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Com alta mortalidade prevista, vacina contra pandemia pode ser produzida no Brasil e na Índia

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Do Brasil para o mundo. (Foto Agencia Brasil)

 

Donald G. McNeil Jr. é o autor de um texto prospectivo sobre os caminhos que o Covid-19 deve seguir daqui para frente. Ele aponta o Brasil e a India como os países que garantirão a produção das vacinas para estancar a pandemia. O artigo está na manchete da edição digital do New York Times de ontem, dia 18 de abril.

Por que foi parar em posição tão destacada?

Provavelmente porque Donald G. McNeil Jr. é um craque do jornalismo científico. Alguém capaz de interpretar os dados incompletos e às vezes discutíveis fornecidos pelos serviços de saúde dos países afetados pela pandemia. Um veterano que lida há 40 anos com ciência e saúde, especializando-se em epidemias e pestilências. Ele cobre doenças que dizimam os países pobres, entre elas AIDS, Ebola, malária, gripes suína e aviaria, doença da vaca louca e SARS.

Agora McNeil avalia os cenários que os cientistas estão construindo e, a partir da opinião dos mais qualificados, conclui: 1) a única atitude razoável neste momento é o isolamento; 2) a saída definitiva só virá com a vacina.

É necessário no mínimo quatro anos para se chegar a uma vacina efetiva, se respeitados os protocolos científicos. Graças aos modernos recursos da biotecnologia, com o uso de plataformas RNA ou DNA é possível desenvolver vacinas menos tempo, entre 12 e 18 meses.

Mas não basta ter a vacina, é preciso testá-la, o que significa mais um ano de trabalho. Encurtar esse prazo só através de um processo doloroso que exige o sacrifício de certo número de voluntários. Eles receberão uma vacina ainda insegura, na fase 2 de testes, e em seguida serão inoculados com o Covid-19. Se resistirem é porque a vacina funciona.

É um procedimento altamente discutível. Perder vidas humanas para testar vacinas, isso é ético? Pressionadas pelo número de contaminações, pelo sistema de saúde em colapso e pelos cadáveres que se acumulam em caminhões frigoríficos transformados em necrotérios móveis, as autoridades provavelmente acharão que sim. A salvação de muitos justifica a morte de alguns.

Obtida a vacina, surgirá o problema industrial. Todo o mundo vai querer. Só nos Estados Unidos serão 300 milhões de unidades ou 600 milhões, caso sejam necessárias duas doses, além de 300 milhões de seringas. Os grandes laboratórios da China e Europa estarão voltados para o atendimento das necessidades nacionais.

Os outros países que têm indústrias capazes de produzir vacinas em grande quantidade, escreve McNeil, são India e Brasil. E segue avaliando o que pode ocorrer entre brasileiros e indianos: “Se o vírus mover-se rapidamente entre suas grandes populações, eles poderão perder milhões de cidadãos mas alcançar extensa “imunidade de rebanho” – aquela situação em que os sobreviventes adquirem anticorpos e ficam livres da doença – muito antes disso acontecer nos Estados Unidos. Nesse caso, haverá capacidade ociosa para produzir as vacinas que os EUA necessitam.”

É um cenário cruel para nós. Mas pode explicar a insanidade do “vem pra rua”, a defesa irada do direito de ir e vir. Não se trata mais de manifestação de falta de juízo. Trata-se de um estímulo “ético” à contaminação dos brasileiros pelo bem da humanidade. Ao aumentar em algumas dezenas de milhares o número de vítimas do vírus, a maior parte possivelmente entre os mais pobres e com menos acesso às facilidades médicas, o Brasil alcançará mais depressa a “imunidade de rebanho”.

Poderá voltar ao trabalho, fabricar vacinas para o mundo e talvez até salvar o PIB.

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Posted on 19th abril 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Bernie Sanders estava certo

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gghghghghg Com a saida de Bernie Sanders da corrida pela presidência, a democracia sofre uma derrota. (Foto do arquivo UG)

 

Por Elizabeth Bruenig (*) , do NYT

 

Bernie Sanders encerrou sua campanha pela indicação a candidato à presidência, o que é uma tragédia, porque ele estava certo sobre virtualmente tudo.

