUZ MACHADO

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“O sofrimento, se excessivo e demorado, deixa-nos insensíveis à dor”. Shakespeare

 

 

I

 

A tarde findou, a noite chegou e o Engenheiro lá. Ele e seu ajudante. Esticaram mais uma vez a trena na esquina da Voluntários, onde terminava a Cruz Machado, então uma agradável ruazinha residencial de cinco quadras, uma pracinha no meio. Mediram e remediram a largura da via e da calçada. Depois sumiram. Mais tarde, um piá contou que não tinham sumido coisa nenhuma. De trena e telêmetro, reapareceram na Visconde de Nácar, a paralela do outro lado da quadra. Novas anotações no papel quadriculado preso à prancheta.

Célia Andrade, conhecida como Língua de Ouro, ouviu falar dos homens e informou Malão, o gigolô que há oito anos zelava pelos seus negócios sexuais.

-É por causa da avenida que vão abrir aqui. Vai ligar o lado de lá com a Praça Tiradentes.

Animou-se.

-Bom pra nós, é coisa de mais de um milhão.

A fonte de Célia era fidedigna: o Engenheiro em pessoa. Decorreu a incontinência verbal do abuso de generoso vinho argentino que aqueceu um surubão na Casa da Otília. O Engenheiro não era dado a galinhagens, mas teve que ir à zona em missão oficial, ou quase; representava a comissão organizadora do Congresso Brasileiro de Obras Públicas. A pedido do Diretor, e sob o patrocínio de generoso empreiteiro, encarregou-se de ciceronear um grupo de congressistas  interessados em correr o trecho. Coincidiu que Célia estava lá como chefe das moças.

Toda língua e ouvidos, escutou o Engenheiro se gabar da nova obra na cidade. “É estrutural”, explicou a dois colegas que aguardavam a hora de afogar o ganso. “Vamos reduzir em dez minutos a rota leste-oeste”. O colega disse “fantástico” e Célia anotou mentalmente.

 

II

 

Uns seis meses depois chegou o primeiro convite para uma reunião na Prefeitura. Os vizinhos ouviram, um a um, que suas casas estavam desapropriadas para dar passagem à avenida. Vou chamar o advogado. Pode chamar. Desapropriação por interesse público. Está na lei.

Brigaram, brigaram e acabaram fazendo acerto para não sair sem nada no bolso. Histórias de desapropriações eram só desgraça. Séculos à espera do justo pagamento que nunca viria, alguns morando em casa de parentes.

Houve um racha. Metade desejava escrever abaixo-assinado, ir à Assembléia de luto, visitar o governador. Reclamariam – talvez pela primeira vez – contra a tirania do automóvel; em nome dele destruíam uma rua residencial, habitada por médicos, juízes, comerciantes. Rua pequena e feliz, aqui judeus oravam em paz na sinagoga e senhores de sucesso traziam os filhos para visitar o prédio em que haviam estudado, o afamado Colégio Estadual do Paraná. A outra metade queria a avenida com luzes e lojas. Orgia de brilho e luxo.

Célia na moita. Malão estava comprando uma casa para transformar em loja bacana quando o alongamento viesse.

 

III

 

A divisão aumentou. Alguns receberam a visita de corretores imobiliários que ofereciam até 50% a mais por suas casas. Dividendos do progresso. Espertos, decidiram que venderiam mas não agora. Mandava a astúcia aguardar o espetáculo da chegada das máquinas e nova valorização dos imóveis.

Quando as máquinas chegaram os corretores não reapareceram. Apareceram uns caras pálidos, de bigodinho e sapato bico fino. Queriam alugar.

Para encurtar a história, quem vendeu, vendeu barato porque a rua degenerou com o vai e vem de prostitutas, vendedores de droga e ladrõezinhos que arrancavam o cordão de ouro e saiam correndo.

Quem alugou conseguiu um dinheirinho melhor. Mas teve de agüentar perguntas da família e dos amigos porque os inquilinos agora eram donos de tunguetes, bares de má frequência.

Ninguém imaginava que ia tudo virar zona. As casas de família foram depressa substituídas pelo Bar da Rosa, o La Ronde, o restaurante Fumacinha, o Sopão das Putas, e por um clube de jogo onde, certa noite, um prefeito do Norte do Paraná perdeu no pif-paf a arrecadação municipal de seis meses. Malandros armaram o golpe das três pontas em cima dele, que saiu prometendo suicidar-se. Abriu a janela do Braz Hotel, tomou aquele ar frio na cara e mudou de ideia. Candidatou-se. Agora é deputado estadual e vice-lider da maioria.

 

IV

 

Cabe aqui uma consideração sobre a falta de limites para a decadência urbana.

Um sábio ensinou que as cidades melhoram quando ficam como estão. Há rua que nasce para ser estreita, com calçada de pedras centenárias. Alargada e asfaltada, a Cruz Machado, antiga Rua do Tesouro, só piorou. Parecia ter chegado ao ponto mais baixo de sua história como a rua das vadias, dos cafiolos e dos otários. Desceu ainda mais aos infernos quando afundou no mar de crack e de tiros na madrugada. Agora são mortos que se arrastam pela calçada no eterno delírio ambulatório de que falava São João Crisóstomo, no século V, em homilia para defender a família.

No crack ninguém quer saber de jogo de baralho, nem de sexo, muito menos de conversa de botequim. Só de dinheiro para a próxima pedra. Quer mesmo. Precisa. Sofre a urgência. Cuide-se para não passar perto dele.

E surpreenda-se. Em seu movimento de marés, a vida urbana desenvolveu a capacidade de contrariar os pessimistas e inventar a ascensão depois da queda.

O Engenheiro – não aquele da orgia na Otília, outro – anda por ai de novo. Numa planilha a equipe anota o fluxo dos veículos e em outra o movimento de pedestres. Planeja um plano urbanístico para devolver a saúde ao Centro. Vai fomentar um polo de serviços, galerias de arte, co-working, startups, hotéis boutique, soluções para uma rua sem solução.

De qualquer forma, cuidado com esse Engenheiro. Lembre do que dizia o velho Machado. Sua voz é a voz de Jacó mas suas mãos são as mãos de Esaú.

 

*

 

P.S. – Está no Velho Testamento a história da rivalidade entre irmãos gêmeos em torno do direito à sucessão no clã. Segundo os costumes seria Esaú o herdeiro, pois nasceu antes do irmão. No entanto, Jacó, instigado pela mãe, engana o pai cego à beira da morte e obtém a bênção que o confirma no lugar privilegiado. 

 

 

 

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O Canadá é aqui

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vbnbnb Tire um selfie.

 

 

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Os turistas chegaram.

Vêm de Araucária, de Pinhais, do Cerro Azul.

Querem um selfie neste cenário de Primeiro Mundo, rubro de tanto outono.

Welcome to Mossungue onde a renda per capita é semelhante à da Europa.

E os moradores mais jovens vão tomar vacina contra covid em Miami.

A prefeitura informa: “Tons terrosos e vermelhos das folhas do liquidâmbar e do plátano dá cor às paisagens nas baixas temperaturas. Estas árvores são encontradas no Mossunguê, no Cabral e na Barreirinha.”

As mudas vieram da América do Norte para embelezar ainda mais o eixo leste-oeste do ônibus expresso, no ano 2000.

Mas a prioridade, mente a prefeitura, é usar mudas de árvores nativas.

Fala sério, alcaide. Alguém tem coragem de plantar uma bracatinga na  Heitor Alencar Furtado?

 

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O PROFESSOR, ou, como a ideologia concurseira pode tornar a sociedade mais desigual

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I

 

Todo o dia o mesmo caminho. Vinha pela avenida João Pessoa, “a Menor Avenida do Mundo”, virava na travessa Oliveira Belo, famosa pelo Alvorada. Era o café onde os políticos, juízes, profissionais liberais confraternizavam e aparentemente decidiam o que ia acontecer na próxima eleição. Conhecia alguns: o professor Bento Munhoz da Rocha, os médicos Aramis e Aristides Athayde, Lauro Portugal Tavares, Máximo Pinheiro Lima, os advogados Laertes Munhoz, Salvador de Maio, este último campeão do Tribunal do Juri, onde argumentava com o Código Penal em uma das mãos e um livro de Malatesta na outra.