Estava certo desde o início, quando defendeu a completa remodelação do sistema de saúde americano, nos anos 1970. Continua certo agora, quando a pandemia ressalta a falta de recursos médicos para milhões de cidadãos ameaçados de morte. Estava certo quando parecia ser o único alarmista em um ambiente de complacência política.

Está certo agora, quando é o único político que não parece surpreso ao ver a indústria farmacêutica lucrando com uma praga letal, com ajuda do Congresso. Em política, como na vida, estar certo não é necessariamente recompensado. Mas pelo menos há alguma dignidade nisso. Continue reading »

Posted on 11th abril 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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O TELETIPO, LEMBRA?

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gghghg UPI, Reuters ou AP. As notícias importantes.

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A primeira pessoa que chegou na redação do Diario do Paraná na tarde de 20 de fevereiro de 1962 foi o critico Eduardo Virmmond. Antes da uma ele terminou de escrever uma nota sobre a peça que ia estreiar no Guairinha e pediu espaço para a primeira crítica que entregaria no fim da noite. Trocou uma ideia com Silvio Back sobre o filme “Pagador de Promessas”, que Anselmo Duarte estava concluindo e correu ao escritório de advocacia.

O secretário de redação Airton Baptista iniciou a rotina das tardes pelo futebol. Cobrava informação sobre o Coritiba, em Porto Alegre para jogar com o Grêmio. Chegaram ao “aquário” Luiz Renato Ribas e o diagramador Arno Voigt. Pediam mais espaço para o turfe, ia ter grande prêmio. Repórteres da geral corriam para completar informaçôes sobre o ano escolar que começava na outra semana e sobre as vítimas de grave acidente na estrada de Joinvile que chegavam ao Pronto Socorro do Cajuru.

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Mas, por mais que os repórteres suassem pela melhor notícia, o trabalho estava condenado ao quase anonimato das páginas internas ou do segundo caderno. A primeira página dos matutinos dos Diarios Associados destinava-se a grandes temas nacionais ou internacionais que chegavam pelos teletipos.(*) Os editores que chegariam mais tarde para fechar o jornal valorizavam coisa séria, “de peso”, do gosto do senador Assis Chateaubriand. Chatô dizia o que era importante e o que não era. Só ele. Se alguém quisesse dar ordem no lugar dele – avisava aos interessados – devia primeiro assumir a folha de pagamento da empresa.

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Naquele dia 20 de fevereiro a manchete seria “John Glenn poderá ser lançado hoje ao espaço: tempo melhorou”. Algum novato na redação poderia questionar aquele “poderá”. Tirava a força da notícia. Pra que? Mordaz, o Roberto Novais gritaria para o editor Ortiz: “Para tudo ai, Julio, parece que o nosso novo colega tem manchete melhor!”

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Numa sala ao lado da fotografia teletipos não paravam de bater noticias da United Press e da Reuters, além do material da Agência Meridional, dos Diários Associados. Na outra saleta a máquina de telefoto aguardava uma imagem do Senado ou da Presidência da República. Se a imagem do presidente João Goulart viesse borrada, o que acontecia com certa frequência, não havia problema. Era só pedir para o Monteiro escolher outra no arquivo.

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A capa daquela terça-feira apresentava outros títulos respeitáveis: “EUA pede apoio da OTAN para boicote a Cuba” , “Desaparecido avião da Colômbia”, “Retorno de Jânio ao Brasil”, “Mensagem de Jango a Kruschev”, “Principe do Japão vem ao Paraná”, “Arinos justifica abstenção no caso de Angola”, “Bloco comunista manobra para condenar EUA por agressão a Cuba”, “Socialistas não integrarão o governo italiano”, “Caças soviéticos interferem no corredor aéreo de Berlin”, “Reinício das explosões nucleares dos EUA”.

No pé da página uma foto mostrava um carro de boi passando pelo aeroporto recém-inaugurado na capital do Laos. O título da foto da UPI era: “Antigo e moderno”.