-Chi è povero è schiavo! – bradava com voz rouca, para iniciar uma arrasadora catilinária contra a violência da polícia e a incompetência do delegado que errou no inquérito. E do promotor que não percebeu as incongruências e produziu uma denúncia teratológica – teratológica, senhores jurados! (só havia homens no júri) – que nenhum juiz deveria aceitar.

Meu pai me viu chegando e chamou. Cumprimentei respeitoso cada um daqueles senhores. Sabia que aquele era o recreio dos poderosos. Daqui a pouco voltariam para seus conciliábulos, como escrevia o jornalista Roberto Barroso, diretor do Diário da Tarde, que acabara de passar pelo grupo. Após as maquinações (outra palavra do editorial do Diário da Tarde) um seria ministro, outro governador, outro deputado federal.

Finda a apresentação, entrei no edifício Palácio Avenida. Havia uma banca de jornais e revistas do lado esquerdo, à direita a mesa do zelador, adiante o elevador e a escada para a sobreloja. Na sala de pé direito baixo, cheiro antigo de cigarro e poeira de giz, estava o professor Joaquim, terno marrom, camisa branca, gravata com prendedor de ouro, dedos amarelos de tanto fumar.

O mestre tinha uns 50 anos, era negro como Leonidas da Silva e craque como ele. Não havia matéria que não fosse capaz de enfiar na cabeça do aluno. Tinha fama. Era uma espécie de santo Expedito, aquele das causas perdidas. Eu e ele, ou melhor, vamos ser justos, ele e eu iniciávamos a aventura de aprender em três meses toda a matéria do concurso para a Escola Preparatória de Cadetes.

 

II

 

Agora é preciso voltar um pouco para eu explicar porque lia todo o dia o editorial do Diário da Tarde. Estava viciado em novas palavras. Pelo mesmo motivo, sabia um monte de palavras e expressões usadas por Eça de Queiroz, Érico Veríssimo, Balzac: era o efeito raio-X. Explico: todo início de ano, os alunos do Santa eram obrigados a produzir um atestado de saúde. Meu exame médico deu errado. O raio-X mostrava uma alteração cardíaca. O coração dilatado, enorme, pronto para explodir.

-Descanso absoluto – determinou o doutor Benedito Amorim, meu padrinho, parteiro, tudo que um clínico bom devia ser naquela metade de século.

Nem futebol. Nem ir até o Belford Duarte ver o treino do Coxa.

-Repouso, o remédio é repouso, talvez o coração volte ao normal.

Começou um ano de sofrimento. Chegava da aula, almoçava, fazia a lição de casa – e agora? Nada. Descanse.

Peguei um gibi do Mandrake, em l5 minutos estava lido. O Super Homem, o Fantasma, Dick Tracy, tudo leitura rápida. Tinha Helena, do Machado, muito chato. Os da coleção Terramarear, todos lidos. Então minha prima Iole, professora e maior leitora da família, me emprestou O Primo Basílio. O mundo de Eça era diferente: gente de mau caráter, adúlteros em suas alcovas de seda (alcova! boa palavra), prima Luisa visitando a Escocia “com seus lagos taciturnos” (lagos taciturnos!), louca para abandonar a vida burguesa. Descobri o que é burguês na Enciclopédia. É gente como Basílio, que em apenas dois anos de Brasil “conseguiu reconstituir sua fortuna com um honrado trabalho”.

Honrado trabalho. Trabalho honrado. Tem palavras que já nascem casadas. Uma não larga da outra e as duas servem para enfeitar uma mentira. Chave de ouro. Lenda viva. Trocar farpas. Pele aveludada. (Como a de Luisa). Pensamentos lascivos (como os de Basílio). E mais: água cristalina, marido exemplar.

Então passei o ano lendo de tudo, inclusive os editoriais irados do Diário da Tarde. Descobri palavras que não estão casadas com outras. Nonada, (Guimarães Rosa). Éramos quadro, nós e nossas melancolias, (Machado de Assis). Esses caras escreviam bem. Em outros livros vi que mesmo os bons escritores às vezes vinham com palavras casadinhas. Ninguém é perfeito.