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O grave, o indesculpável é que lá dentro, em apenas duas colunas, estava o grande assunto do dia: o deputado Pedro Liberti, do PTB, tinha tentado matar o colega Julio Jacob. Contido por outros deputados e por seguranças, guardou o 38 no coldre, mas anunciou: “Eu havia me regenerado, mas agora vou ter que matar mais um!” Não perdoava Jacob, que invadira a área eleitoral dele em Jaguapitã.

A reação destemperada, além da política, estimulava a investigação sobre a maneira como o sistema eleitoral, de voto proporcional, tinha sofrido mutações patológicas, regredindo ao tempo da República Velha, ao distrito do Império. A indignação de Pedro Liberti revelava que boa parte do Paraná pertencia a coronéis. O voto de cabresto não fora extinto.

A reportagem não foi escrita. Não haveria ordem para publicá-la sem que alguém, como sugeria Chatô, assumisse a folha de pagamento.

Aquela primeira página cheia de notícias internacionais e de siglas condenou o Diario a mais uma derrota na disputa pelo leitor real, aquele da banca de jornal. Ao lado, na capa da Ultima Hora, Pedro Liberti, de olho rútilo e ar feroz, avisava em letras gigantes: “VOU TER QUE MATAR MAIS UM!”.

A UH esgotou cedo.

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(*) Havia exceções. O casamento da filha do professor David Carneiro, por exemplo, foi generosamente noticiado na primeira página. Talvez pelo fato de um dos padrinhos ser o diplomata Gilberto Chateaubriand, filho do doutor Assis.

 

 

 

 

 

Posted on 9th abril 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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O maluco que ensinava lógica

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gfghghghh Um professor no Planalto. (Foto Radio Senado)

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Desconfio que a quarentena vai passar dos 40 dias. Tanto tempo sem bar, cinema e livraria, essa abstinência pode mergulhar você na maior quizília com o mundo. A menos que o vazio seja preenchido com algo eletrizante.

Dou um exemplo: os arquivos digitais que nos transportam para a sala de leitura da British Library, ao Smithsonian ou à Biblioteca Nacional (www.memoria.bn.br). Entro na seção dos periódicos da BN e descubro o saudoso Diario do Paraná, presidido por Adherbal G. Stresser, tendo como secretário de redação Airton Baptista e como editorialista o doutor Valmor Coelho.

Numa edição de 14 de março 1961, o comentarista All Right comenta o famoso discurso de posse de Janio Quadros.

Maravilhosa peça de oratória. Mais do que isso: uma evidência incontestável da sanidade de Jânio, que frequentemente é comparado a Bolsonaro só porque às vezes se fingia de maluco. Nada disso. Maluco não leva jeito com o discurso lógico, solta frases a esmo, redunda, volta ao ponto inicial, entra em contradição.

Jânio era o oposto.

Gramática impecável, ajustava o estilo ao momento, falava organizadamente e tinha um agudo senso de oportunidade. Em 1961, achava que era hora de o Brasil deixar de ser periférico. Esqueça o Grande Irmão do Norte. Explore as contradições de um mundo em guerra fria. Lidere o Terceiro Mundo. Somos a grande potência que construiu Brasília em cinco anos, expandiu a indústria, inventou a Universidade de Brasília, a UnB de Darcy Ribeiro. Só falta administrar a economia aquecida pelo governo de Juscelino e dar rumo e sentido ao entusiasmo dos brasileiros.

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Eis o que Jânio disse:

“Díspares são os destinos, as ambições, as paixões dos homens. A democracia é um regime suficientemente dinâmico para permitir que esse embate de interesses e de situações se processe sem dano maior à paz pública. É um coro de harmonias às vezes desencontradas, mas regidas pelo compasso do bem comum. Ele tem sabido ajustar-se e vicejar, fortalecendo-se mais e mais mediante a ação do Estado no campo da iniciativa particular, orientando, empreendendo, complementando atenta às novas exigências democráticas e sócioeconômicas. Vivamos como seres livres construindo o poderoso Brasil.”

Então deu uma pista sobre seu projeto político. Deputado federal pelo PTB, o mais votado do Brasil em 1958, eleito presidente com maioria folgada, ele se sentia em condição de propor uma reforma que nos aproximasse do trabalhismo inglês ou da social democracia alemã. E que gerasse um partido de massa, com forte base sindical, aliado à inteligentzia e capaz de atrair ao menos parte da classe média nacionalista que tinha votado no Lott.

Talvez Jânio estivesse pensando em propostas da Constituição de 1988 quando receitou: “O nosso propósito deve ser o de multiplicar os órgãos da mecânica democrática, fazendo com que surjam, ao lado dos tradicionais, outros mais próximos das massas, que deem a estas representação a que fazem jus, com participação efetiva nas responsabilidades governamentais.”

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SEM TEMPO PARA VIVER

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ghghghg Ken Loach contra a uberização do trabalhador.

 

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“Sorry we missed you”, em português “Você não estava aqui”, o novo filme de Ken Loach, socialista inglês de 84 anos, mestre do cinema político, é um drama sobre a globalização e suas consequências para o mercado de trabalho. Conta a história de um trabalhador uberizado – alguém que perdeu o direito ao contrato de trabalho, a férias, à semana de 40 horas, ao hospital, à aposentadoria.

Ricky Turner (Kris Hitchen) passou a vida inteira no chão de fábrica. Agora, desempregado, tenta se defender como autônomo, conduzindo sua própria van e fazendo entregas em Newcastle, norte da Inglaterra, para uma firma que faz deliveries para empresas como Amazon, Zara e Nike. O título refere-se ao papel deixado na porta quando a entrega requer uma assinatura e você não está em casa.

A van que dirige é financiada e foi preciso uma briga com a esposa Abby (Debbie Honeywood) para que ela concordasse em vender o carro da família para dar a entrada de 1.200 libras. Abby é uma assistente social que também vive de trabalho terceirizado. Dependia do veículo para chegar à casa dos deficientes, idosos e enfermos que atende diariamente.

A falta de tempo prejudica a relação com os filhos Seb (Rhys Stone), adolescente punk e Lisa, de 11 anos, (Katie Proctor). A ausência logo se transforma em problemas na escola e na delegacia de polícia.

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A história da família de trabalhadores sem tempo para viver (e ele sem tempo sequer para urinar) tem um nome: gig economy, referência ao trabalho eventual de músicos, encanadores, entregadores de pizza, redatores freelances, médicos plantonistas. O filme de Loach é um apelo para que os governos cuidem desses trabalhadores sem qualquer proteção legal.

Se o rapaz que pedala uma bicicleta para a Rappi for atropelado, quem pagará o hospital, agora que a reforma da Previdência está acabando com os recursos do SUS? Para onde correrá a garota do call center se ficar grávida? E quando haverá uma regra que permita ao motorista da Uber dormir sete horas por noite, descansar um dia por semana?

O motorista de aplicativo é considerado parceiro. “Você não trabalha para nós – diz o gerente Maloney (Ross Brewster) para Ricky – você trabalha conosco”.  Entre ele e o dono do aplicativo existem obrigações mútuas ainda não disciplinadas por lei.  A omissão gera vários tipos de fraude – a escravidão do algoritmo, a sonegação de impostos e consequente ameaça ao equilíbrio do modelo construído ao longo dos últimos cem anos. A Europa debate a Taylor Review, publicada na Inglaterra em 11 de julho de 2017, que propõe medidas legais para regular esse novo tipo de relação trabalhista nascido da tecnologia e da crise de Wall Street.

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Em entrevista a El Pais, Ken Loach explicou sua luta contra o trabalho precarizado: “A culpa não é da ciência de criou o algorítmo, é do governo complacente com a exploração. Meu objetivo é fazer filmes que desafiam o poder. Infelizmente, a maioria dos filmes a que assisto só reforçam o poder, reproduzem estereótipos, glorificam a riqueza. É preciso um cinema que desafie o poder de um modo radical.”

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Posted on 5th março 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Carlos Andrade

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ddgdgd Carlos Andrade, mais que advogado, operário do Direito.

 

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Do doutor Carlos Oswaldo Andrade, que morreu na terça-feira e será enterrado às 17h desta quarta-feira de cinzas no Cemitério Iguaçu, fica o exemplo de sua devoção à palavra escrita e sua confiança no Direito. Uma de suas bíblias era The Rule of Law, de Tom Bingham, livrinho de 200 e poucas páginas que compartilhamos mais de uma vez.