Em compensação, até em autor maldito, como aquele João de Minas, que fez livrinhos de literatura erótica, há coisa boa. Um dos personagens dele “tinha barbas duras como espinhos, e tempestuosas, abundantíssimas”. Outro “era o coronel de todas as moças e senhoras fáceis, dessas que acham até piano na rua”. Adiante aparece uma moça “que possuía um coração de arminho”.

De tudo ficou a advertência do personagem de Graciliano Ramos: ele “admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.

 

III

 

Dito isso, agora sim, posso sentar à mesa retangular da sala de aula do professor Joaquim. O quadro negro era mesmo negro, não branco ou verde ou digital como os modernos. Nele o professor escrevia fórmulas e mais fórmulas, que eu copiava até o dedo fazer calo.

-Não tem livro texto?

-Não. Nem apostila. Vamos escrever.

Ele ditava problemas enormes, com número infinito de incógnitas, que eu jamais vira. Eu escrevia, entusiasmado com a memória, a fluência, a elegância do mestre. Imensas definições de biologia, geografia, geometria eram escritas com velocidade cada vez maior. Os professores militares gostam de geometria, que é a base da topografia e da cartografia, do estudo das batalhas de Napoleão e Julio Cesar. Escreva e desenhe.

-Você vai ver que tudo se resume ao Teorema de Tales.

Num plano, a interseção de retas paralelas, por retas transversais, forma segmentos proporcionais, disse o Tales, um grego nascido em Mileto, que hoje é um pedaço da Turquia. Era comerciante, viajava muito para o lado do Egito, e aprendeu com os egípcios a arte do cálculo matemático.

-Um turco, um braço fixo – sugeri.

-Não, ele era grego e era um gênio da humanidade. O primeiro filósofo do mundo. Anote ai.

Peguei o caderno pensando que vinha um problema daqueles compridos.

-O homem rico nem sempre é sábio, mas o homem sábio é sempre rico.

Era bacana esse Tales de Mileto. E breve.

 

IV

 

O concurso foi numa sala da 5ª. Região Militar, na rua Carlos Cavalcanti, para trinta candidatos. Também houve concurso em Santa Catarina e para os dois estados o Exército oferecia seis vagas. Então, 6 em 60. Um em dez. Levei as questões ao professor e vimos que tinha ido bem. Quando veio o resultado, e eu era um dos seis, senti a autoestima lá no alto. Faço parte do décimo superior, do grupo dos melhores.

Grupo dos melhores?

Foi o meu primeiro contato com a ideologia concurseira. A expressão, desconhecida nos anos 1950, serve de base para o papo da meritocracia, uma grande engrupição.

Vamos lá: para que serve um concurso? Para decidir quem, pelo seu mérito, merece mandar nos outros. Veja o juiz na cidade do interior. É o homem mais importante do município junto com o latifundiário e o dono da fábrica que dá empregos. Um juiz é mais do que o prefeito, porque ele pode tirar o prefeito do cargo, até mandar prendê-lo, e o prefeito não pode tirá-lo da magistratura.

Um juiz tem um emprego para toda a vida. É a vitaliciedade. Não pode ser removido para outra cidade. E seu salário é irredutível. Uau!

O mesmo vale para um promotor público, um auditor do imposto de renda, um diplomata, um general. Não estão lá porque o pai tem dinheiro, nem porque foram eleitos pelo povo. Apenas porque tiveram um professor Joaquim, que era um invencível treinador de concurseiros.

 

V

 

No ano passado, Daniel Markovits publicou. pela Penguin Press, “Meritocracy Trap” A Armadilha da Meritocracia. Ele argumenta que, em vez de contribuir para a mobilidade social, o conceito de meritocracia é o principal obstáculo para a igualdade de oportunidades nos Estados Unidos e em boa parte do mundo de hoje. O sistema meritocrático, diz ele, é um engodo.

O livro é baseado na longa experiência pessoal do autor como professor da Yale Law School. Ele vê os EUA como um exemplo extremo de um fenômeno global. Evidências colhidas em entrevistas e pesquisa acadêmica mostram que a estrutura familiar e o sistema educacional conspiram a favor das elites, garantindo sua liderança em capital humano.