Carlos Andrade acreditava que “em um mundo dividido por diferenças de nacionalidade, raça, cor, religião e riqueza, a regra da lei é um dos maiores fatores unificadores, talvez o maior de todos, o que mais se aproxima de uma religião universal e secular”.

 

Posted on 26th fevereiro 2020 in Sem categoria  •  2 comments
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O mundo dividido

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dfdfdfdfdf Um texto universal de John Kani

 

 

É possível colocar no palco a história de uma nação? – perguntou no Guardian o crítico Michael Billington, justamente no dia da festa do Oscar. Para ele a resposta é positiva, e aponta como exemplo a peça “Kunene and the King”, em cartaz em Londres no teatro Ambassadors. O texto é do ator e ativista político sul-africano John Kani, um dos astros de “Pantera Negra”, aquele blockbuster da Disney que lotou os cinemas no ano passado.

A peça se passa na Africa do Sul. Faz sucesso em plena temporada do Bafta e do Oscar com seus dois personagens: Antony Sher interpreta Jack Morris, um ator velho e rabugento que espera vencer um câncer de fígado para ir a Cape Town interpretar o Rei Lear; John Kani é Lunga Kunene, enfermeiro aposentado contratado por uma agência para cuidar de Morris.

Enquanto um se preocupa com a falta de segurança do país, outro mostra indignação pelo descumprimento das promessas feitas ao povo e pela dificuldade em construir uma democracia real.

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Kani almejava a carreira de advogado. Não deu certo porque seu tio e mentor foi preso, obrigando-o a procurar sobrevivência na linha de montagem da Ford. Gaba-se que nunca mais precisou levar carro ao mecânico e, além disso, tornou-se ator, escreveu peças, liderou campanhas. É um agitador no sentido leninista da palavra: alguém que trabalha para o povo deixar de ser ignorante, oprimido e brutalmente explorado.

Pensando melhor, talvez estejamos diante de um agitador orwelliano. Alguém consciente de que num mundo de falsidade propagar a verdade é um ato revolucionário.

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“Kunene and the King” tem parentesco com “Coringa”, “Parasita”, “Democracia em Vertigem”. Fala um pouco de liberdade e muito mais de desigualdade. No palco, a situação é apresentada pelo confronto de ideias de personagens que representam um país dividido, situado na periferia do sistema político e econômico capitalista mundial.

Alguma semelhança com o Brasil, que espera o “futuro melhor” desde o fim da ditadura e a vitória de Tancredo Neves? Aqui também  população está rachada entre os 10% que têm acesso a oportunidades e os 90% que sofrem nas filas do posto de saúde, nas escolas precárias, na luta pela aposentadoria magra e, se depender do ministro, incerta.

Alguma semelhança com a Coreia do Sul do filme “Parasita”, também separada entre os que têm e os que nunca vão ter? Entre os que moram nas partes altas e os que vão perder os móveis da casa na enchente anual?

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Na peça de John Kani, os personagens representam esses dois mundos – e por isso a história nos toca. Eles só se encontram no universo de Shakespeare.

O bardo sempre fez parte da vida de Morris e foi descoberto por Kunene através em uma versão de “Julius Ceaesar” no idioma isiXhosa. Há um momento (*) em que os dois relembram o discurso de Marco Antonio no enterro de Cesar, esfaqueado por Brutus. O famoso bordão “…mas Brutus é um homem honrado” é dito primeiro em inglês depois em Xhosa.

O texto é pontuado com citações do “Rei Lear”. Há uma cena de tempestade e a sugestão de que é através do profundo sofrimento que vem a iluminação de um povo.

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(*) – Está no YouTube. Digite: Kunene and the King /  Julius Caesar Speech

Posted on 11th fevereiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet
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Gostei mais do livro

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gghghg Carol Duarte interpreta Eurídice Gusmão

 

 

Sobre “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, nas livrarias em edição da Companhia das Letras e nas telas graças à Amazon, repito o chavão: gostei mais do livro.

A narrativa de Martha Batalha perde parte do encanto no filme de Karim Aïnouz (que escreveu a adaptação para a tela com Inez Bortagaray e Murilo Hauser). O filme traz cenas que não estão no livro, exclui outras que me pareceram indispensáveis e acrescenta pelo menos 20 anos à história para poder incluir Fernanda Montenegro no elenco. Alonga a vida de Eurídice (Carol Duarte), encurta a de Guida (Julia Stockler).

 

Mas, parece que todo mundo gosta mais do livro. Eis o porquê: ao ler o livro eu crio cenas em minha mente. E as cenas são insuperáveis porque são minhas. Aí aparece o diretor e sacrifica minhas cenas, acrescenta outras que não saíram da minha cabeça e ainda inventa um puxadinho da história para abrigar uma atriz famosa, cujo nome aumentará as chances dele, diretor, ganhar prêmios.

No livro alegramo-nos com os feitos de Eurídice como exímia banqueteira ou como talentosa costureira ou como escritora e participante de passeatas no período pós-1964. Carol Duarte, Fernanda Montenegro e Julia Stockler numa passeata contra o obscurantismo de Brasília. Quer coisa mais adequada ao momento que o Brasil vive? Na adaptação para a tela tudo sumiu.

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O blog da Barnes & Noble oferece mais razões para filmes desapontarem os que leram o livro.

A adaptação, diz o blog, é inferior à expectativa, não só do leitor, mas do próprio autor. Stephen King criticou a versão cinematográfica de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick (1980). King ficou descontente com o fraco grita-e-corre de Shelly Duvall e a rapidez com que o personagem de Jack Nicholson passa do estado normal, equilibradíssimo, para a insanidade. No livro, a transmudação de Jack Torrence é muito mais gradual e dramática.

 

“Não imaginei que ele fosse assim”. Imaginei-o mais jovem (ou mais maduro), mais jeitoso, mais carismático. Tome 500 leitores (e principalmente leitoras) que gostaram de “50 Tons de Cinza” e você terá 500 ideias de como é o jovem bilionário Christian Grey e como rolam as cenas de sedução. O desapontamento é geral.

 

Tudo isso é ainda mais verdadeiro em filmes que lidam com utopias, como “1984” e “Fazenda Modelo”. A imaginação do leitor trabalha intensamente para dar rosto aos personagens. E nenhum se parece com os do cinema.

 

Outro problema vem da característica de cada meio. O cinema lida com imagens, o livro com descrições e diálogos. Se você colocar diálogo demais no filme, vira teatro filmado. Se não colocar faltarão informações para o espectador  se envolver na história.

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Há desafios insuperáveis no livro “A Vida Invisível de Eurídice Galvão”. Um deles é transportar para a tela a personagem Zélia, a fofoqueira. Segundo a autora, Zélia é “uma mulher de muitas frustrações. A maior delas é não ser o Espírito Santo, para tudo ver e tudo saber”. E a descrição prossegue: “Zélia estava na verdade mais para Lobo Mau do que para Espírito Santo, porque tinha olhos grandes para ver melhor, ouvidos grandes para ouvir melhor e uma boca muito grande, que distribuía entre os vizinhos as principais notícias do bairro”.

Zelia é filha do repórter Alvaro Staffa, testemunha da Gripe Espanhola de 1918. Alvaro “viu homens agonizando em vômitos de sangue e crianças conversando com mães que já estavam mortas. Doentes em delírio, expulsos de suas casas. Profetas de longas barbas anunciando o fim do mundo. Ouviu os gritos de antas da morte que vinham de janelas fechadas e contou as centenas de corpos nas ruas, em vão. Quando terminava a conta outro defunto aparecia, ou a carroça da prefeitura chegava para rebocar os corpos…”

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Na impossibilidade de materializar na tela os personagens e fatos do romance, o melhor é ficar com o encantamento e o fino humor do texto de Martha Batalha, que parece descender do Monteiro Lobato dos livros infantis. E creditar a Karim Aïnouz o mérito de colocar um bom filme sobre as brasileiras do pós-guerra na lista do Oscar.

 

 

 

 

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Posted on 8th janeiro 2020 in Sem categoria  •  No comments yet