É fácil entender o argumento de Markovits. Ter uma educação de elite é mais importante do que herdar terras ou ativos financeiros porque resulta em ganhos maiores. Os filhos da elite terão pré-escola de primeira linha, bons colégios particulares para o ensino fundamental e médio, universidade de ponta, mestrado, doutorado e pós-doutorado, talvez no exterior. Tudo isso somado representa um salário de seis dígitos.

Em dólar.

Com essa supercapacitação, é normal ser convidado para assumir a direção de um grande banco, a presidência de uma multinacional ou o Ministério da Fazenda, pela ordem de importância. E continuar a fazer parte, talvez para sempre, da classe dominante.

 

VI

 

Em janeiro, chegou o comunicado oficial. Gostei de ler o resultado e foi ótimo ver meu nome no Diário da Tarde. Eu e mais cinco éramos os tais. Senti um ar respeitoso no cabo da 5ª. RM que me entregou o ofício de apresentação e a passagem de trem para Porto Alegre.

O banho de humildade viria depois.

 

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Posted on 28th abril 2021 in Sem categoria  •  1 comment
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Index, ou, porque não devíamos ler A História do Mundo para Crianças, do Monteiro Lobato, um cara que negava o criacionismo

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I

 

No canto superior esquerdo da primeira página do Missal estava escrito Nihil Obstat e, do lado, Imprima-se, assinado pelo vigário-geral.

-O que é Nihil Obstat?

-Nada a obstar. Quer dizer que não está no Index da Igreja.

-Index?

O irmão Anselmo foi ao quadro negro e escreveu:

Index Librorum Prohibitorum.

 

-É a lista de livros proibidos pela igreja.

-Ninguém pode ler?

-Ninguém.

-Se ninguém leu como é que alguém proibiu?

Uma provocação. Expulsar da aula era a consequência necessária de qualquer provocação. Mas veja o menino que perguntava: era um dos filhos do inspetor federal de ensino, o fiscal da escola.

O professor titular hesitou um segundo. Um guri de cabelo ruivo entrou na conversa.

-É verdade que Monteiro Lobato está proibido?

O irmão virou para ele.

-Está.

Não contou o motivo: Lobato defendia a doutrina evolucionista, aquela do Big Bang, contra o criacionismo, a ideia de que o mundo foi feito em seis dias e no sétimo Ele descansou.

-O que é que a Emília fez?

-Fora!

O ruivinho não era filho de ninguém conhecido.

 

II

 

Os livros do Index eram muito bons. Encontrei alguns na feira informal do Cine Broadway. O maior pulgueiro da cidade ficava no início da Rua 15 e exibia faroestes, filmes de Tarzan, de terror e seriados de Durango Kid, da Columbia, com Charles Starrett. As sessões começavam às duas e iam até às sete horas. Dois filmes e dois seriados para encher o domingo e fornecer assunto de conversa nos dias seguintes.

Na entrada os guris trocavam gibis, figurinhas e os “catecismos” de Carlos Zéfiro, pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que publicou mais de 500 histórias em quadrinhos eróticas entre 1950 e 1970. Precursoras do PornHub, eram vendidas discretamente em outro canto do hall e em bancas de jornal.

 

III

 

Um dia um guri me apareceu com Cocaina, de Pitigrilli. Não deixe tua mãe ver. É um livro de sacanagem.

Não era.

Pitigrilli sabia escrever. O romance tem estrutura. O enredo bem resolvido é elegante, inteligente e perverso. O italiano era um cínico com senso de humor: “Se eu comi um frango inteiro e você não comeu nada, o relatório do governo vai dizer que cada um de nós comeu meio frango”.

Prestei atenção no Pitigrilli, no sabor amargo das histórias, onde o sexo era triste. Ou trágico. Seus livros estavam no Index. Além de escritor libertino, me explicaram, ele era judeu.

Não gostei do Marques de Sade, 120 Dias de Sodoma, um livrinho velho, cheio de ácaros e mal traduzido.

 

IV

 

Dei uma olhada na História de Ó. Não sabia que estava diante de um ícone da literatura erótica do século 20, inspirador de 50 Tons de Cinza e outros livros do gênero mommy porn.

Em História de Ó, uma fotógrafa de sucesso chamada “Ó” arranja um amante pervertido: Renê.  Por amor, aceita participar de orgias sexuais ilimitadas, submete-se aos desejos dele, que incluem práticas sadomasoquistas.

A autora usava o pseudônimo de Pauline Réage. Tratava-se de Dominique Aury, destacada intelectual francesa de 47 anos na época do lançamento do livro. Tímida, de elegância discreta, tradutora e editora, era a única mulher com assento no comitê de publishers da Gallimard ao lado de, entre outros, Albert Camus. O romance vendeu feito água, mas ela continuou em seu casulo. Só bem mais tarde, aos 86 anos, Dominique Aury admitiu a autoria do romance.

Ganhadora da Legion d’Honneur, foi apresentada ao General de Gaulle, que a homenageou:

-Já a conheço. É a famosa autora de A História de Ó.

V

 

Minha turminha lia com entusiasmo Escravas do Amor e outros folhetins de Suzana Flag.

Descobri depois que Suzana era o “eu poético feminino” de Nelson Rodrigues. Além de muito sexo em hotéis de encontros no Leblon e na Barra da Tijuca, o folhetim erótico é feito de exageros e absurdos: ataque de onça, velho judeu que mora num castelo e tem cicatriz no rosto, punhal com ponta envenenada (como no Hamlet), hipnotismo, troca de bebês, passagens secretas, herói rico que se faz passar por pobre. O estilo hiperbólico, escandaloso, foi aperfeiçoado em Vestido de Noiva e Beijo no Asfalto.

 

VI

 

Ler escondido sobre incestos, adultérios, perversões despertava um certo temor de Deus. E levantava questões práticas: qual o tamanho da punição?
Cada página era um pecado mortal? Ou apenas pecado venial? Será que é medida em anos de Purgatório, aquele lugar que tem todos os desconfortos do Inferno, só que não é eterno? Há algum tipo de dosimetria? Ler 120 dias de Sodoma, convenhamos, merece pena maior do que saborear a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato.

Objetivamente: onde está descrito o pecado de ler Lobato?

 

VII

 

Surgiu a Coleção Terramarear, Tarzan, Kim, a Ilha do Tesouro. E as aventuras do piloto Biggles, escritas pelo piloto inglês William Earl Johns. O herói voava em seu monomotor para oeste, para leste, para todos os continentes e se metia com malaios, tuaregs, todo tipo de gente perigosa, em tramas sensacionais.

Vieram as histórias de Sherlock Holmes impressas em Portugal. Policiais em ação nos subterrâneos de Londres, o caminho iluminado com lanternas de carbureto. Perseguições em carruagens pela Fleet Street ou pela Strand, com eventuais mergulhos nas aguas do Tâmisa para resgatar a prova do crime.

Façanhas que seriam relatadas pelo repórter Clark Kent, aliás, o Super-Homem. Ou por Billy Batson, que se transformava em Capitão Marvel gritando Shazan!

Os dois eram repórteres, Billy numa estação de rádio, Clark Kent no Planeta Diário, de Metrópolis.

 

VIII

 

Minha prima Iole achou um erro num livro de James Hilton chamado Adeus Mr. Chips. Uma história edificante sobre um professor de latim que dá aulas em Londres durante a guerra e mesmo durante o pior bombardeio dos alemães continua falando aos alunos. Virou filme, foi indicado aos cinco principais prêmios do Oscar de 1940. Levou o de melhor ator para Robert Donat, mas o páreo foi duro aquele ano, onde se concorria com …E o vento levou.

Logo o livro chegou à Livraria Ghignone; era da Editora Globo, tradução do Érico Veríssimo. Lá estava o erro ou melhor o cochilo, que podia ser do autor, do tradutor, do revisor e até mesmo do impressor. Difícil apontar o culpado.

Na Revista Cigarra havia uma seção, Cochilos dos Outros, que dava livros de prêmio a quem achasse cochilos na história ou na tradução. Para não se expor minha prima fez a proposta – você escreve e assina, eu fico com o livro. Mandei e foi publicado. Um amigo do meu pai comentou: muito bom o que seu filho escreveu na Cigarra.

Uau! O feito repercutiu entre vizinhos e na família.

 

Seria a glória literária chegando?

Posted on 19th abril 2021 in Sem categoria  •  No comments yet